Lucas Mendes: Rockefellers

  • 3 abril 2014
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Sobrenome, um sotaque indefinido, camisa com monograma, blazer azul marinho de grife, sapatos caros. Com esta fórmula, Clark Rockefeller frequentou clubes exclusivos, viveu em mansões e enganou milhares de pessoas, entre eles um jornalista e escritor brilhante que já teve dois best-sellers levados para o cinema com sucesso, Up in the Air (Amor Sem Escalas) e Thumbsucker (Impulsividade).

Walter Kirn acaba de lançar o livro Blood Will Out sobre sua relação com Clark Rockefeller durante 10 anos. Começou em 98, com um telefonema para uma agência de proteção a animais em Montana, dirigida pela mulher dele. Um Rockefeller estava na linha e queria adotar um cão da raça gordon setter, anunciado na internet. Raça rara, mas aquele estava paralítico das pernas traseiras por um atropelamento.

Se ele, Rockefeller, dirigisse ou se a mulher não estivesse com o jato dele na China, iria até lá buscar o cão. Será que a agência não podia mandar alguém trazer o setter para Nova York onde teria cozinheiro, quatro refeições diárias, moraria no Central Park com seu outro gordon e seria vizinho do Tony Bennet que, de vez em quando, cantava para o cachorro no apartamento dele.

O escritor não resistiu à cantada. Entrou no seu carro velho e atravessou quase todo o país até Manhattan com o cão aleijado. Não se decepcionou. O excêntrico era tão ou mais excêntrico do que os milionários que tinha conhecido nas melhores universidades onde estudara, entre elas, Princeton, em Nova Jersey, e Oxford, na Inglaterra. No apartamento estavam dezenas de quadros dos mais caros pintores americanos, Pollock, Rothko, de Kooning. Uns US$ 100 milhões de dólares em arte, calculou o escritor.

Excêntrico e brilhante. Com 14 anos estava em Yale, tinha diplomas em física e economia. Foram vários encontros, um deles numa mansão em New Hampshire, de onde o chanceler alemão tinha acabado de sair depois de um fim de semana. Walter com muito tato, quis saber se Rockefeller trabalhava.

"Sou Presidente do Banco Central da Tailândia, free lancer."

"Free lancer?"

"Eu tenho as fórmulas no computador. Dinheiro em circulação, taxas de juros, inflação. Não tem mistério." Explicou que lidava com vários países pobres .

Quando Walter começava a desconfiar de uma história, surgia outra, mais incrível. Quando comentou que estava com pequenos problemas com o imposto de renda, Rockefeller escreveu um número e entregou o papel a Walter. "Ligue para o George. Ele mesmo vai atender".

Ele se referia a George W. Bush, presidente dos Estados Unidos e sabia que Walter jamais ligaria para o presidente para resolver o problema dele com o leão.

Tinham dramas em comum. Ambos eram recém-divorciados que sofriam com a falta de contato com os filhos. Por telefone, Rockefeller chorava no ombro de Walter.

Foi quando vieram a descoberta e o choque. Em 2008, Walter leu na internet que Clark tinha sequestrado a filha na porta do tribunal e havia uma ordem para a prisão dele em todo o país.

No dia seguinte, um esclarecimento da família: este Rockefeller não é um dos nossos.

"Canalhice dos Rockefellers", foi o primeiro pensamento de Walter. Quando um membro da família comete um ato desesperado é imediatamente excluído para não sujar o precioso nome.

Veio um choque maior . O verdadeiro nome dele era Christian Karl Gerhartsreiter, de origem alemã, procurado pelo assassinato de John Sohus, em 1985, na Califórnia. O corpo só foi descoberto em 94, quando o jardim estava sendo cavado para uma piscina.

John era filho da dona de uma mansão onde o impostor alugava a casa de hóspedes. Na época, Clark se passava por um aristocrata inglês com outro nome, sobrinho de uma certa Elizabeth, que morava no castelo de Windsor.

Christian esquartejou John com uma serra elétrica e enterrou o corpo no jardim . A mulher de John, Linda, continua desaparecida. Ele nunca confessou o crime e foi condenado de 27 anos a prisão perpétua na Califórnia. Não tinha onde cair morto. Os quadros eram falsos. Walter assistiu ao julgamento e, depois de muita relutância, Christian concordou em falar com ele.

"Como você conseguiu enganar tanta gente por tanto tempo?"

O condenado respondeu com três palavras: vaidade, vaidade e vaidade.

"Não a dele, mas a dos enganados como eu, todos cúmplices" , escreveu Walter.

Há uns 150 Rockefellers originais na praça e cada um mais enrustido que o outro. Detestam publicidade, festas, colunas e colunistas sociais. Tive contato com três deles. Com Nelson, o ex-governador de Nova York e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, em entrevistas coletivas para a revista Manchete.

Com David, o então patriarca da família e ex-presidente do Chase, numa entrevista exclusiva para o Milênio. Tinha 90 anos e veio a pé do escritório dele, no Rockefeller Center, uns 15 quarteirões , para nosso estúdio, sem guarda-costas nem monograma na camisa . O terceiro foi Larry Rockefeller, bisneto de John D. Rockefeller, o criador da maior companhia de petróleo do mundo , a Standard Oil e de uma das maiores fortunas da época, que até hoje ajuda a sustentar muitos dos 150 descendentes. Os Rockefellers não dissiparam a fortuna como outros bilionários.

A Standard Oil poluiu, os descendentes reconhecem, mas não pedem desculpas. Nenhuma outra família americana comprou, doou e protegeu mais terras do que a Rockefeller. E nenhum dos museus e parques monumentais tem o nome Rockefeller. Aparece, além do Rockefeller Center, na universidade em Manhattan, um ninho de prêmios Nobel.

Hoje, um dos líderes da família na proteção de terras é o terceiro Rockfeller que conheço, Larry, bisneto do fundador e meu vizinho nas montanhas de Catskills, no noroeste de Nova York. Meu sogro tinha uma fazendinha de 300 acres. Larry comprou 90% dela, segundo o sogro , o pior negócio que fez na vida. Vendeu para ajudar um irmão e nunca se sentiu enganado pelo vizinho. Larry não comprou só a terra dele. Comprou quase 30 mil acres, uma área um pouco menor que Disney World e quase duas vezes maior do que Manhattan. Derrubou tudo o que era feio , decadente e enferrujado , limpou e encheu o rio Beaverkill de trutas.

Quem vendia terra para ele podia viver lá até morrer, mas não podia construir nenhum prédio novo ou fazer uma cerca sem permissão de Larry. O resultado é uma espécie de parque temático do século 19. Precioso. Milionários compraram casas sólidas de madeira sem afetações, que você não vê das estradas. Não há nenhum sinal de riqueza ou afluência no parque do Larry.

Fui apresentado a ele numa lojinha da região. Larry tinha cinquenta e poucos anos, vestia uma calça caqui pega-frango, a camisa amarrotada não tinha nem logo, sapatos empoeirados e a meia do pé direito furada no tornozelo.