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A Otan conseguirá lidar com a Rússia?

Atualizado em  1 de abril, 2014 - 20:32 (Brasília) 23:32 GMT
Anders Rasmussen, secretário-geral da Otan (Reuters)

O secretário-geral da Otan, Anders Rasmussen, anunciou o fim de cooperações com a Rússia

“Vamos ser claros desde o início. A Guerra Fria não está de volta. Apesar seu poderio militar e postura, a Rússia não é a antiga União Soviética. Esta não será uma reedição da batalha ideológica que dividiu o mundo durante a maior parte do século passado.”

De forma resumida, essa foi a visão de um diplomata de alto escalão da Otan (aliança militar ocidental) com quem conversei recentemente.

Mas algo mudou na esteira da captura da Crimeia pela Rússia e sua ameaça militar contínua sobre a Ucrânia oriental.

Moscou quebrou um padrão de comportamento que vinha caracterizando a diplomacia na Europa desde o fim da Guerra Fria e que possivelmente vigorou na Europa ocidental desde o colapso da Alemanha nazista.

A ideia de que disputas serão resolvidas por meio da diplomacia e não da força, de que a moeda do poder é cada vez mais a economia em vez da força militar.

Pior ainda, o discurso de Putin no Kremlin há cerca de dez dias sinalizou que isto não deve acabar por aqui. Porta-vozes russos dizem que o país não deseja enviar suas tropas à Ucrânia, mas as movimentações militares na fronteira sinalizam o contrário – e isso é precisamente o que eles pretendiam fazer.

Até onde Putin pode chegar?

O discurso de Putin foi significativo pois pareceu ser verdadeiro. Os franceses chamam isso de revanchismo – um termo que incorpora o conceito de vingança e restituição depois de uma grande derrota; algo que os próprios franceses experimentaram nas mãos da Prússia em 1870, e algo que muitos russos – certamente aqueles no círculo de Putin – acreditam ter sofrido nas mãos do Ocidente com o colapso da União Soviética.

Putin sinalizou que a Rússia está de volta e que pretenderia se impor em seu próprio quintal, e, para muitos russos, a Ucrânia é o maior quintal de todos.

Vladimir Putin (AP)

O presidente Vladimir Putin quer resgatar influência russa

Não está claro até onde Putin está disposto a ir. Mas a ameaça é evidente – para a Ucrânia; e para a Moldávia (onde há a possibilidade da Rússia formalizar uma anexação no enclave da Transnístria). E onde mais pode acontecer além da Moldávia?

É por isso que países como as três repúblicas bálticas estão aliviadas por terem se juntado á Otan há dez anos. Também é essa a razão de subitamente os assuntos de proteção e confirmação de seus membros se tornaram subitamente tão importantes na agenda da Otan.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte não consegue saber as intenções do Kremlin. Ela pode apenas analisar capacidades e criar hipóteses a partir dos sinais e ações registrados até agora.

Então, o que a Otan pode fazer? O primeiro passo é acalmar seus aliados inquietos no norte da Europa.

Apoio para a Ucrânia

Em primeiro lugar, poderia haver uma série de pequenos envios de tropas para reforçar a presença de unidades da aliança nas repúblicas bálticas e na Polônia. Exercícios militares de pequena escala poderiam fornecer uma presença quase permanente da Otan naqueles países se isso for o que os líderes da aliança decidirem.

Também haverá mais apoio para a Ucrânia. Não para trazer o país para o guarda-chuva da Otan, pois o atual governo ucraniano não parece desejar fazer parte da aliança.

Mas a Ucrânia é uma parceira da Otan. A aliança já ajudou a melhorar o controle civil ucraniano sobre suas forças militares, com planos de defesa e aí por diante. É esperada mais ajuda dessa natureza além de assistência de caráter não letal para tornar as moribundas forças militares do país mais efetivas.

A Otan está sinalizando que não vai mudar de direção. Alguns críticos sugeriram que a expansão da organização desde o fim da Guerra Fria levou de alguma maneira a Rússia a agir na Ucrânia, o que provocou uma sensação de cerco em Moscou.

Ministros da Otan concordam sobre resposta à Rússia

Os ministros de relações exteriores da Otan (aliança militar ocidental) concordaram de forma unânime em estabelecer medidas em resposta à anexação da Crimeia pela Rússia, incluindo a suspensão formal de toda a colaboração prática, civil e militar, com Moscou.

Eles também concordaram em rever a disposição das tropas da aliança entre seus membros localizados na Europa oriental. Esses membros estão se sentindo mais vulneráveis após as últimas afirmações da Rússia.

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen descreveu a anexação da Crimeia como a mais grave ameaça à segurança da Europa desta geração.

Os diplomatas da Otan rejeitam essa interpretação. O secretário-geral Anders Fogh Rasmussen, em um artigo publicado na terça-feira em jornais dos 12 países que se juntaram à Otan desde o fim da Guerra Fria, insistiu que a ampliação da organização foi boa para a Europa, para a Otan, e para os membros mais recentes. Ele afirmou que esse processo vai continuar e que cabe aos países determinarem suas próprias alianças.

Coincidentemente, a reunião da Otan nesta semana será marcada por um aniversário triplo: 15 anos desde que a Polônia,a Hungria e a República Tcheca se juntaram à aliança; dez anos da adesão de Bulgária, Estônia, Letônia, ituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia; e cinco anos das entradas da Albânia e da Croácia.

Este é um aniversário que os ministros da Otan marcarão com uma breve cerimônia, cujo simbolismo será percebido por Moscou.

Acima de tudo, os ministros de relações exteriores da Otan precisam planejar o futuro.

E como a organização deve responder aos novos ventos que sopram de Moscou?

O trabalho será iniciado nesta semana e alimentará a próxima reunião, programada para acontecer em setembro, no País de Gales.

As regras do jogo

Isso dará direção e diretrizes para uma série de estudos. Entre eles o de como será a relação entre a Otan e a Rússia no futuro? Esse é um esfriamento temporário? OU como um diplomata me disse: todo o esforço para construir uma parceria com Moscou está ameaçado?

Se as regras do jogo mudaram na Europa, quais serão as implicações militares? Países que sofrem com falta de recursos financeiros talvez tenham que reavaliar seus orçamentos de defesa ou ao menos levar mais a sério as possibilidades de defesa conjunta.

Os Estados Unidos terão que reforçar seu compromisso com a segurança na Europa e formas tangíveis. Novos padrões de exercícios terão que ser considerados e a estrutura de força terá que ser revista.

Simplesmente, não será um caso trivial, não porque a Guerra fria esteja de volta, mas porque o propósito fundamental da Otan – a defesa territorial de seus membros – se tornou muito mais importante do que era há algumas semanas.

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