'Antipartido' da Espanha lança candidato que não aparece em público

  • 22 maio 2014
Hervé Falciani | Crédito: Divulgação/Red Ciudadana Partido X
Hervé Falciani lidera a lista de candidatos da Rede Cidadã Partido X para o Parlamento Europeu

Na corrida eleitoral ao Parlamento Europeu, há um candidato que, paradoxalmente, restringe ao máximo suas aparições públicas.

Hervé Falciani não tem endereço fixo e evita participar de comícios. Engenheiro de sistemas ítalo-francês, ele vive sob ameaças de morte e é protegido pela Justiça desde 2009, quando denunciou mais de 130 mil potenciais sonegadores de impostos de vários países europeus.

Na Espanha, Falciani encabeça a lista de candidatos da Rede Cidadã Partido X, um partido político criado em meio aos protestos contra a crise financeira.

"O Partido X não tem líderes; a Rede Cidadã Partido X é um imenso grupo de trabalho que se baseia na responsabilidade distribuída", explica Falciani, em texto publicado na página da agremiação.

O Partido X foge do tradicional. Não realizou nenhum grande comício, apenas pequenos encontros com eleitores nas ruas e nas praças públicas.

Entre mais de mil atos realizados pelo grupo nesta campanha, Falciani apareceu em público em apenas duas ou três ocasiões. Sem aviso prévio e sem alarde.

Rubén Sáez, um dos coordenadores da campanha do partido, admite que essa é uma limitação importante, mas que a candidatura do engenheiro tem tido resposta positiva.

Para ele, a figura de Falciani deu um impulso à campanha do Partido X em sua tentativa de "chegar a mais pessoas".

"Só sabemos que ele vai aparecer pouco tempo antes. Mas estamos acostumados a trabalhar em tempo real", comenta o coordenador.

Falciani aderiu ao partido quando o projeto já estava em andamento. "É como um companheiro a mais, que propõe soluções concretas. Ele contribui com o conhecimento profundo que tem dos mecanismos de evasão fiscal, e participa de maneira efetiva da luta contra a fraude fiscal e contra a corrupção", justifica Sáez.

Antipartido

Hervé Falciani | Crédito: Divulgação/Red Ciudadana Partido X
Rede Cidadã Partido X é um "antipartido", diz coordenador

O coordenador esclarece que a Rede Cidadã funciona como um "antipartido". Não há hierarquia nem cargos. Cada um atua, de forma voluntária, onde mais se necessita ou onde o trabalho seja mais efetivo.

O objetivo do partido nestas eleições europeias, diz Sáez, é evitar que "as pessoas que nos levaram à situação em que nos encontramos sejam as mesmas que nos digam como sair dela".

A Rede Cidadã Partido X é formada, quase em sua totalidade, por participantes e impulsores do movimento dos indignados, conhecido como #15M, que surgiu em maio de 2011.

Naqueles encontros de espanhóis que ocuparam praças e ruas em todo o país para protestar contra a crise e reivindicar mudanças socioeconômicas nasceram as primeiras conversas do que viria a se tornar a Rede Cidadã.

"Nenhuma sigla pode representar o que foi e o que é o #15M, um movimento muito maior do que qualquer partido político", pondera Sáez. "Somos apenas um filho a mais do #15M."

A lista de candidatos do Partido X ao Parlamento Europeu tem pessoas de diferentes perfis profissionais, mas nenhuma delas com carreira política profissional. Esse, aliás, foi um dos critérios para se chegar aos nomes dos representantes do partido.

A elaboração do programa eleitoral também teve a colaboração direta dos cidadãos. "Temos umas 1,5 mil emendas no programa e cerca de 2 mil no nosso plano de emergência para sair da crise", indica Sáez.

Esse é um exemplo do que o "antipartido" chama de "romper o bloqueio por parte das instituições e dos partidos políticos tradicionais" para que os próprios cidadãos elaborem as soluções e tomem o espaço eleitoral.

"Trata-se de que a democracia não seja nunca mais um cheque em branco que damos a cada quatro anos a um grupo de pessoas, sem que os cidadãos possam intervir quando as coisas não vão bem", afirma.

A ideia é que essa participação colaborativa ocorra também no Parlamento Europeu.

Saéz reconhece que, como o partido é emergente, é difícil ter um impacto nas urnas nestas eleições. Mas afirma que tem sido "gratificante" o diálogo com as pessoas.

"Os partidos políticos estão obsoletos e já não funcionam como uma corrente de transmissão da vontade cidadã. A Rede nasce para mudar esse conceito de organização política", reforça Sáez.

Representantes do partido confirmaram que Falciani votará em seu colégio eleitoral, em Barcelona.

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