Copa 'muda a vida' de cariocas para melhor e para pior

  • 6 junho 2014
Praia de Copacabana
A Copa no Brasil: fortuna para uns, desgraça para outros

Certa noite, em maio, Maria de Lourdes Soares perdeu o pouco que tinha para ganhar a vida quando a fiscalização apreendeu sua barraca de vender cocos e biscoitos na praia do Flamengo.

"Com a Copa vão chegar muitos turistas, muitos gringos. Eles não querem ver as barracas, querem ver as coisas lindas", se queixa a vendedora.

"O problema dos políticos e governantes é não querer mostrar para fora a pobreza do Rio".

Naquela mesma noite, José Luis Monteiro voltava de avião de São Paulo, onde tinha ido compartilhar com outros empreendedores seus segredos para ganhar dinheiro com o torneio.

Dono de uma pequena empresa de cimento pré-moldado, ele obteve o contrato para quatro grandes rampas e um anel ao redor do Maracanã, estádio que receberá sete partidas da Copa, incluindo a final.

Esse contrato elevou seu faturamento em 30% e lhe garantirá uma renda mensal suficiente para dois anos - um trampolim para novos horizontes.

"Essa obra gerou meu primeiro milhão", disse o empresário, de 53 anos. "Com esse dinheiro pude começar a construir minha segunda fábrica. "

Opostos

Maria de Lourdes e José Luís Monteiro representam dois extremos opostos da Copa do Mundo no Brasil, exemplos da ambivalência dos brasileiros diante do evento.

Quando a vendedora chegou à praia na manhã seguinte, encontrou sua barraca destruída.

Viúva, ela mora com a filha em São Gonçalo, do outro lado da Baía de Guanabara. Conta que leva três horas para chegar de ônibus à orla às seis da manhã, quando o movimento dos cariocas que saem para fazer exercício começa a se intensificar.

Ela diz que tem licença da prefeitura para operar a barraca, mas que as regras municipais a proíbem de guardar as mercadorias na areia. Como outros vendedores, ela diz que não tem dinheiro para pagar um depósito noturno.

Calcula que perdeu cerca de R$ 7 mil e se queixa de que ações fiscalizadoras como estas só ocorrem às vésperas de grandes eventos, como a Copa do Mundo.

Na mesma semana, o governo do Rio e a Receita Federal conduziram a Operação Barreira da Copa, que apreendeu 700 kg de mercadorias no valor de R$ 150 mil só nos primeiros dias.

A fiscalização mais rigorosa responde às exigências da Fifa de proteger as suas marcas e patrocinadores. Mas tocou um ponto nervoso em um país onde o comércio informal provê o sustento de muitas famílias.

"Eles querem mostrar um Rio que não existe", afirma. "Bonita é a Zona Sul. Vá ver a periferia: não têm água, saneamento, nada."

BBC
Maria de Lourdes: 'A Copa está destruindo tudo'

Os ambulantes engrossaram o Comitê Popular da Copa, uma organização que defende os direitos das pessoas removidas de suas casas para dar espaço às obras do torneio de futebol e das Olimpíadas de 2016.

Segundo o governo, as remoções atingem 9 mil pessoas. Os ativistas afirmam que o número é maior, e que os direitos dos afetados estão sendo desrespeitados.

Outros ambulantes na praia do Flamengo "estão sem trabalho, morrendo de fome", diz Maria de Lourdes. "A Copa está destruindo tudo."

'Oportunidades'

Já Monteiro entoa o coro dos empreendedores que aproveitaram a Copa e acreditam que o mundial não serve apenas aos propósitos econômicos dos grandes patrocinadores.

Filho de um imigrante espanhol mestre de obras, aprendeu o ofício ainda jovem. Quando jovem, vendeu ladrilhos. Em uma viagem à Europa, conheceu os segredos do cimento pré-moldado.

O produto consiste de peças inteiras que saem de fábrica em formas pré-determinadas, poupando tempo e trabalho na montagem da estrutura.

De volta ao Rio, fundou uma empresa, Trelicon, com o irmão, engenheiro. Em pouco tempo, tinha clientes e duas dezenas de empregados. Em uma crise de crescimento, procurou o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que o aconselhou em áreas como gestão e marketing.

Quando soube das obras no Maracanã, foi pessoalmente ao estádio oferecer seus produtos e em 2008 fechou seu "primeiro grande contrato", no valor de mais de US$ 1 milhão e duração de dois anos.

Hoje o Sebrae apresenta o case do empresário para ilustrar o empreendedorismo de brasileiros que se beneficiaram das oportunidades do mundial em áreas que vão da fabricação de móveis ao agronegócio.

Segundo o diretor técnico do Sebrae, Carlos Alberto dos Santos, até abril as empresas participantes do programa para a Copa da entidade tinham registrado negócios no valor de US$ 370 milhões.

"Em todos os 12 Estados cujas capitais vão sediar jogos da Copa, as empresas estão fazendo negócios", disse Santos.

José Luis Monteiro disse que nunca tinha visto tantas obras no Rio. "Por que não buscam essas oportunidades? Eu tenho uma pequena empresa e busquei a minha."

Apoio

Agora que as ruas do Rio timidamente se pintam de verde e amarelo, o futuro para os dois personagens entrevistados pela BBC traz tons constrastantes.

Soares, que recebe pensão de cerca de R$ 700 desde o falecimento do marido, recorreu a empréstimos junto aos amigos e clientes para repor parte da mercadoria apreendida. A filha, estudante de direito, está tentando recuperar o resto o mais rápido possível.

Estádio do Maracanã, no Rio
Pequeno empresário forneceu material para o novo Maracanã

A vendedora diz que não tem sabe como vai pagar as dívidas. "Na minha idade não tenho mais trabalho: aos 70 anos, ninguém quer me contratar", diz, enxugando as lágrimas.

Já Monteiro fechou novos contratos com o volume de produção, experiência e prestígio obtidos com a obra do Maracanã. Um deles, para fornecer material para trechos do Transcarioca, sistema de ônibus rápido inaugurado pela presidente Dilma Rousseff no domingo passado.

Participar da renovação da infraestrutura do Rio lhe dá "uma alegria que não tem preço", diz o empresário.

Nem todos os brasileiros estão otimistas quanto aos benefícios do mundial, segundo uma pesquisa recente do instituto americano Pew Research: 61% dos brasileiros acreditam que o torneio consumirá recursos públicos demais, enquanto 34% acreditam que a Copa criará empregos.

Apesar das diferenças, Maria de Lourdes e Monteiro têm um ponto em comum: questionam o investimento público feito no Maracanã – ao custo de quase R$ 1,5 bilhão – o benefício dessa obra para o público carioca.

"Como o governo gasta esse dinheiro para fazer um novo estádio e, em seguida, dá ao setor privado para explorá-la", questiona Monteiro. "Por que você não fez a licitação antes?".

"Por que investir os milhões do Maracanã em uma coisa decente que gere empregos para a gente", interroga a vendedora de côcos. "Uma coisa bonita..."

Notícias relacionadas