Vinte anos depois, vítimas de estupros na Guerra da Bósnia perdem esperanças

  • 1 abril 2014
Zenica, na Bósnia
Moradora de Zenica (acima) diz que foi submetida a trabalhos forçados e estupros durante a guerra

Bosna, o rio que deu nome a seu país, corre em direção ao norte, cortando a cidade de Zenica. De suas margens, é possível ver as chaminés de grandes siderúrgicas derramando fumaça espessa pelo vale.

Em um jardim de um refúgio para mulheres com visão para o complexo industrial, Lejla descreve a brutalidade que sofreu quando era adolescente, durante a Guerra da Bósnia (1992-95).

"Eu tinha 14 anos e vivia com minha avó quando a guerra começou", afirmou.

"Fui capturada e passei três anos em um campo de prisioneiros, onde éramos submetidas a trabalhos forçados. Mais tarde fui separada dos outros prisioneiros e levada para uma casa junto com outras três mulheres. Os soldados bebiam e nós tínhamos que servi-los como escravas e eles nos estupravam."

As estimativas sobre o número de mulheres como Lejla, que foram submetidas a violência sexual durante a guerra civil que devastou o país, variam entre 20 mil e 50 mil.

O número exato jamais será conhecido, até porque muitas mulheres escolheram permanecer em silêncio com medo de serem estigmatizadas pela sociedade.

Sem proteção à testemunha

Passadas duas décadas, e enquanto a Guerra da Bósnia se torna um fato histórico cada vez mais distante, fica mais difícil para algumas mulheres falar abertamente de suas experiências, diz Nela Porobic, da Liga Internacional de Mulheres para a Paz e a Liberdade.

Parente de vítima de Srebrenica
Traumas de Srebrenica ainda são latentes

"O que estamos descobrindo com nossas conversas com vítimas de violência sexual, mas também com profissionais que trabalham com elas, é que era mais fácil falar sobre violência sexual durante a guerra ou imediatamente depois que as coisas aconteciam do que agora, após a passagem de 20 anos", ela disse.

"Elas acham que a sociedade está cansada, não quer mais ouvir sobre o que aconteceu, quer seguir adiante – mas essas mulheres não conseguem seguir adiante".

Estudiosos dizem que a Guerra na Bósnia criou uma "hierarquia do trauma". Com tantas atrocidades cometidas entre 1992 e 1995, a violência sexual é vista por alguns como menos grave que a limpeza étnica ou a tortura.

Para aqueles que buscam justiça, os obstáculos permanecem imensos.

Os tribunais ainda estão tentando lidar com um acúmulo de 1.300 crimes de guerra. Apenas aqueles considerados mais sérios, ou que envolvem oficiais de alta patente, recebem atenção estatal e proteção e anonimato para as testemunhas.

Casos envolvendo estupro de mulheres por militares de baixa patente são passados para tribunais regionais de menor importância, onde não há programas de proteção à testemunha e vítimas têm que oferecer evidências do crime em frente a seus agressores.

Violência contra homens

Angelina Jolie e o chancelar britânico Willian Hague na Bósnia (foto: AFP)
Jolie e Hague estão em campanha contra estupros em zonas de conflito

Até agora menos de 70 casos de estupros durante a Guerra da Bósnia foram julgados.

"Sobreviventes de violência sexual acham que ninguém acreditará no que aconteceu com elas", afirmou Sabiha Husic, diretora do projeto Zenica Medica.

"Muitas dizem que não querem continuar com o processo se isso significar que elas terão que fornecer provas sobre o caso. Nós tentamos dar suporte e encorajar, mas às vezes quando é solicitado a elas comparecer ao tribunal isso se torna simplesmente traumático e estressante demais".

Homens também foram estuprados durante a Guerra da Bósnia, geralmente como uma forma de humilhação. Zihnija, ex-soldado do Exército bósnio, treme quando conta o que aconteceu com ele.

"A Polícia Militar me levou a um porão e me bateu até eu perder a consciência", afirmou. "Quando eu acordei, um dos militares pegou uma pá, rasgou minhas calças e colocou ela dentro de mim. Depois me jogaram no chão. Eles pensaram que eu provavelmente sangraria até morrer."

"Quando você perde um braço ou uma perna isso é visível – mas quando sua alma está machucada isso é invisível. Eu posso parecer uma rocha, mas sou apenas a casca de um homem."

Estupradores soltos

A questão da violência sexual em conflitos será tratada em uma grande conferência internacional em junho em Londres. Ela será presidida pelo chanceler britânico, William Hague, e pala atriz de Angelina Jolie, que é enviada especial da agência da ONU para refugiados.

A dupla tem trabalhado junta no assunto desde que Hague assistiu o filme de Jolie sobre a Guerra na Bósnia, Na Terra de Amor e Ódio, há dois anos.

Eles viajaram para a Bósnia na semana passada e prometeram usar a conferência em Londres para lançar novas orientações sobre documentação e investigação de estupros em áreas de guerra para aumentar o apoio dado a sobreviventes.

A melhoria no sistema de obtenção de evidências pode levar a mais processos em conflitos futuros, mas para alguns a melhora chega muito tarde.

"Os homens que me estupraram ainda estão à solta", disse uma sobrevivente, Edina, enquanto Hague e Jolie visitavam o ex-complexo da ONU destruído em Srebrenica.

"Nós encontramos alguns deles nas redes sociais. Eles andam por aí livremente. Eles têm perfis no Facebook", ela disse. "Sinto amargura em relação ao governo bósnio porque o processo de prender e processar os perpetradores é tão lento. Depois de 20 anos muitas vitimas já morreram."

Eles não viveram o suficiente para ver a justiça sendo feita", ela disse.