'Deveríamos tratar porte de drogas como tratamos infração de trânsito'

  • 7 maio 2014
Carl Hart (Divulgação)
O neurocientista defende a descriminalização das drogas

O neurocientista Carl Hart, de 47 anos, acreditou durante boa parte da vida que as drogas tinham um alto poder viciante e seriam a causa de diversos problemas sociais.

Tendo crescido na periferia de Miami, ele viu amigos e familiares se tornarem dependentes do crack, recorrerem a crimes para sustentar o consumo e acabarem presos ou mortos ao se envolver com o tráfico. Sua visão mudou quando tornou-se pesquisador nos anos 1990.

Na busca por uma forma de impedir que as drogas viciem, Hart estudou o comportamento de dependentes e chegou à conclusão de que estas substâncias não são tão viciantes como imaginava.

Hart oferecia US$ 5 a dependentes para que não tomassem uma segunda dose diária de crack. Se a primeira havia sido alta, os dependentes normalmente optavam por uma nova dose. Mas, se a primeira havia sido pequena, era mais provável que abrissem mão da segunda dose. Isso mostrou ao cientista que os dependentes eram capazes de tomar decisões racionais.

Hart replicou o estudo com a droga metanfetamina e chegou aos mesmos resultados. Ainda descobriu que, ao aumentar o valor para US$ 20, todos os dependentes optavam pelo dinheiro. A descoberta o fez investigar ainda mais a fundo o universo da drogas e chegar à conclusão de que muitas premissas nas quais se baseiam as atuais políticas governamentais sobre drogas são invalidadas por pesquisas científicas.

Sua experiência está resumida em Um Preço Muito Alto (Editora Zahar), que será lançado neste mês no Brasil. No livro, Hart detalha episódios pessoais com as drogas – ele chegou a traficar maconha – e explica como sua afinidade por esporte, música e literatura, além do tempo em que serviu no Exército e dos conselhos recebidos por seus mentores, o levaram por um caminho diferente.

Hoje, Hart é professor de psicologia e psiquiatria na Universidade Columbia, o primeiro negro a ocupar esse cargo, e é pesquisador da Divisão de Abuso de Substâncias do Instituto de Psiquiatria de Nova York. A BBC Brasil conversou com Hart, que está no Brasil para lançar seu livro e realizar palestras sobre drogas.

Na entrevista a seguir, ele defende que a problemas sociais, como a pobreza e a falta de educação, são mais preponderantes do que o potencial viciante de substâncias químicas. Diz que é preciso esclarecer os mitos e reais perigos das drogas para que as pessoas tomem decisões conscientes e advoga pela descriminalização, mas pela legalização. "Ainda somos muito ignorantes para isso", diz.

BBC Brasil - O senhor diz que a política empregada contra as drogas está equivocada. Por quê?

Carl Hart - Na maioria do mundo, as políticas de drogas são baseada em premissas falsas como, por exemplo, que drogas são muito viciantes, perigosas e imprevisíveis. As pessoas pensam que se viciarão ao usar cocaína uma única vez ou que a maconha leva a drogas mais pesadas. Em ambos os casos, é mentira, assim como muitos dos danos que as drogas supostamente causam ao cérebro. A maioria das pessoas usa drogas de forma segura. Dirigir é estatisticamente perigoso, mas não dizemos que uma motorista certamente sofrerá um acidente ou que passará por uma situação perigosa sempre que entrar no carro. Fazemos isso com as drogas. Ao basear uma política em mentiras, as leis em torno dela não refletem a realidade.

Um Preço Muito Alto (Divulgação)
No livro, Hart mescla experiências pessoais e pesquisas

BBC Brasil - Em seu livro, o senhor diz que só 10% a 20% das pessoas se viciam em crack e metanfetamina. Esse índice é alto ou baixo?

Hart - Quem diz isso são as pesquisas feitas nos Estados Unidos nos últimos 30 anos. O índice é relativamente baixo porque significa que a grande maioria não se vicia. Mesmo entre as que se viciam, isso normalmente acontece quando elas são jovens. Quando somos jovens, cometemos erros.

BBC Brasil - Por que algumas pessoas se viciam e outras não?

Hart - Algumas porque tem outros problemas psiquiátricos, como ansiedade, esquizofrenia ou depressão. Usam drogas e não percebem que têm que se tratar. Com celebridades ou pessoas muito ricas, é comum que elas tenham tido alguém dizendo o que podem ou não fazer. Quando usam drogas, não fazem isso de forma responsável. Outras se viciam porque se drogar é a melhor opção que têm em suas vidas. Questões sociais normalmente têm um papel mais importante do que qualquer outro fator. Mas podemos influenciar nestas questões. Se as pessoas estão desempregadas e sem alternativas, podemos tentar garantir que tenham empregos. Podemos mostrar que são valorizadas e fazer com que sejam incluídas na sociedade.

BBC Brasil - Por que o senhor não concorda com a noção de que a maconha é a porta para o vício em outras drogas?

Hart - Porque os dados não apoiam isso. É verdade que usuários de heroína e cocaína usaram maconha em algum momento, mas o inverso não é verdadeiro. Os últimos três presidentes americanos experimentaram maconha e chegaram a um dos cargos mais poderosos do mundo. É assim com a maioria das pessoas que fuma maconha: eles seguem com suas vidas, trabalham, pagam impostos.

BBC Brasil - O senhor diz que é um erro separar a maconha de outras drogas tidas como mais pesadas, por quê?

Hart - Todas as drogas são psicoativas, interferem com o cérebro para gerar seu efeito. Todas são potencialmente perigosas, mas também podem ser usadas de forma segura se as pessoas têm acesso a informações e são educadas sobre o assunto. Por isso não faz sentido tratar a maconha de forma diferente, como hoje fazemos com o álcool, por exemplo. Um pessoa pode morrer de abstinência de álcool, mas não de maconha, de cocaína ou heroína.

BBC Brasil - E por que tratamos álcool de forma diferente?

Hart - Porque a população em geral é muito bem informada sobre o álcool. Não acreditariam se disséssemos dizer que, se uma pessoa bebe, ela enlouquece ou mata seus familiares. Mas quando isso é dito sobre cocaína e, de certa forma, sobre a maconha, as pessoas acreditam porque não têm conhecimento ou experiência sobre estas drogas. Se algo é reiterado por tanto tempo, como estamos fazendo com os mitos das drogas, vira verdade, mesmo que não seja.

BBC Brasil - Tendo tudo isso em mente, como deveríamos lidar com as drogas?

Hart - Primeiro, corrigir as falsas premissas sobre drogas e acabar com a desinformação. Depois, é preciso criar leis para tratar o consumo ou porte de drogas como tratamos hoje uma infração de trânsito. Não deveríamos prender pessoas. É preciso manter os usuários e dependentes fora da prisão, onde há outros problemas e doenças. Deveríamos multá-las ou dar um alerta. Não deveríamos haver uma guerra contra drogas porque há uma guerra contra dirigir carros. Precisamos mudar nossa abordagem se queremos aumentar a segurança de nossa sociedade.

BBC Brasil - Por que isso não é feito?

Hart - Há governos que fazem o que sugiro, como os da Noruega e da Suíça, mas suas sociedades são homogêneas. Em sociedades como a brasileira e a americana, que são muito diversas social e etnicamente, a política de drogas é usada como uma ferramenta para perseguir grupos que não são muito bem quistos. Para mostrar que eles são inferiores. O racismo tem um papel nisso. Ninguém admite, mas é que vemos quando analisamos as evidências e os dados.

BBC Brasil - Algumas pessoas podem pensar que o senhor defende a legalização das drogas, mas não é esta posição que o senhor defende, certo?

Hart - Ainda somos muito ignorantes para legalizar as drogas. Primeiro, temos que acabar com os mitos e descriminalizar em vez de responsabilizar as drogas por tudo que há de errado na sociedade.

BBC Brasil -Em grandes cidades do Brasil, como Rio e São Paulo, os governos vêm tentando acabar com áreas de consumo conhecidas como "cracolândias". Parte desse esforço envolve internar essas pessoas à força em clínicas com o aval de suas famílias. Como o senhor vê esse tipo de política?

Hart - Você gostaria que fizessem isso com você? Provavelmente não. Fazer isso é ridículo.

BBC Brasil - O argumento é que estes dependentes estão num estado crítico que não permite a eles tomar esse tipo de decisão se precisam de tratamento ou não.

Hart - Quem pensa assim está completamente errado. Em minha pesquisa, lidei com muitos dependentes de crack. Estas pessoas têm condições de tomar decisões por si mesmas. Se uma pessoa comete um crime ou infração, deve ser punida, mas não podemos forçá-la a fazer algo contra sua própria vontade. Isso é barbárie.

BBC Brasil - Ao mesmo tempo, em São Paulo, a prefeitura oferece emprego, com remuneração de R$ 15 por dia de trabalho, cursos de capacitação e abrigo para os dependentes. Isso pode funcionar?

Hart - Parece ser um passo na direção certa. Mas é preciso ter certeza que estas pessoas acreditam que suas vidas melhorarão se elas fizerem isso. Deixar claro que isso as tirará de uma situação terrível, que as levará a ter uma vida mais responsável. Que permitirá a elas cuidar de suas famílias.

BBC Brasil - Como podemos mostrar isso a elas?

Hart - As pessoas não são estúpidas. Se você diz que ganharão certa quantia em dinheiro para fazer uma coisa e que espera-se delas certas atitudes, elas sabem isso será bom. É o que minha pesquisa mostrou.

BBC Brasil - Mesmo os mais jovens têm capacidade de usar racionalmente as drogas? Muitos pais acreditam que eles não estão preparados.

Hart - Sou pai. Tenho filhos de 13 e 19 anos. Sei que eles agirão racionalmente com as drogas porque ensinei isso a eles. Expliquei desde muito cedo. Mas as drogas não são o principal assunto entre nós. Falamos mais de como eles se comportarão em sociedade e como contribuirão para ela. Eles fazem coisas erradas como qualquer criança ou adolescente, porque querem testar limites. Mas, no fim das contas, um adolescente sabe o que é ir longe demais se os pais fazem um bom trabalho. O problema é que há muitos que não fazem um bom trabalho.

BBC Brasil - Como o senhor prepara o seus filhos para as drogas?

Hart - Sei, por exemplo, que uma das principais drogas consumidas por adolescentes é o álcool, então, falamos muito sobre isso. Também falamos sobre maconha, a droga ilegal mais usada. Explico que eles e os amigos devem começar por doses menores e ter cuidado com o lugar onde estão se forem usar drogas. Ainda digo que, em caso de qualquer problema, devem me ligar para que possa garantir que estejam seguros.

BBC Brasil - No livro, o senhor reconta sua própria experiência com as drogas. Por que decidiu incluir esse relato pessoal?

Hart - Porque queria que todos soubessem que a maioria de nós usa drogas em algum momento e que isso não impede alguém de ser um membro produtivo da sociedade. Muitas pessoas são hipócritas e dizem que nunca usaram drogas. Não queria ser hipócrita.

BBC Brasil - O senhor ainda usa drogas?

Hart - Claro que sim. Bebo e tomo medicamentos.

BBC Brasil - E drogas ilegais?

Hart - Sou muito inteligente para usar drogas ilegais. Não preciso buscar drogas nas ruas. Posso ir ao meu médico para conseguir isso. Esse é um dos benefícios de envelhecer e ser responsável: poder obter suas drogas legalmente. E o corpo não faz distinção entre substâncias legais e ilegais.

BBC Brasil - O senhor defende uma posição polêmica. Sofreu algum tipo de represália ou prejuízo por conta disso?

Hart - Com certeza. Às vezes, acreditam que defendo a legalização de drogas e me tratam de forma diferente, mas a maioria das reações têm sido positivas. Dizem que gostariam de poder dizer o que digo.

BBC Brasil -Mas o senhor perdeu financiamentos de pesquisa, não?

Hart - Ninguém disse que foi por causa disso, mas é o que suspeito. Isso não me surpreende. Porque, assim como a polícia, cientistas se beneficiam da histeria criada em torno das drogas. Se você diz à população que drogas são terríveis, mais dinheiro é dado para cientistas e policiais para lutar contra o impacto e efeitos das drogas.

BBC Brasil - O quão difícil é contrariar uma noção tão estabelecida na nossa sociedade?

Hart - É difícil, mas sou um negro que cresceu nos Estados Unidos. A dificuldade faz parte da minha vida.