Em três anos, conflito na Síria matou mais de 100 mil; entenda

  • 14 março 2014
Campo de Yarmouk, na Síria
Crise provocou fluxo enorme de refugiados na Síria; muitos permanecem no país

Nos últimos três anos, mais de cem mil pessoas morreram na Síria no conflito entre insurgentes e forças do presidente Bashar al-Assad.

O conflito deixou em destroços comunidades inteiras e forçou mais de nove milhões de pessoas a abandonar suas casas.

Está é a história do conflito sírio em oito curtos capítulos.

1. Protestos

O conflito tem suas raízes nos protestos que eclodiram em março de 2011 na cidade de Deraa, no sul do país. Tudo começou com adolescentes que foram presos por escrever slogans revolucionários nas paredes de um colégio.

As forças de segurança abriram fogo contra manifestantes, matando várias pessoas, o que levou a mais indignação e protestos. Em pouco tempo, manifestantes estavam na rua em várias partes do país pedindo a renúncia de Bashar al-Assad.

O uso de força militar para esmagar os opositores só intensificou os protestos. Em julho de 2011, as manifestações já reuniam centenas de milhares de pessoas em diversas partes do país.

2. Violência

Eventualmente, os opositores pegaram em armas, primeiramente com o argumento de se proteger, mas logo usando a força para expulsar forças de segurança oficiais de diversas regiões.

O país mergulhou em uma guerra civil com brigadas rebeldes combatendo forças do governo pelo controle de cidades e do interior. Em 2012, os combates chegaram à capital, Damasco, e à segunda maior cidade da Síria, Aleppo.

Em julho de 2013, a ONU estimou que mais de 100 mil pessoas haviam sido mortas. Os números pararam de ser atualizados, mas ativistas dizem que a marca já ultrapassou 140 mil.

3. A oposição

A oposição também está dividida desde o começo, sem conseguir concordar em quase nenhum ponto além do pedido pela queda de al-Assad.

No front político, algumas alianças foram formadas para ganhar reconhecimento internacional. Mas mesmo essas alianças foram enfraquecidas por disputas de poder, falta de apoio de ativistas de base e pouco apoio financeiro e militar.

A luta armada evoluiu bastante, com mil grupos comandando mais de 100 mil combatentes. Ativistas moderados são minoria; muitos grupos são formados por militantes islâmicos radicais ou jihadistas com ligações à Al-Qaeda, cujas táticas brutais despertaram muitas críticas internacionais.

4. Massacres

Uma comissão da ONU investigou todas as violações de direito internacional desde março de 2011, com evidências de que ambos os lados do conflito praticaram crimes de guerra, como tortura, sequestro, assassinatos e execuções.

Apesar de investigadores terem sido proibidos de entrar na Síria e de possuírem acesso apenas restrito a testemunhas, eles confirmaram a ocorrência de pelo menos 27 episódios de assassinatos em massa.

Destes 27, 17 teriam sido cometidos por forças oficiais do governo ou milícias que apoiam al-Assad. Dois episódios notórios foram os assassinatos em massa de civis nas cidades de Houla, em maio de 2012, e Baniyas, em agosto de 2013.

Grupos rebeldes foram considerados culpados em dez incidentes, entre eles o assassinato de 190 pessoas no interior de Latakia, em agosto de 2013.

5. Armas químicas

Antes do começo da insurgência, o Exército da Síria tinha um dos maiores estoques de armas químicas do mundo, com mais de mil toneladas de agentes químicos, como gás de mostarda e gás sarin.

O governo insistiu que seu arsenal tóxico era seguro, e que nunca seria usado "dentro da Síria", mas relatos de ataques com químicos começaram a surgir no começo de 2013.

No dia 21 de agosto daquele ano, mísseis com sarin foram disparados em diversos subúrbios de Ghouta, que fica na região rural ao redor de Damasco, matando algo entre 300 e 1.430 pessoas. A oposição e algumas potências ocidentais dizem que só o governo sírio teria capacidade de realizar este tipo de ataque. Assad culpou os rebeldes pelas mortes, mas em poucas semanas chegou a um acordo com os Estados Unidos e com a Rússia para remoção e destruição do seu arsenal químico.

6. Refugiados

Em um dos maiores fluxos de refugiados da história recente, 2,5 milhões de pessoas deixaram a Síria desde o começo da guerra civil – a maior parte formada por mulheres e crianças. Países vizinhos – em especial a Jordânia, a Turquia e o Líbano – sofrem com a crise de refugiados.

O movimento de refugiados se intensificou a partir de 2013, quando a violência piorou. Outros 6,5 milhões de pessoas abandonaram suas casas mas continuam na Síria, muitos sem acesso a ajuda humanitária.

Com isso, o número total de refugiados supera os 9 milhões – mais que a metade da população síria. A ONU está tentando arrecadar US$ 6,5 bilhões para fornecer comida, água, remédios e abrigo aos sírios em 2014. É o maior esforço de arrecadação do tipo já feito pela entidade.

7. Guerra por procuração

O que havia começado como uma insurgência dentro da Primavera Árabe contra um autocrata acabou se tornando em uma brutal "guerra por procuração" entre potências regionais e mundiais.

O Irã e a Rússia apoiaram o governo de alauítas de al-Assad, com assistência militar que permitiu ganhos importantes contra os rebeldes no ano passado. A oposição, dominada pelos sunitas, recebeu apoio de diversos outros países – como Turquia, Arábia Saudita, Catar, além dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França.

Os islamistas xiitas do movimento libanês Hezbollah e jihadistas da al-Qaeda também estão presentes no campo de batalhas sírio, em lados opostos, contribuindo ainda mais para temores de mais violência sectária no futuro.

8. Negociações de paz

Como nenhum dos lados da guerra conseguiu uma vitória decisiva sobre o outro, a comunidade internacional vem buscando um esforço para negociar a paz na Síria. Várias iniciativas da Liga Árabe e da ONU por um cessar-fogo fracassaram no passado recente.

Em maio de 2013, Estados Unidos e Rússia começaram a trabalhar em formas de implantar o Comunicado de Genebra de 2012, um acordo com amplo apoio internacional que prevê a formação de um governo de transição na Síria.

Os diálogos só começaram formalmente em janeiro de 2014. Mas após apenas duas rodadas, a negociação fracassou. O enviado especial da ONU, Lakhdar Brahimi, culpou o governo sírio, que trata os insurgentes como terroristas e se recusa a negociar uma transição.

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