De olho em jovens, Igreja celebra canonização high-tech

  • 26 abril 2014
Fieis posam com quadro de João Paulo 2º e João 23 no Vaticano | Foto: BBC
Vaticano usará tecnologia 3D pela primeira vez na transmissão da canonização dos dois papas

Mirando o público jovem, o Vaticano decidiu recorrer à tecnologia avançada para transmitir a cerimônia de dupla canonização dos papas João Paulo 2º (1920-2005) e João 23 (1881-1958) neste domingo.

Além do ineditismo do evento – nunca dois pontífices foram santificados ao mesmo tempo – a Santa Sé também fará, pela primeira vez na história, uma transmissão em 3D pela TV e pela Internet.

Estima-se que cerca de 2 bilhões de pessoas assistirão ao vivo a celebração em todo o mundo, que também será transmitida em salas de cinema, inclusive no Brasil.

O Vaticano lançou ainda uma ofensiva nas redes sociais, com a criação de um site especial para a dupla canonização, de uma página no Facebook e até aplicativos em dispositivos móveis, para celulares e tablets.

Já na Praça de São Pedro, são esperadas cerca de 1 milhão de pessoas. A cerimônia será conduzida pelo papa Francisco e contará com a presença do papa emérito Bento 16, conforme informou o Vaticano.

Telões foram montados pela Prefeitura de Roma em quatro pontos da cidade para que os fiéis possam assistir ao evento.

Segundo o Vaticano, duas relíquias serão usadas na cerimônia: um frasco contendo sangue de João Paulo 2º e outro com pedaço de pele retirada de João 23 no ano de 2000, quando seu corpo foi exumado para a beatificação, declarada quando se reconhece o primeiro milagre.

Cerimônia

A canonização – ao final da qual os dois papas se tornarão santos – está prevista para as 10h (5h de Brasília).

De acordo com o livro litúrgico, a cerimônia tem início com uma série de leituras e hinos que precedem o rito de canonização propriamente dito, que começa com uma oração coletiva na qual os dois papas serão invocados como santos.

Fieis em Roma | Foto: BBC
Espera-se que um milhão de fieis acompanhem a canonização, única na história da Igreja

Em seguida, haverá três frases em latim com as quais o cardeal Angelo Amato, responsável pela Congregação para as Causas dos Santos – o "ministério" da Santa Sé encarregado dos processos de canonização – solicita ao Sumo Pontífice que declare santos os dois candidatos.

Francisco responderá com uma declaração padrão em latim ao final da qual dirá: "Eu o ordeno".

Nesse momento, o polonês Karol Wojtyla e o italiano Angelo Roncalli se tornarão, oficialmente, santos da Igreja Católica. Em seguida, o pontífice argentino celebrará uma missa.

Dois papas

Conhecido como o "Papa Bom", João 23 comandou a Igreja Católica entre 1958 e 1963. Nesse período, convocou e deu início ao Concílio Vaticano 2º, uma série de conferências que resultou em documentos sobre os novos rumos da Igreja Católica, com o intuito de aproximá-la do povo e adaptá-la à modernidade.

Talvez mais popular entre os peregrinos, João Paulo 2º ascendeu ao Trono de Pedro em 1978 e lá permaneceu até 2005, quando morreu. Foi o segundo papado mais longo da história e sua canonização foi a mais rápida da história moderna da Igreja.

Segundo vaticanistas ouvidos pela BBC Brasil, a decisão de Francisco de canonizar os dois papas em um único dia seria uma tentativa de preencher o abismo entre duas alas opostas da Santa Sé: os "tradicionalistas", representados por João Paulo 2º, e os "reformistas", seguidores de João 23.

Grandes dimensões

Fieis poloneses na Igreja de Santa Inês em Roma | Foto: AP
Fieis poloneses fazem vigílias em homenagem a João Paulo 2º em Roma

Devem participar da dupla canonização cerca de 150 cardeais e bispos e 6 mil padres. O Vaticano divulgou uma lista oficial com autoridades internacionais de 93 países, incluindo 24 chefes de Estado. Nenhum nome do governo brasileiro aparece até agora na compilação.

O único brasileiro é José Graziano da Silva, que, no entanto, representa a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), órgão ligado à ONU sediado em Roma que ele comanda desde janeiro de 2012.

E para atender aos milhares de fiéis que vão lotar a Praça de São Pedro, o Vaticano e a Prefeitura de Roma mobilizaram mais de 2,4 mil policiais, 100 ambulâncias e 2,5 mil voluntários, encarregados de distribuir 4 milhões de garrafas de água e 150 mil livros litúrgicos para que os fiéis possam acompanhar o passo-a-passo da cerimônia.

'Noite Branca'

Durante a noite de sábado para domingo, inúmeras igrejas de Roma abriram suas portas para uma vigília de pregações, procissões e confissões no que o Vaticano chamou de "Noite Branca".

Em 11 delas, houve uma programação especial em diferentes idiomas, inclusive português. Outras serviram como alojamento para milhares de fiéis que não conseguiram acomodação em hotéis e albergues.

Em frente à Igreja de Santa Inês, centenas deles, de todas as idades, entoaram cânticos em memória de João Paulo 2º.

"João Paulo 2º é uma das pessoas mais importantes da história da Polônia", afirmou a polonesa Rosetta, que veio de Cracóvia acompanhada do namorado.