Drogas: Ação em Santos sugere conexão entre facção e tráfico internacional

  • 31 março 2014
Polícia Federal, em foto de arquivo (Ag Brasil)

A apreensão de 3,7 toneladas de cocaína em contêineres no porto de Santos –divulgada pela Polícia Federal nesta segunda-feira – aponta para uma possível participação do crime organizado brasileiro, incluindo o PCC (Primeiro Comando da Capital), em uma rota marítima do tráfico internacional de drogas.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o PCC pode estar exercendo a função de intermediário para quadrilhas internacionais. Seu papel no esquema criminoso seria vender cocaína trazida da Bolívia e de outros países produtores na América do Sul para traficantes internacionais, que a levariam para a Europa e a África.

A Polícia Federal afirmou nesta segunda-feira que ao menos 23 pessoas foram presas em duas operações, batizadas de "Hulk" e "Overseas". Segundo a delegada Luciana Fuschini, da PF de Santos, ao longo de um ano de investigação foram apreendidas 3,7 toneladas de cocaína. Em apenas uma delas, ocorrida recentemente, mas de 450 quilos da droga foram encontrados em um contêiner.

A droga era escondida em mochilas colocadas dentro de contêineres que seguiriam para portos na Espanha, Portugal, Itália, Cuba e países do oeste africano – sem o conhecimento dos donos dos exportadores ou dos comandantes da embarcação que fazia o transporte.

Quando o contêiner chegava ao destino, traficantes abriam-no para tirar as mochilas e colocavam um lacre clonado na tranca – para evitar que a violação fosse identificada por autoridades portuárias locais.

Uma fonte da PF disse à BBC Brasil que está sendo investigada a participação de traficantes portugueses e membros do PCC no esquema criminoso.

No ano passado, um relatório do JIFE (Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes) – órgão internacional independente criado para fiscalizar a implementação de tratados sobre drogas firmados no âmbito da ONU – colocou o Brasil como um dos principais entrepostos da rota de tráfico de cocaína da América do Sul para a Europa.

Rota

Drogas e armas apreendidas em ação da PF (foto: Polícia Federal/Divulgação)
Fação PCC pode estar atuando como intermadiária de traficantes internacionais

Embora o país não seja produtor de cocaína, ele tem sido usado por diversos grupos criminosos que a trazem de países produtores como Bolívia, Peru e Colômbia com o intuito de enviá-la por via aérea ou marítima a destinos internacionais.

Em teoria, a facção criminosa paulista tem capacidade e recursos suficientes para atuar como intermediária nesse processo, segundo o procurador do Ministério Público, Márcio Christino, especialista em investigações sobre o PCC e autor do livro Por dentro do Crime: Corrupção, Tráfico e PCC (Ed. Escrituras).

"Para se manter o PCC tem que importar grandes quantidades de cocaína. Eles já têm uma logística para trazer (a cocaína da Bolívia) e distribuí-la (no Brasil). Por causa disso não teriam dificuldade para embarcá-la ou revendê-la para outras organizações", disse.

De acordo com ele, comprar do PCC seria uma vantagem para outras organizações criminosas interessadas em operar rotas de entorpecentes que passam pelo Brasil. Isso porque assim elas evitariam os riscos de retirar a droga da Bolívia e cruzar a fronteira brasileira.

Contudo, segundo Christino, o PCC é uma organização "tipicamente nacional", que poder até vender drogas para máfias ou grupos estrangeiros, mas não tem capacidade para distribuir o entorpecente em outros países.

"Ele pode atuar como um intermediário, mas não vai tentar entrar em mercados já ocupados (por outras organizações criminosas)", disse o procurador.

Santos

Porém, a participação do PCC nas rotas internacionais não é, até agora, uma operação consolidada ou amplamente conhecida, segundo a professora Camila Nunes Dias, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do ABC, autora do livro PCC, hegemonia nas prisões e monopólio da violência (Ed. Saraiva).

"Mas ela pode estar acontecendo, considerando-se a capilaridade do PCC em outros Estados importantes, além de estarem da fronteira com o Paraguai e com a Bolívia", afirmou.

De acordo com Dias, a facção criminosa também possui fortes bases na região de Santos e pode estar usando a proximidade do porto para negociar entorpecentes com quadrilhas interessadas em exportá-los.

"O PCC não tem conexão direta com a Europa, mas pode atuar como intermediário", disse.

De acordo com ela, além da taxa que os membros da organização são obrigados a pagar mensalmente, a maior parte do financiamento da organização criminosa vem do tráfico de drogas.

Contêineres

Mochilas usadas para transportar cocaína (foto: Polícia Federal/Divulgação)
Contêineres vazios, mochilas e barcos são usados por criminosos para embarcar drogas

Colocar mochilas recheadas de drogas dentro de contêineres – como foi divulgado nesta segunda-feira pela PF - não é a única tática usada por criminosos para tentar embarcar drogas pelo porto de Santos.

Segundo policiais envolvidos nas investigações, outra estratégia usada pelos criminosos é esconder tabletes de cocaína nas paredes de contêineres que saem vazios do país. Diversas apreensões desse tipo já foram feitas, muitas com ajuda de dois aparelhos de raio-X de grandes proporções operados pela Receita Federal no porto.

Uma terceira estratégia conta com o apoio de marinheiros de grandes navios cargueiros. Nesse caso, os traficantes levam a cocaína em mochilas para navios em plena navegação, que já passaram pelos mecanismos de controle brasileiros.

Segundo a PF, mesmo após a desarticulação do esquema por meio das operações Hulk e Overseas, o monitoramento da rota marítima de tráfico a partir do Brasil continua.

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