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Mujica legaliza maconha e diz que 'viver é experimentar'

Atualizado em  7 de maio, 2014 - 07:59 (Brasília) 10:59 GMT
José Mujica | AFP

Presidente uruguaio reconhece cominho difícil, mas espera deixar 'conhecimento' para a humanidade

O presidente uruguaio José Mujica afirma que a legalização da maconha no Uruguai é "um experimento" e que "os retrógrados que não querem mudar nada, certamente vão se surpreender."

Na terça-feira, Mujica deu uma entrevista por telefone à BBC Mundo, no mesmo dia em que assinou o decreto que regulamenta a lei da maconha.

A legislação, aprovada em dezembro pelo Parlamento uruguaio, fez deste país de 3,3 milhões de habitantes o primeiro a pôr nas mãos do Estado a produção, distribuição e venda de maconha.

Mujica disse que a repressão às drogas em seu país estava cada vez pior e agora ensaia "um caminho que é difícil, mas que pode deixar um pouco de conhecimento à humanidade".

O líder uruguaio não acredita que vá discutir o tema a fundo com o presidente americano, Barack Obama, quando os dois se encontraram na próxima segunda-feira, em Washington.

"O país que mais comercializa a maconha é os Estados Unidos", afirma.

"Mas o que acontece é que eles não fazem nada com espírito de experimentar. Vão direto pela via do mercado, vendendo sem cuidado e acabou", disse ele, referindo-se aos Estados americanos que liberaram a maconha para uso recreativo ou medicinal.

A seguir, um resumo da entrevista com Mujica à BBC Mundo.

BBC - O Uruguai abriu um caminho para que na região seja considerada uma alternativa à "guerra contra as drogas"?

José Mujica - Primeiro temos que andar um pouco, viver um pouco. E, em seguida, fazer um balanço do que descobrirmos, de tudo que deu certo e ver como podemos mudar. Então, eu recomendo cautela. Esta lei tem 100 artigos. E não é o que alguns acreditam: que foram abertas as portas para que as pessoas consumam drogas a torto e a direito.

O fato é que há 25 anos estimávamos haver entre mil e 1,5 mil consumidores. Hoje temos 150 mil. Nestem 25 anos, reprimimos, prendemos, confiscamos cargas e o animal continua crescendo. Por isso mudamos a estratégia.

Mas eu lhe digo: o novo caminho é triunfal? Não, não. Estamos em um caminho de experimento. Um experimento feito com honradez intelectual, mas não para incentivar a propagação de um vício que, como qualquer vício, é uma praga.

BBC - Mas você aprovou a lei convencido de que este é o melhor caminho?

Mujica - Estou convencido pelo conselho de Einstein: quando você quer mudar as coisas e voltar a fazer o mesmo, nada muda. Há muitos anos estamos reprimindo, perseguindo e estamos cada vez pior. Então começamos a pensar em alternativas. E, por isso, eu uso a palavra experimento.

BBC - Olhando para os próximos 10 ou 15 anos para o futuro , Uruguai continuará a ser uma exceção regional?

Mujica - Apesar de ter quase 79 anos, tenho um coraçãozinho capaz de sonhar. Se formos capazes de descobrir alguns elementos que ajudem, que outras sociedades adotem, que se enriqueçam, estaremos dando nossa contribuição.

É essa intenção que temos no fundo de nossos corações. Porque o Uruguai é pequeno e pode fazer coisas que a um país grande vai custar muito mais.

Porque nós não somos preconceituosos. Porque nós somos um país secular. Sempre tivemos algum grau de aventura, e talvez de um bom liberalismo no seu sentido mais profundo: não econômico, mas de experimentar diferentes caminhos. Foi assim com o divórcio, com a abordagem sobre o álcool, em 1915, o reconhecimento da prostituição e assim por diante. É uma característica do Uruguai.

BBC - A Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE) da ONU e a oposição no Uruguai criticam que a população esteja sendo usada neste experimento. O que acha disso?

Mujica - Mas a vida é um experimento. Somente os dogmáticos, os sectários, os que se negam a qualquer mudança, podem ficar contra a honradez da palavra experimento. Viver é experimentar, buscar soluções que às vezes funcionam e às vezes não. Por que agora reconhecemos o casamento homossexual e antes não? Por que mudamos? E a escravidão, como foi que acabou?

Toda a vida foi assim. Agora, os retrógrados que não querem mudanças certamente vão se assustar. Eu reivindico a palavra experimento.

BBC - E qual é o parâmetro que tem de ser considerado para ver se esse experimento funcionou bem ou mal?

Mujica - Vamos ver como tudo vai se desenrolar, se cresce ou não o número de consumidores, se se multiplica o peso do narcotráfico ou se diminui, o que vai acontecer nas prisões.

Hoje pelo menos um terço de nossa população carcerária está ligada ao narcotráfico ou ao uso de drogas. Tudo isto vamos começar a medir estatisticamente. E teremos que tirar alguma conclusão social disto. Eu não vou me impressionar pelos gritos contra mim. Tenho minha maneira de pensar.

BBC - Dentro de alguns dias o senhor vai se reunir com o presidente americano na Casa Branca. Este assunto vai estar na agenda?

Mujica - Acho que não muito. Porque o país que mais comercializa maconha é os Estados Unidos. É um fato. Mas o que acontece é que não o fazem com o espírito de experimentar nem nada. Vão direto pela via do mercado, vendendo sem cuidado e acabou. Há 22 Estados que estão vendendo.

Comentários

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    Número do comentário 27.

    Ao ler o relato do Victor Hugo fiquei confuso, a partir de algumas premissas das quais tenho conhecimento (e que fique claro, eu não uso).

    Estudos apontam que a maconha é droga perturbadora, portanto, causa confusão mental, como seria possível ler um livro? E mais, interpretá-lo e absorver o conteúdo?

    E mais, a maconha tem efeitos de "desaceleração" da atividade cerebral (com perturbação de ideias), isto significa que sujeito entra num estado anestésico, o que representa a "paz" de quem consome, ou minimar a dor de pacientes terminais (neste caso, com a "manobra" do entorpecimento, o cérebro reduz atividade e cognição, o que explicaria o "fator positivo" no uso "medicinal", ou seja, o cérebro "esquece" que o corpo está doente.

    A descriminalização tem muitos interesses, um deles, tem relação com o aumento do consumo nas classes mais altas, e isto inclui parentes e amigos de políticos. Descriminalizar, portanto, tem o viés de afastar este tipo de público da insegurança e violência dos locais onde se comercializa, e claro, extirpar o risco de ser flagrado pela Polícia.

    A Criminologia tem nos ensinado, mas poucos aprendem, que os governos tendem a minimizar ou até mesmo eliminar consequências jurídicas nos crimes que podem ser cometidos pelos mais abastados, é uma proteção valiosa, e tendem a endurecer com penas mais rígidas os crimes mais "populares".

    Que fique a reflexão!

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    -1

    Número do comentário 26.

    Este senhor estaria a trabalho do Narcotráfico? Ou Política fiscal aos olhos do Governo sem se importar que a população irá adoecer? Ou quem sabe as duas coisas. Governos no geral não se preocupam muito com aqueles que são governados, especialmente em países subdesenvolvidos.

    Legalizar, ou descriminalizar a maconha não reduzirá o narcotráfico, pois as outras drogas continuarão na ilicitude. Por esse argumento de redução, se vê que o posicionamento desse governo é falacioso.

    Pelo que li, umas das regras para poder consumir no Uruguai é estar cadastrado, aí fica a dúvida, os usuários alegam que é direito e liberdade sua poder usar, mas terão os passos controlados por governos, isso é mesmo liberdade?

  • Número do comentário 25.

    Este comentário foi removido porque ele viola a regras. Explicar.

  • Número do comentário 24.

    Este comentário foi removido porque ele viola a regras. Explicar.

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    Número do comentário 23.

    viva a maconha (2)

 

Comentários 5 de 27

 

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