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Mortes de estudantes abalam comunidade africana no Ceará

Atualizado em  5 de maio, 2014 - 04:51 (Brasília) 07:51 GMT

Há hoje entre 700 e 800 jovens guineenses em Fortaleza, a maioria matriculada em universidades privadas

Nascida na Guiné-Bissau, país na África Ocidental que é um dos mais pobres e instáveis do mundo, Ciserina Santos se mudou para Fortaleza há quatro anos para cursar uma faculdade privada, paga do próprio bolso.

Neste ano, a jovem de 29 anos se formou em tecnologia da informação e descobriu que estava grávida do companheiro.

Dois meses depois de sua formatura, em março, Santos deu entrada no hospital estadual César Cals com febre e dores no corpo. Segundo amigos, ela temia estar com dengue.

Na madrugada seguinte, a jovem perdeu o bebê. Ela passou um mês internada e, no dia 24, morreu após sofrer um derrame.

Em janeiro, outro estudante guineense morreu em Fortaleza. Lester Raul Indeque, de 31 anos, havia ido ao hospital estadual São José para uma consulta. Acabou internado e diagnosticado com pneumonia. Ele morreu no hospital alguns dias depois.

Como sua família não tinha dinheiro para transportar o corpo até a Guiné-Bissau, amigos e parentes fizeram uma campanha no Facebook para arrecadar recursos para o translado.

A campanha teve o apoio do Movimento Pastoral Africano, grupo criado pela primeira leva de estudantes guineenses a aportar em Fortaleza, em 2009. O movimento diz que o transporte custou cerca de R$ 25 mil.

Menos de três meses após conseguir levar o corpo do jovem de volta à Guiné-Bissau, o grupo agora colhe doações para devolver o corpo de Ciserina Santos à sua família. As mortes revoltaram os guineenses em Fortaleza.

"Não é possível que duas pessoas deem entrada no hospital e nenhuma delas sobreviva", diz Alberto Imbunde.

Imbunde afirma que os médicos não deram a devida atenção aos seus compatriotas e que o hospital César Cals não esclareceu a morte de Ciserina Santos. "Não sabemos de nada. Queremos que um médico faça um laudo, nos mostre o que aconteceu".

Em nota à BBC Brasil, o hospital César Cals disse que Santos deu entrada no hospital com suspeita de aborto e foi prontamente atendida.

Segundo o hospital, o aborto "desencadeou o surgimento de doença trombótica que evoluiu para insuficiência de múltiplos órgãos".

A paciente, diz a nota, respondeu bem ao tratamento e foi transferida para a enfermaria "consciente e em bom estado clínico". "Após cerca de quatro dias, apresentou acidente vascular cerebral hemorrágico, evoluindo com morte encefálica."

O hospital diz que médicos, psicólogos e assistentes sociais se reuniram com os familiares para explicar a situação clínica da paciente, e que o corpo passou por necropsia no curso de medicina da Universidade Federal do Ceará.

Procurado, o hospital São José não respondeu questionamentos sobre a morte de Lester Raul Indeque.

Dificuldades em Guiné-Bissau

Indeque e Santos integravam um grupo cada vez mais numeroso de estudantes da Guiné-Bissau no Ceará.

Segundo o Movimento Pastoral Africano, há hoje entre 700 e 800 jovens do país africano em Fortaleza, a maioria matriculada em universidades privadas.

Outros 181 jovens guineenses moram no interior do Estado, em Redenção, sede da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira). Criada em 2010 pelo governo federal, a universidade atraiu ainda mais estudantes estrangeiros – principalmente africanos de países lusófonos – para o Ceará.

Hoje, além dos 181 guineenses, estudam na Unilab 32 alunos de Angola, 12 de Moçambique, 72 de Timor Leste, 50 de Cabo Verde e 29 de São Tomé e Príncipe.

Presidente do Movimento Pastoral Africano, Alberto Imbunde diz que seus compatriotas têm buscado o Brasil por causa das dificuldades para cursar universidades na Guiné-Bissau.

Neste mês, dois anos após sofrer um golpe militar, o país realizou o primeiro turno de eleições para a Presidência e o Parlamento. Espera-se que o novo governo possa estabilizar o país e se dedicar aos problemas mais urgentes dos guineenses.

Imbunde diz esperar que as autoridades nacionais deem maior assistência aos guineenses no Brasil.

Segundo ele, a embaixada guineense não ofereceu nenhuma ajuda para o translado dos corpos.

A BBC Brasil procurou a embaixada da Guiné-Bissau em Brasília, mas foi informada de que a embaixadora Eugénia Saldanha Araújo estava fora do país. O funcionário encarregado de tratar das mortes não foi localizado.

"Se não procuram nem saber como estão os vivos, como vão se preocupar com os mortos? É triste. Estamos nos sentindo sem Estado nem governo, como que jogados para sobreviver", diz Imbunde.

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