Maré vive sob tensão e medo após ocupação das Forças Armadas

  • 10 abril 2014
Militar patrulha favela da Maré, no Rio de Janeiro (foto: Reuters)
Lei do silêncio vigora na favela da Maré durante ocupação pelas Forças Armadas

Menos de duas semanas após ser ocupado pela polícia e poucos dias depois da chegada das Forças Armadas, o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, vive sob muito medo e desconfiança.

Há blindados, jipes, e militares armados com fuzis por toda parte. Embora a intenção seja tocar a vida normalmente, o clima na comunidade é de guerra e as dúvidas sobre o futuro só tornam a tensão ainda mais palpável.

A reportagem da BBC Brasil percorreu ruas das favelas Nova Holanda e Baixa do Sapateiro, separadas pelo valão conhecido como "Faixa de Gaza" - que dividia as áreas controladas, respectivamente, pelas organizações criminosas Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro (TCP). O local costumava ser o ponto mais conturbado do Complexo, numa rotina diária de tiroteios e provocações.

Dois dias antes, soldados dispararam tiros para o alto quando um adolescente foi encontrado ferido dentro da vala, supostamente após uma briga entre membros das facções rivais. No dia da ocupação da Polícia Militar, no fim de semana anterior, dois jovens morreram em confrontos após uma guerra de pedras que terminou com disparos.

Relatos de violência entre membros remanescentes do tráfico e de abusos por parte dos policiais e militares, incluindo excessos cometidos nas revistas às casas, começam a aparecer conforme os moradores se sentem mais à vontade com a reportagem.

Sob o olhar constante dos soldados armados, a maioria prefere não falar. E se fala, não diz quase nada, pede para não ser identificado e não permite ser fotografado. Caminhando por ruas com carros incendiados ou com parabrisas estilhaçados por tiros, casas com marcas de bala e blindados de transporte de tropas dividindo espaço com crianças não é difícil entender o porquê do silêncio.

Leia mais: PM não descarta ocupação na Maré até as eleições

'Preconceito mútuo'

Para Patrícia Vianna, uma das diretoras da ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, o que rege o clima desta fase do processo de pacificação é um "preconceito mútuo", que precisa ser desfeito.

"Os militares encaram os moradores como bandidos, como o inimigo, e os moradores da comunidade rejeitam a presença deles aqui. Há medo das revistas, de que entrem nas casas das pessoas, de que não respeitem ninguém. Isso não é bom para nenhum dos lados", diz.

Ela adianta que o assunto seria abordado numa reunião com o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), na comunidade, na última quarta-feira. "Os dois lados estão muito grilados. É importante dizer: eu não sou contra a UPP, mas o fato é que vinham anunciando isso há dois anos, e nós decidimos nos preparar", conta.

Ela também explica ter sido uma das primeiras pessoas a chegar ao local onde o adolescente Vinicius, de 15 anos, foi morto horas após o começo da ocupação pela PM, no dia 30 de março. "Foi um caos total. Colocaram 30 garotos contra a parede, as mães gritando, chorando. Eu bati foto da cara de cada um dos meninos e disse para a polícia: 'vocês não vão sumir com nenhum deles, eu estou fotografando'", relembra.

Guerra de informação

Favrla da Maré, foto BBC Brasil
'Eles atiravam nos postes, ficava tudo escuro', conta moradora

Andar pelas ruas de Nova Holanda comprova a dinâmica de desconfiança de várias formas. Desde as queixas por ser revistado em quatro diferentes postos de controle no caminho para casa até as trocas de olhares entre quem passa pela rua e os soldados. Entre os militares – a maioria muito jovem –, há os que empunham fuzis em sinal de intimidação e os que parecem mais assustados do que as crianças que brincam e correm entre as vielas.

Outro elemento é a guerra de informação. De um lado, as Forças Armadas distribuem panfletos com desenhos de soldados e moradores amistosos e mensagens como "Força de Pacificação Maré. Colabore: siga as orientações, mantenha a calma. A pacificação de sua comunidade também depende de você".

Do outro, há os adesivos distribuídos numa campanha elaborada por três ONGs e coladas em muitas portas das mais de 130 mil pessoas que vivem espalhadas nas 16 favelas do Complexo: "Conhecemos nossos direitos. Não entre nessa casa sem respeitar a legalidade da ação. Em caso de desrespeito, ligue para a Corregedoria da Polícia Militar".

'Pagofunk' e mudança de rotina

Para João, de 31 anos, - 22 deles vividos na Maré - há os que comemoram a chegada das forças de segurança.

"Se você perguntar na rua, muita gente está gostando. Para quem tinha que lidar com tiroteio e insegurança, há uma melhora. Também houve limpeza, outras coisas muito boas. Agora entre os mais jovens, acho que a reação é muito ruim", diz.

Membro de uma banda de rock, João diz que os jovens devem burlar a proibição aos bailes funk reeditando o que já acontece em outras favelas com UPPs: os "pagofunks".

"Eles vendem para a chefia da UPP como se fosse um baile de pagode. Tocam uns pagodes no começo, mas depois é funk mesmo", explica.

João conta que já teve a casa revistada por policiais em outras ocasiões. "Eles entram mesmo, sem perguntar nada". Desde a semana passada ele vem trazendo seu laptop e o dinheiro que guarda em casa para o trabalho. "Trago para garantir. Mudou minha rotina, mas prefiro assim".

Tiroteios e diálogo

Flávio Aguiar Rodrigues, presidente da Associação de Moradores da comunidade Nova Maré, expõe sua principal preocupação no momento.

"Nos reunimos com o secretário de segurança pública e amanhã vamos nos reunir com o prefeito. Também virão pessoas da Saúde, da Educação, de outros setores, mas a garantia de vida das pessoas é o que preocupa bastante agora", diz, acrescentando ter recebido a denúncia de uma moradora de que seu filho teria sido imobilizado pelas forças de segurança com o uso de armas de choque. "Vamos ter que averiguar isso".

Para Luiza, que é coordenadora de um centro cultural localizado na "Faixa de Gaza", a ocupação representou maior público em seus eventos.

"Todo mundo já sabia que ia ter tiroteio. Às vezes durava 20 minutos, às vezes duas horas, e aí todo mundo deitava no chão. Eles atiravam nos postes, ficava tudo escuro", relembra ela, que pediu para que seu verdadeiro nome não fosse divulgado.

Já sobre a ocupação e a futura UPP, tem opinião formada. "Acho que não precisava de tudo isso. É coisa para a TV, para o mundo lá fora ver. Além disso, acho que eles não estão preparados para entrar numa comunidade como essa. Mas ser apenas contra não adianta nada. Agora vamos ter que dialogar. A UPP é um ponto inicial com o qual a gente tem que trabalhar e seguir adiante".