Lucas Mendes: Torre de dólares

  • 10 abril 2014
  • comentários

Cipidabliu fiftin, ou CPW 15, é o apelido do endereço mais poderoso do mundo. Significa Central Park West, número 15. Em estilo pré-Segunda Guerra, é uma elegante fortaleza de calcário bege dividida em dois blocos. O "home" tem 20 andares, a torre, 43. São 202 apartamentos, a maioria vendida entre agosto e dezembro de 2007.

O menor deles, um quarto e sala, sem vista, custou US$ 1,8 milhão. A maioria foi vendida por entre US$ 5 e 10 milhões. Desde então, os preços tiveram multiplicações impronunciáveis. Como se diz 15 vezes mais em português? Decaquintuplicou? Uma das coberturas foi revendida por US$ 150 milhões.

Quando Denzel Washington, um dos primeiros compradores, pediu um desconto de US$ 13 milhões no apartamento, os donos pediram em troca o uso do nome para dar um tcham no prédio. Os corretores poderiam dizer "você vai ser vizinho do Denzel". Negócio fechado.

Hoje é tcham tcham tcham. Os vizinhos de Denzel são uma mistura de atores, roqueiros - Sting, Keith Richards - gente com dinheiro novo e novíssimo, bilionários nômades chineses e russos, do mundo virtual da Google e Yahoo, do planeta Wall Street.

Os cifrões, os metros quadrados, a história e as fofocas estão no novo livro de Michael Gross House of Outrageous Fortune: 15 Central Park West, The World’s Most Powerfull Address.

Antes da atriz Cameron Diaz chegar ao apartamento do namorado, Alex Rodriguez, dos Yankees, um dos mais bem pagos atletas do mundo, saíam duas prostitutas. Dez minutos depois dela sair entravam outras duas. Alex está suspenso por 162 jogos por abuso de drogas. Haja esteroides.

Há décadas, o Central Park é área nobre, mas, nos anos 90, esta esquina do parque, entre as ruas 61 e 62, estava desvalorizada, pelos sem teto, turistas, drogados e construções baratas da vizinhança.

Estes são ingredientes apreciados pelos irmãos Will e Arthur Zeckendorf. Usaram o mesmo modelo quando construíram quatro torres de luxo na beira da infestada e podre praça Union Square, hoje endereço milionário. Em 1980, por US$ 500 mil se comprava um apartamento de 250 metros quadrados. Hoje, são vendidos na planta por US$ 5 milhões.

O condomínio CPW 15 oferece mais do que vistas, celebridades e vizinhos poderosos. As paredes da biblioteca são cobertas com madeira de lei, o restaurante privado com 66 lugares oferece serviço 24 horas por dia. Os paparazzi também trabalham 24/7. Há um cinema e uma academia com piscina de 50 metros e vista para o parque.

Sete concierges cuidam das reservas. Há seis porteiros, oito recepcionistas de luvas brancas no lobby, oito carregadores, 12 engenheiros disponíveis, um chefe de manutenção e quatro seguranças. O síndico ganha US$ 600 mil por ano, sem incluir as gorjetas de Natal, que dão, em média, US$ 22 mil para cada empregado.

O ex-presidente do Citigroup Sandy Weil distribuiu US$ 91 mil num Papai Noel. Um serviço mais difícil mereceu gorjeta de US$ 100 mil de um vizinho.

Desculpem tantos números, já cortei vários, mas precisamos de mais um, recordista. O do despejo mais caro na história de Nova York.

Antes de ser endereço poderoso, ali era o hotel Mayflower, inagurado em 1926, residência temporária e permanente de ricos com menos poder, mais interessados nas artes. O balé Bolshoi morou lá em 1979. Quando os irmãos compraram o decadente hotel, quatro inquilinos com contratos longos se recusaram a sair.

Moravam em pequenos apartamentos nos andares de cima, onde hoje estão algumas coberturas. Três, entre eles o filho do general Douglas MacArthur, herói da Segunda Guerra, saíram com cheques de US$ 1 milhão. O último deles, Herb Sukenik, deu uma banana para o milhão dos novos proprietários.

Sukenik, de 73 anos, PhD em física, pioneiro no uso de computadores em medicina, diretor de medicina espacial da Lockheed Martin Space Systems Division. Gênio e complicado. Tinha herdado dinheiro do pai e, ninguém sabe por que, aos 40 anos se encavernou no quartinho no topo do Mayflower.

Não saía, não tinha amigos, tratava mal quem se aproximasse. O único parente era um irmão que não queria saber dele e vice-versa. A limpeza fazia parte do aluguel, mas ele não permitia que as empregadas do hotel entrassem no quarto. Estava fedido como ele e entulhado.

Para sair de lá, Herb queria morar com vista para o Central Park. Os Zeckendorfs pagaram US$ 2 milhões por um apartamento de dois quartos no 16º andar no Essex House, Central Park Sul.

Will e Arthur concordaram com todas as condições, menos com as duas refeições que ele exigia no restaurante do térreo, House of Essex, comandado pelo chefe Alain Ducasse. Sukenik não respondeu à carta. Os irmãos contrataram um terceiro advogado para lidar com ele.

Herb tinha mudado de ideia, contratado um advogado e, além do apartamento no Essex, queria dinheiro, embora não tivesse onde gastar nem para quem deixar. E queria muito.

Saiu com US$ 17 milhões e continuou a viver sem abrir a porta. O advogado pegou um terço. Sukenik morreu sete anos depois, com 80 anos, em janeiro de 2011. O irmão, com quem ele não falava, herdou quase US$ 10 milhões.