Refugiada do Mali dá à luz quadrigêmeos após travessia de deserto

  • 12 maio 2014
Quadrigêmeos. Foto: DAMIEN FOLLET
Após cruzar deserto, família teve uma surpresa ao descobrir gravidez com quadrigêmeos

Ter quadrigêmeos nunca é uma tarefa simples – mas imagine tendo que lidar com quatro recém-nascidos em um acampamento de refugiados.

Em janeiro do ano passado, o fazendeiro Massaya Ag Iliyass e sua esposa Taghri Walet Tokeye deixaram a cidade onde viviam no Mali devido à violência entre forças do governo e rebeldes tuaregues.

O casal partiu a pé com seus seis filhos. Três deles já tinham idade para caminhar, mas os outros ainda eram bebês de colo. A única "comodidade" era um burro emprestado – que ajudava no transporte das cargas.

Eles caminharam por cinco dias e cinco noites.

"Foi um caminho muito longo e cansativo", disse Massaya. "Tínhamos que caminhar devagar para evitar o cansaço, e descansamos o máximo que pudemos."

O seu destino final foi o campo de refugiados de Mbera, na fronteira com a Mauritânia. Eles eram parte de uma onda de 15 mil pessoas que deixaram suas casas rumo ao campo em apenas um mês.

Ao chegar lá, eles descobriram péssimas condições. Cerca de 60 mil refugiados tentavam sobreviver nas temperaturas de 50 graus no deserto, com escassez de água e comida.

'Sorte'

Nesta época, Taghri percebeu que estava grávida. Mas ela sentiu que algo era diferente.

"Eu conseguia sentir que estava maior. Eu sabia que havia algo de diferente", disse ela, que fez uma ultrassonografia e que esperava quadrigêmeos.

Quando perguntada sobre o que sentiu na hora, Taghri dá uma grande risada. "Foi uma ótima notícia", diz ela.

Os médicos do campo de refugiados também ficaram animados com a notícia.

Quadrigêmeos. Foto: MSF
Família tem sobrevivido no acampamento, mas com perspectivas ruins para o futuro

"Em toda minha vida, eu nunca havia me deparado com quadrigêmeos", disse Kasonga Cheride, da entidade de caridade Médicos Sem Fronteiras, que presta atendimento aos refugiados.

Apesar das condições difíceis, o fato de estar refugiada talvez tenha salvado a vida de Taghri. Esse tipo de gravidez sempre envolve grandes riscos. Dois dos bebês não estavam em posição adequada para um parto natural, e nasceram com cesáreas. Sem esse procedimento, a vida de todos estaria em risco.

Ela teve anestesia epidural e disse não ter sentido dor alguma.

Os bebês nasceram de forma prematura, com 35 semanas de gestação (cinco a menos do que o previsto), e pesos entre 1,8 e 2,4 quilos. Após o nascimento, Taghri conseguiu amamentar todos – três meninos e uma menina.

Passado quatro meses, todos estão saudáveis. A família inteira – o casal e seus dez filhos – vivem em uma tenda sob o sol escaldante do campo de refugiados no deserto.

"Temos uma pessoa que nos ajuda com as crianças, mas está sendo muito difícil dormir", diz Taghri. Dois dos gêmeos (Farim e Oumar) são muito calmos, mas os outros dois (Ousmane e Aboubakrine) são bastante agitados e só param de chorar quando ganham colo.

Desemprego

O maior problema da família agora é o desemprego. Taghri sonha em voltar a ser costureira, profissão que abandonou quando deixou sua máquina para trás na mudança. Mas é difícil imaginar como isso seria possível tendo dez crianças para cuidar.

Massaya consegue alguns trabalhos fora do campo de refugiados, como cuidar de um rebanho de ovelhas, mas isso também causa problemas para a família.

"Quando não estou no campo, não consigo pedir rações de comida", diz ele. No entanto a família recebe ajuda de vizinhos.

Eles têm conseguido sobreviver, mas as perspectivas para o futuro não são muito boas.

"Não tenho muita esperança no futuro de meus filhos. No momento, eu não tenho nada, então não posso esperar nada para o futuro deles."

A agência de refugiados da ONU (Acnur) tem trabalhado para mudar a situação dessas pessoas. Mas até agora, só um dos filhos de Massaya frequenta escola. Só 40% das crianças no acampamento têm aulas.

O fluxo de refugiados para o campo diminuiu, já que a violência também teve uma redução no norte do Mali. No entanto, a situação ainda é instável e poucos se animaram a voltar para suas cidades.

"Temos que aceitar que estamos vivendo em um acampamento e que somos refugiados", diz Massaya. "Nós seguimos adiante."

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