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'Quantos morreram? Tantos quanto foram necessários', diz coronel sobre ditadura

Atualizado em  26 de março, 2014 - 09:40 (Brasília) 12:40 GMT
Coronel reformado Paulo Malhães | Julia Carneiro

Em depoimento de mais de duas horas, Paulo Malhães admitiu que torturou, matou e ocultou cadáveres

Foi só quando o carro embicou no pátio do Arquivo Nacional, no Centro do Rio, e o corre-corre da imprensa se amontoando ao seu redor começou – "Chegou!" – que as dúvidas sobre se o coronel reformado Paulo Malhães de fato apareceria se dissiparam.

Aos 76 anos, Malhães foi carregado do carro para a cadeira de rodas que havia solicitado para comparecer à audiência pública da Comissão Nacional da Verdade (CNV), cercado de fotógrafos e cinegrafistas.

O ex-agente do Centro de Informações do Exército (CIE) chegou acompanhado da esposa, vestindo um terno bege e um óculos escuros de aro dourado – que fez um repórter ao meu lado comentar que parecia o ex-ditador líbio Muammar Khadafi.

Outra repórter arriscou puxar uma entrevista – "Você não se arrepende?" – gritou, mas a cadeira de rodas era empurrada às pressas para a sala de depoimento, que seria fechada à imprensa. Malhães nem olhou para trás.

Desde que a CNV foi criada, em maio de 2012, apenas quatro agentes da ditadura haviam aparecido nas convocações para depor em audiência pública, e apenas dois haviam confirmado a prática, ou a existência, de tortura.

Malhães se tornou o quinto a depor e o primeiro a admitir a participação em tantos crimes.

Em depoimento que durou mais de duas horas, ele confirmou que torturou, matou e ocultou cadáveres de presos políticos na ditadura militar.

Casa da Morte

Na audiência pública, a CNV apresentou o que se sabe sobre a Casa da Morte de Petrópolis, um centro clandestino mantido pelo regime militar no início da década de 1970.

Malhães era um dos agentes ativos no centro de tortura – cujo nome vem da fama de que ninguém saía dali vivo. A única sobrevivente é Inês Etienne Romeu, presa e torturada por seis meses em 1971.

Foi graças à sua memória e perseverança que a existência da casa veio à tona, em 1981. Ela tem graves sequelas neurológicas desde que foi agredida em casa em 2003, em um crime que nunca se esclareceu. Foi aplaudida como uma heroína na audiência na parte da manhã.

De tarde o público se dissipara. O coronel concordara em depor, desde que fosse a portas fechadas. Mas logo no início da sessão, surpreendeu a todos mudando de ideia e admitindo a entrada da imprensa. A primeira frase que ouvi ao entrar foi: "Como faço com tudo na vida, eu dei o melhor de mim naquela função."

Contou ter estudado documentos dos serviços secretos britânico, americano e israelense no início da carreira. Hoje, diz ser um estudioso de orquídeas. "Cheguei a fazer tortura quando comecei. Depois, evoluí", disse a princípio. Deu a entender que evolução fora passar à tortura psicológica.

Ele tirara os óculos escuros e agora parecia apenas um senhor apagado de 76 anos, os cabelos escovados para trás, a barba grisalha, os ombros tronchos meio caídos para a frente.

A CNV apostara na vinda de Malhães porque nas últimas semanas ele mostrara uma súbita abertura a entrevistas.

Ele fez revelações com riqueza de detalhes aos jornais O Globo e O Dia e à Comissão Estadual da Verdade no Rio. Disse que foi ele quem deu uma solução final ao corpo do deputado Rubens Paiva, desenterrando-o de uma praia do Rio para lançá-lo no mar, ou em um rio – ele deixava em aberto.

Mas no depoimento à CNV, desmentiu a "verdade" que recém-revelara sobre Rubens Paiva – e confirmou muitas outras.

Malhães não quis dar nomes a seus comparsas nem números a suas vítimas.

Mas disse ter torturado "uma quantidade razoável" de pessoas, ter matado “alguns” e confirmou ter mutilado corpos para impedir sua identificação caso fossem encontrados.

Paulo Malhães | Julia Carneiro

'Eu cumpri meu dever. Não me arrependo', disse Malhães à Comissão da Verdade

"Naquela época não existia DNA. Quais são as partes que podem identificar um corpo? Arcada dentária e digitais", afirmou, explicando que portanto os dentes eram quebrados e o topo dos dedos, cortados.

"Eu cumpri o meu dever. Não me arrependo", disse ele.

Malhães agora ocupava a cadeira do interrogado, microfones dispostos à sua frente, e do outro lado da mesa estavam os membros da CNV, com José Carlos Dias e Rosa Cardoso conduzindo as perguntas. Sua esposa estava na cabeceira da mesa, e sem mexer a cabeça alternava o olhar entre o marido e seus interrogadores.

Eles lhe mostraram fotos de pessoas que, acredita-se, foram assassinados ou desapareceram depois de passar pela Casa da Morte. O coronel alegou não reconhecer as fotos. Disse que nenhuma daquelas pessoas passou por suas mãos.

"Essas pessoas que vocês estão citando eram guerrilheiros, eram luta armada, não eram pessoas normais. Não foram presos porque jogavam bolinha de gude ou soltavam pipa."

Argumentou que hoje as pessoas não conseguem entender quais eram os problemas enfrentados, e que a verdade precisa ser "informada".

"Quantos morreram? Tantos quanto foram necessários."

'Não sou sentimental'

Dias e Cardoso faziam uma pergunta atrás da outra, muitas vezes cortando suas respostas pela metade. Malhães esboçou alguma impaciência mas permaneceu calmo, sempre tratando-nos por "senhores".

Guerrilheiras mulheres, ele disse que via como se fossem homens. Mas "eu tinha verdadeiro pavor de interrogar as mulheres e, vamos dizer, gays, para não usar a palavra que se usava naquele tempo."

Isso porque mulheres ou homossexuais, segundo o coronel, preferiam morrer a revelar os nomes dos amantes ou maridos. Já os homens falariam depois de duas ou três horas. "Você 'ganhar' uma mulher é uma coisa, assim, de outro mundo", disse, sem precisar a que método de interrogatório se referia.

E Rubens Paiva? Perguntado novamente sobre a operação para encontrar a cova do deputado e sumir com seu corpo, notícia que teve ampla repercussão na semana passada, Malhães agora disse não ter sido ele quem executou a missão, embora tenha recebido a tarefa inicialmente.

"Eu só disse que fui eu porque eu acho uma história muito triste quando a família passa 38 anos querendo saber o paradeiro. Eu não sou sentimental, não. Mas tenho as minhas crises."

A versão a jornalistas teria sido dada "para pôr um ponto final na história".

Mas no depoimento ficou claro o incômodo de Malhães com a repercussão das matérias do Globo e do Dia, ambas baseadas em longas entrevistas que deu em mais de um dia a repórteres dos dois veículos.

"O defeito do jornalista é que eles são ávidos por novidades. Se ligassem os fatos não publicariam algo errado", criticou, dizendo ter sido vítima de reportagens "fundamentalmente maliciosas", disse.

Por isso, estaria agora procurando falar em forma de parábolas – "como fazia Cristo" – para que cada um pudesse interpretar suas palavras da sua forma.

Culpa

Ao fim do depoimento, depois de confirmar seus crimes, Malhães foi empurrado na cadeira de rodas de volta para o carro, de volta para a rua, de volta para casa.

Mas deixou entrever o calvário pelo qual sua família começa a passar após ter começado a tornar públicos seus crimes.

Quando Dias insistiu para que falasse sobre os corpos que descaracterizava, ele se negou a informar quem ele havia "feito". Disse não ter medo de vingança, mas de sanções aos seus filhos.

"Seus filhos não têm culpa do pai que têm", disse Dias.

"É. Também concordo. Mas isso não é verdade. Eu tenho cinco filhos e oito netos. Com essas reportagens que saíram, eles estão sofrendo sanções".

"Mas sofreriam mais se soubessem – 'meu pai cortou os dedos e cortou o pescoço de fulano de tal’, ou então de uma pessoa cujo nome eles não sabem? Que diferença faz?", insistiu Dias.

"Muita. Essa pessoa também tem família."

Ao fim da sessão, não foram permitidas perguntas à imprensa. Os jornalistas recolheram os microfones da mesa e alguém pegou uma caneta, perguntando se Malhães a havia usado. Na dúvida, passou um paninho. "Tenho nojo desse cara."

Dias ressaltou a importância do depoimento, principalmente por Malhães ter sido uma figura de alto escalão no regime militar.

"Acima dele, todos os degraus naturalmente tinham conhecimento da tortura. Era uma política de estado, usada para combater os que se opunham ao regime."

Segundo Dias, poucas vezes o Brasil teve uma confissão como esta, com um torturador não apenas admitindo mas também justificando a prática de torturar aqueles que considerava o inimigo.

"Mas eu não diria que ele foi corajoso. Acho até que ele foi um exibicionista, mostrando todo esse caráter mórbido que está presente no caráter dele."

Comentários

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    Número do comentário 63.

    Eu acho que a censura e a rigidez do regime militar era contra os comunistas que queriam que o Brasil fosse igual a Cuba, que é um pais onde o povo vive na miséria a décadas e sem nenhuma liberdade e não contra as pessoas de bem, trabalhadoras e que respeitavam as leis e a ética comum de uma sociedade, não esqueçam que a pena é para quem erra e não para que vive corretamente. A classe artística queria liberdade de expressão para fazerem o que fazem hoje, ensinar crianças e adolescentes a se rebelarem contra as orientações dos pais (a serem independentes prematuramente), a iniciar sua vida sexual precocemente e a não terem qualquer limite de respeito por nada e nem por ninguém. Eu não vejo ninguém dizer nas tvs que o adolescente não deve ter vida sexual antes do casamento, o que é uma atitude natural e correta, só dizem para usar preservativo e se vacinar conta hpv, essa é a liberdade? Liberdade para o prejuízo da sociedade em todos os sentidos. Quanto a ditadura, hoje vivemos em uma, os congressistas não defendem o bem da população, apenas obedecem em troca de "vantagens" o que o executivo "dita", isto não é democracia!
    Quando alguém da "turma do executivo é acusada de algum crime, ou ninguém sabia de nada ou fazem manobras para não investigar como no caso da nossa petro entre outras, isso não é democracia!

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    Número do comentário 62.

    Se os militares fossem bons governantes, não teriam deixado a inflação chegar a mais de 100% ao ano. Além de criminosos, aqueles militares era péssimos governantes. Militar bom é militar no quartel, não no governo.

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    Número do comentário 61.

    Quanto pagaram pro cara contar estas lorotas? O regime militar foi ruim porque os militares são autoritários e arrogantes. Mas foram ótimos governantes. E se mataram e torturaram comunistas, não fizeram mais que a obrigação. Mas o que os militares tem que explicar é por que deram anistia e ainda deixaram vivos estes traidores da Pátria quando a Lei daquela época e de hoje diz que a pena é fuzilamento. São bandidos sanguinários, por exemplo, que esquertejaram um jovem vivo diante da família, um garoto de 17 anos, agricultor humilde, apenas por ter dito aos militares onde era o lugar que procuravam no Araguaia? Estes assassinos era o grupo do José Genoíno. Outro garoto que foi explodido com uma bomba, estava apenas servindo o Exército como todo jovem de 18 anos, explodido pelo carro de comunistas onde estava a Dilma Rousseff. Os atentados que mataram vários civis inocentes, como no atentado ao aeroporto de Guararapes. Os comunistas roubavam comerciantes locais, caminhões de cargas, além de bancos, residências e quartéis. Eram bandidos como são hoje o PCC e o CV. Ladrões, assassinos, estupradores, toturadores e o pior traidores da Pátria, terroristas mercenários que queriam entregar o Brasil nas mãos da ditadura comunista sob comando da URSS. Será que este povo não tem noção do que foi a URSS? Não tem noção de como viveram os povos e como vivem hoje sob regime comunista? Esse cara ganhou uma boa grana pra MENTIR ou contar lorotas, porque o interesse é únicamente de GANHAR uma indenização milionária e as pensões polpudas, como mais de 15 mil comunistas, petralhas, tucanalhas, como Lulla e FHC, ganharam. É um esquema de ASSALTO aos cofres públicos. Leonel Brizola e Pedro Simon se negaram a receber os benefícios de anistiados, por ser um roubo aos cofres públicos. Esta mídia venal e estes esquerdistas são a ESCÓRIA da humanidade, porque traidores da Pátria não merecem viver. Por quê a Comissão da Verdade não investiga a tortura e morte de Celso Daniel, sete testemunhas e o médico legista? Romeu Tuma acusa no seu livro o Lulla, Zé Dirceu, o atual presidente do PT. Por que não investigam a morte de Toninho do PT, de Doroty Stang, todos aliados do PT. Que foram "justiçados" agora durante o desgoverno do PT. Por que não investigam a morte de mais de 20 jornalista e blogueiros que eram criticos do PT, e foram todos estranhamente e barnaramente ASSASSINADOS? Por que não investigam a morte de Ivez Hublet que deu as bengaladas no Zé Dirceu, foi preso ilegalmente pela PF, foi torturado e morto, já que seu corpo foi incinerado e a família nem sabia que tinha sido preso., porque ele e a família já haviam fugido do Brasil por estarem sendo perseguidos pelo Zé Dirceu.

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    Número do comentário 60.

    Então, em uma guerra pelo poder que durou 21 anos morreram no total cerca de 420 pessoas.
    Hoje morrem cerca de 150 mil pessoas por ano entre bala perdida e acidente de carro - uma bomba de Hiroshima entra ano e sai ano.
    O Brasil não é o único país que traficante é viciado, coveiro chora e p***[Personal details removed by Moderator] goza.
    O Brasil, também, é o único país que a história, supostamente, é contada por perdedores bilionários
    Essa é a unica história contada por perdedores no mundo inteiro.

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    Número do comentário 59.

    não quero saber se o atual governo é ruim, ou corrupto. Nada justifica as violações de direitos humanos praticados ontem ou hoje. Os militares que comandaram estes país eram monstros, covardes e assassinos.

 

Comentários 5 de 63

 

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