'Atlântida' entre Grã-Bretanha e Europa sumiu sob o mar após tsunami de 5 m

  • 1 maio 2014

Uma "Atlântida" pré-histórica no Mar do Norte pode ter sido abandonada após ser atingida por um tsunami de 5 metros há 8,2 mil anos, sugere um estudo britânico.

A onda foi causada por um deslizamento de terra de grandes proporções ocorrido debaixo d'água na costa da Noruega.

Analistas acreditam que o tsunami invadiu Doggerland, uma massa de terra que desde então desapareceu sob as ondas.

"Foi abandonada por tribos mesolíticas há cerca de 8 mil anos, que foi quando ocorreram os três Storegga slides (os deslizamentos debaixo d'água no limite da plataforma continental norueguesa, que estão entre os maiores deslizamento de terra conhecidos)", disse Jon Hill, do Imperial College em Londres.

A onda pode ter levado os últimos habitantes das ilhas.

A pesquisa foi divulgada na publicação científica Ocean Modelling, e está sendo apresentada na Assembleia Geral da União Européia de Geociências em Viena, Áustria, nesta semana.

Simulação

Objetos pré-históricos foram encontrados no Mar do Norte

Hill e seus colegas do Imperial College Gareth Collins, Alexandros Avdis, Stephan Kramer e Matthew Piggott usaram simulações criadas em computador para explorar os possíveis efeitos do deslizamento de terra norueguês.

Ele disse à BBC: "Nós fomos os primeiros a criar um modelo do tsunami Storegga levando em conta a presença de Doggerland. Estudos prévios utilizaram a profundidade atual do oceano."

Dessa forma, o estudo fornece o conhecimento mais detalhado até o momento sobre os possíveis impactos do grande deslizamento e sua enorme onda que atingiu essa terra perdida.

Durante a Era do Gelo, os níveis do mar eram muito mais baixos, e, em sua extensão máxima, Doggerland conectava a Grã-Bretanha à Europa continental.

Era possível para caçadores andarem desde o que hoje é o norte da Alemanha até o leste da Inglaterra.

Mas há 20 mil anos, os níveis do oceano começaram a subir, gradualmente inundando a região.

Jardim do Éden

Este objeto foi encontrado na região onde um dia esteve Doggerland

Há cerca de 10 mil anos, a região ainda tinha uma das mais ricas áreas para caça, pesca e caça de aves selvagens na Europa.

Uma grande bacia de água fresca ocupava o centro de Doggerland, alimentada pelo rio Tâmisa pelo oeste, e pelo rio Reno no leste. Suas lagoas, pântanos, e áreas alagadas eram um refúgio da vida selvagem.

"Em tempos mesolíticos, era o paraíso", explicou Bernhard Weninger, da Universidade de Cologne na Alemanha, que não participou do estudo recente.

Mas 2 mil anos depois, Doggerland se tornou uma ilha pantanosa de baixa altitude que correspondia à uma área do tamanho do País de Gales.

Barcos pesqueiros no Mar do Norte retiraram do fundo do mar ossos pré-históricos pertencentes a animais que um dia vagaram por esse "Jardim do Éden" préhistórico.

As águas também forneceram uma pequena quantidade de restos humanos e artefatos através dos quais cientistas puderam obter uma datação por radiocarbono, que usa a ocorrência natural de carbono-14 para determinar a idade de materiais carbonáceos até cerca de 60 mil anos.

Eles também mostraram que nenhuma dessas relíquias datam de depois do tsunami.

Evento catastrófico

O deslizamento Storegga envolveu o colapso de cerca de 3 mil quilômetros cúbicos de sedimento.

"Se você pegar esse sedimento e colocar sobre a Escócia, cobriria o país e o deixaria a uma profundidade de 8 metros", disse Hill.

Dado que a maior parte de Doggerland tinha nessa época menos de 5 metros de altura, esse pedaço de terra pode ter sofrido inundações.

Este machado do período mesolítico foi encontrado no Mar do Norte por um pescador holandês em 1988

"É plausível que o deslizamento Storegga foi de fato a causa do abandono de Doggerland durante a Era Mesolítica", escreveu o time de cientistas na publicação Ocean Modelling.

Hill disse à BBC: "O impacto em qualquer pessoa que estava vivendo em Doggerland na época teria sido enorme, comparável ao do tsunami no Japão em 2011."

Mas Bernhard Weninger suspeita que Doggerland já havia sido evacuada quando o deslizamento ocorreu.

"É possível que pessoas chegassem de barco para pescar, mas eu duvido que haviam moradores permanentes", ele explicou.

"Eu acredito que já estava tão alagado nesta época que os dias de glória de Doggerland já haviam passado."

Registro escasso

Vince Gaffney, arqueólogo da Universidade de Birmingham, na Grã-Bretanha, disse: "Eu acho que eles (os pesquisadores) estão provavelmente certos, porque o tsunami teria sido um evento catastrófico."

Mas ele ressaltou que o registro arqueológico era escasso, e lembrou que dois machados do período neolítico (após Storegga) foram retirados da área de Brown Banks no Mar do Norte.

É possível que eles tenham sido jogados de um barco, acidentalmente ou como oferenda em um ritual, no entanto não é claro exatamente quando Doggerland finalmente sucumbiu às ondas.

"Mesmo depois de grandes erupções vulcânicas, as pessoas voltam, às vezes porque é impossível não voltar, mas também porque os recursos estão lá", disse Gaffney, o autor do livro, Mundo Perdido da Europa: A Redescoberta do Doggerland.

O tsunami também teria afetado o que é agora a Escócia e a costa leste da Inglaterra, bem como a costa norte da Europa continental.

Estima-se que a onda que atingiu a costa nordeste da Escócia teria 14 metros de altura, embora não esteja claro se esta área era habitada na época.

Mas ondas que mediam cerca de 5 metros de altura teriam atingido a costa leste da Inglaterra, e há fortes evidências de que humanos habitavam essa região há 8 mil anos.

Grande parte dessa região também era baixa, sugerindo que o impacto sobre as pessoas da Era Mesolítica que dependiam substancialmente dos recursos costeiros, tais como moluscos, teria sido também bastante significante.

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