Lucas Mendes: Maconhas douradas

  • 24 abril 2014
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Na data americana 4/20 é dia 20 de abril. O mês precede o dia. 20 de abril é o Dia da Maconha.

Há duas boas versões. Pela primeira, 420 seria o código da polícia da Califórnia para alertar sobre algum fumacê de maconheiros. Foi queimada. O número não existiu. Pela outra, four twenty, ou quatro e vinte, marcava a hora do encontro de cinco maconheiros conhecidos como os Waldos, todos atletas, que se reuniam depois do treino na escola secundária de San Rafael, norte de San Francisco, marco zero da contracultura americana.

Num velho Impala, os cinco saíam em busca de uma plantação de maconha pequena e fabulosa que tinha sido abandonada pelo plantador na floresta de Point Reyes. Iam fumando maconha, fumavam na busca, voltavam fumando. Quem encontra tesouro com a cabeça cheia de fumo? Continua perdida, mas a história, embalada pelos roqueiros dos Grateful Dead, ganhou impulso nacional e 4 e 20, a hora, virou 20 de abril, dia da maconha.

A década dos Waldos era a de 70, idade dourada da maconha. Nos Estados americanos, ela era proibida e reprimida, mas ainda não era crime federal. Quem fosse apanhado fumando ou com maconha pagava uma multa.

O presidente Richard Nixon associou as drogas aos protestos dos hippies contra ele e a guerra do Vietnã. Passou o Controled Substances Acts. Maconha foi colocada na categoria 1, junto com heroína, com punições severas. A procura e os preços dispararam. 5% de jovens fumavam na década de 60, nos setenta foi para 50%. Puxar fumo era como uma medalha antiNixon e antiguerra.

O presidente Jimmy Carter tentou descriminalizar a maconha. Perdeu a parada. Ronald Reagan reforçou a guerra e mandou incendiar as plantações. Elas se mudaram para o México, Colômbia, guarda-roupas e áreas internas.

Na costa leste, o campeão dos traficantes era Tony Dokoupil. Só numa importação ele trouxe 17 toneladas de maconha da Colômbia, o suficente para um baseado para cada um dos 35 milhões de apreciadores americanos. Usava cargueiros, barcos à vela, a motor e caminhões.

Tony Dekoupil, o filho, conta a história do pai no livro The Last Pirate: A Father, His son and the Golden Age of Marijuana. Jornalista conhecido, Dokoupil trabalhou na revista Newsweek e escreve para o telejornalismo da NBC. Foi criança rica, cresceu nas melhores escolas, clubes, passou férias em barcos no Caribe. É grato aos maconheiros da época, mas o pai saiu de casa e depois dos 10 anos o filho passou quase vinte anos sem ter contato com ele.

O dinheiro secou, a adolescência foi pobre, a mãe nunca contou a ele a história do pai, mas ela sabia de tudo. Foi ela quem mentiu e conseguiu com o próprio pai o investimento inicial de US$ 2 mil para comprar os primeiros tijolos de maconha que o marido quebrava e vendia em concertos de rock.

Tony ouvia referências a maconha na mesa, mas achava que era conversa de hippies. Já jornalista, aos 30 anos, decidiu investigar o pai. Depois de buscas inúteis em vários Estados, foi ao Arquivo Nacional, em Washington. O papai estava lá no documentos, indiciado pelo transporte, importação e distribuição de maconha. Tinha sido denunciado pelo ex-sócio, melhor amigo, padrinho de casamento e que se casou com a ex-mulher, a mãe de Tony.

Diante das provas, papai maconheiro abriu o bico, entregou os outros piratas, mas teve a sorte de pegar um juiz camarada. Foi condenado a 18 meses de prisão. Outros piratas pegaram mais de dez anos pelo mesmo crime.

O pai hoje vive mal em Cambrigde, Massachussets, reabilitado de outras drogas pesadas, mas com a memória apagada por elas. Enterrou milhões de dólares em vários lugares do país, mas não sabe onde. Perdeu a memória e o mapa. Tony e a mãe acharam US$ 375 mil numa montanha em Albuquerque, no Novo México, mas o grosso continua sumido. O pirata viveu antes do tempo dele. Quando investiu em maconha, achava que seria legalizada, como prometia Carter na campanha presidencial.

O século 21 trouxe a segunda idade dourada da maconha nos Estados Unidos. No Colorado e no (Estado de) Washington, é legal comprar e fumar em casa. Em 18 Estados, é legal para uso medicinal. Uma guinada tão radical quanto o casamento gay em menos de vinte anos.

A droga maldita agora pode ser uma benção para a educação nos Estados com arrecadações milionárias de impostos e redução de bilhões nos custos de presos. Vários Estados já soltaram milhares deles por crimes menores ligados a drogas e esta semana o Ministério de Justiça indicou que o governo federal vai seguir o mesmo caminho.

Estamos no final de 80 anos de repressão à maconha, de milhões de vidas desperdiçadas, trilhões de dólares gastos em policias, tribunais e sistemas penitenciário, mas nesta viagem pelo mundo da nova idade dourada da maconha, ninguém tem o mapa do tesouro.