Podem os EUA dar exemplo na ação climática?

  • 7 maio 2014
Barack Obama. AP
Garoto-propaganda, Obama visita áreas destruídas por tornados e tempestades

Com a divulgação de um importante relatório ambiental e uma bem orquestrada estratégia de marketing, a Casa Branca botou na rua a sua renovada agenda sobre mudança climática, que pode inclusive influenciar as negociações internacionais sobre o tema.

A estratégia incluiu um alerta feito por por meio de um gabaritado relatório científico divulgado na terça-feira e a mobilização de ninguém menos que o próprio presidente Barack Obama posando de garoto-propaganda para levantar a discussão.

Um porta-voz da organização WWF (World Wide Fund for Nature) disse à BBC Brasil que as medidas são “o indicativo mais forte do compromisso da Casa Branca com uma agenda para o clima”.

Para enfatizar a importância dela, Obama visita nesta quarta-feira áreas no Estado do Arkansas destruídas por tornados e tempestades.

O presidente passou a terça-feira dando entrevistas sobre a Avaliação Nacional sobre o Clima, um relatório científico encomendado pelo Executivo, elaborado por uma equipe de mais de 300 especialistas e discutido em colaborações multissetorais com a sociedade civil e empresas.

Problema ‘no presente’

O documento afirmou que os efeitos do aquecimento global já podem ser sentidos em todas as regiões dos Estados Unidos.

Segundo os cientistas, as temperaturas médias nos EUA aumentaram menos de 1ºC no último século (as médias regionais variam), mas isto foi suficiente para gerar episódios climáticos extremos em diferentes áreas do país.

Entre estes, estão a escassez de água nas regiões mais secas, chuvas torrenciais nas regiões mais alagadas e a multiplicação de incêndios e de insetos predadores em áreas de floresta.

Nos 48 Estados contíguos do país, sete dos dez anos mais quentes da história ocorreram desde 1998. A mais alta temperatura histórica foi igualada ou superada 356 vezes em 2012 – o ano mais quente e o segundo mais extremo da história americana.

Naquele ano, o furacão Sandy deixou prejuízos de US$ 65 bilhões na costa leste, ondas de calor causaram perdas de US$ 30 bilhões e a conta de outros episódios climáticos extremos se aproximou de US$ 15 bilhões, lista o documento.

“A mudança climática, antes considerada um problema para um futuro distante, agora aparece firme no presente”, afirmou o relatório.

O chefe do painel científico que elaborou a pesquisa, Jerry Mellilo, disse em entrevista que “todos os americanos vão encontrar coisas que lhes dizem respeito neste relatório”.

“De impactos nas suas regiões a impactos em outras regiões que afetam o ar que respiramos e as nossas fontes de comida, água e energia”, exemplificou. “Todos estamos pagando os custos do calor extremo, das chuvas torrenciais e de temporais mais violentos na costa.”

Ação climática

O documento foi aplaudido por organizações ambientais. “É uma parte de um conjunto de iniciativas que, juntas, mostram que a Casa Branca está levando a agenda climática a sério”, disse à BBC Brasil o vice-presidente da ONG WWF para a mudança climática, Lou Leonard.

O Congresso americano não ratificou o chamado Protocolo de Kyoto, que obrigou os países ricos a adotar metas de redução de emissões de gases de efeito estufa – consideradas pelos cientistas a principal razão da mudança climática.

Porém, o governo Obama tem agido nas duas fontes que mais respondem pelas emissões americanas: o setor de geração de eletricidade e o setor de transportes (32% e 28% das emissões de 2012, segundo a agência ambiental americana).

No mês que vem, a agência divulgará novas regras estabelecendo parâmetros para a emissão das usinas geradoras de eletricidade, o que na prática pode aposentar as mais poluidoras. Segundo o governo, 70% da eletricidade gerada no país queima combustíveis fósseis.

No ano passado, as regras da agência para a construção de novas usinas limitaram fortemente o nível autorizado de emissões, o que no futuro deve incentivar projetos de captura de carbono para compensar a poluição.

Já no setor automotivo, as reformulações das regras de eficiência de combustível nos últimos cinco anos já resultaram na maior eficiência da frota de carros e caminhões. Apesar de um aumento nas distâncias percorridas, a demanda por gasolina tem ficado estável no país.

O objetivo é que em 2025 os veículos rodem 55 milhas com um galão de gasolina (quase 20 quilômetros por litro).

Com essas e outras medidas, em 2012 os EUA reduziram em 10% as suas emissões em relação a 2005. A meta do governo Obama é elevar este percentual para 17% em 2020.

“Estas políticas são tão agressivas quanto muita gente gostaria? Não, mas são as políticas possíveis com base na autorização que o Congresso deu ao Executivo”, disse à BBC Brasil Brian Murray, diretor de análise econômica do Instituto Nicholas de políticas ambientais da Duke University, na Carolina do Norte.

Sinalização para o mundo

Murray explica que o governo Obama tem usado poderes executivos para regulamentar a questão através da chamada Lei do Ar Limpo (do original Clean Air Act). O problema é que a legislação regulamenta a questão setor por setor, “o que às vezes gera lentidão”, explica Murray.

Porém, a chance de o governo aprovar no Congresso uma legislação que permita mudanças mais rápidas é considerada nula por especialistas. Muitos congressistas inclusive acusam Obama de promover uma “guerra contra o carvão”.

“A Casa Branca não tem nenhuma boa razão política para fazer isso agora. A questão toda é um campo minado”, diz Lou Leonard, da WWF.

Analistas acham que Obama quer deixar um legado em uma área na qual pode legislar, ainda que de forma limitada, sem passar pelo Congresso.

Outra parte da explicação estaria em um desejo do presidente de colocar o país na liderança global da ação climática, uma postura diferente da adotada pelo governo republicano de George W. Bush, que rejeitou os compromissos do Protocolo de Kyoto.

Duas reuniões internacionais cruciais sobre o clima estão previstas para o fim deste ano e do próximo (em Lima e Paris, respectivamente). Espera-se um acordo histórico em 2015 para substituir Kyoto.

Uma posição firme dos EUA não só teria repercussões sobre o clima do planeta – os EUA e a China são os principais emissores de gases estufa do mundo – como poderia forçar outros países a adotar posições igualmente fortes.

“Os países estão olhando uns para os outros, e principalmente para os EUA e a China, para ver o que vai ser colocado na mesa de negociações”, diz Leonard.

Ele diz que a Casa Branca está “em uma posição difícil”, porque sem apoio do Congresso não poderá apresentar uma meta numérica mais ambiciosa de redução das emissões.

“Por outro lado, estar no bom caminho quanto à redução de carbono é a única maneira de cobrar dos outros países esforços maiores no mesmo sentido.”

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