Brasil planeja envio de soldados para Força da ONU no Líbano

  • 13 março 2014
Tropas da Unifil no Líbano (AFP)
Tensões na fronteira entre Líbano e Israel levaram à criação da Unifil, em 1978

O Brasil planeja o envio de tropas do Exército para serem incorporadas à missão de paz das Nações Unidas no sul do Líbano, junto à fronteira com Israel, já no primeiro semestre de 2015. A informação foi obtida com exclusividade pela BBC Brasil de fontes militares no Brasil e no país árabe.

De acordo com as fontes, que pediram para que seus nomes não fossem revelados, o governo libanês já foi informado pela ONU que entre 300 a 400 soldados brasileiros devem desembarcar no sul do país para se juntarem às tropas da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil, na sigla em inglês) no próximo ano.

Oficialmente, o Ministério da Defesa brasileiro disse à BBC Brasil que tem conhecimento do assunto, mas que o envio das tropas ainda está em análise e que ainda não há uma decisão final sobre o tema.

Mas um oficial da Marinha Brasileira que serve a Unifil no Líbano disse que "as tropas chegam no primeiro semestre de 2015 e serão enviadas para a base militar onde atualmente também está o contingente espanhol. Eles ficarão na região das Fazendas de Chebaa, no sul do Líbano".

Segundo o oficial, os militares brasileiros serão entre 300 a 400 soldados e oficiais vindos do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado (BIMtz) de São Leopoldo e um batalhão de blindados da 6ª Brigada de Infantaria Blindada de Santa Maria, ambos do Rio Grande do Sul.

Desde 2011, o Brasil já comanda uma força naval da ONU no Líbano e contribui com uma fragata que, juntamente com outras embarcações de vários países, patrulha a costa libanesa para evitar a entrada ilegal de armas pelo mar.

Mas esta seria a primeira vez que o país mandaria tropas terrestres para o Oriente Médio desde os anos 50, quando o Brasil participou de forças de paz da ONU na fronteira entre o Egito, na península do Sinai, e Israel.

'Pressão'

"A ONU vinha pressionando o Brasil para que enviasse suas tropas terrestres ainda este ano, mas o governo recusou alegando que precisa de seus contingentes para ajudar na segurança na Copa do Mundo, maior treinamento específico e que haverá ainda eleições, incluindo a presidencial", completou o oficial.

No início de 2013, já circulava na imprensa brasileira a informação (admitida pelo Ministério da Defesa) de que ONU e Brasil conversavam sobre o envio de militares brasileiros ao Líbano.

Na época, a ideia da ONU, no entanto, era de que o Brasil enviasse um batalhão no segundo semestre de 2014. Mas estudos do Exército concluíram que soldados só poderiam chegar ao Líbano no primeiro semestre de 2015, após a Copa do Mundo. Durante o evento, os militares estarão envolvidos em diversas ações de defesa e segurança.

De acordo com o oficial, a ordem do Alto Comando Militar e do governo foi de manter o assunto em "caráter sigiloso por ainda ser um tema sensível mandar militares brasileiros a um terreno instável e perigoso como o Líbano, especialmente por causa da guerra na vizinha Síria".

Uma portaria de número 164 do Estado-Maior do Exército (EME), datada de 15 de agosto de 2013, já dava o pontapé inicial para a escolha dos batalhões e treinamentos e aprovava "a diretriz para as atividades de planejamento para a hipótese de integrar missões de paz sob a égide das Nações Unidas no Oriente Médio com um Batalhão de Infantaria de Força de Paz".

Um alto oficial do Exército libanês no Ministério da Defesa confirmou à BBC Brasil que a ONU já informou o Líbano de que o Brasil deve enviar em breve um contingente militar terrestre ao país.

"É de praxe a ONU informar ao Líbano (quais são) os países que mandam tropas e embarcações à Unifil. Há uma pressão para que o efetivo da Unifil tenha mais soldados desde que a Espanha e França retiraram parte de seus contingentes", explicou o militar libanês.

Em 2013, a Espanha retirou a metade dos mais de mil soldados no Líbano devido à crise financeira que assola o país. A França também reduziu sua presença na Unifil, mas mantém 838 soldados no sul libanês.

"A presença do Brasil seria para suprir quase o número das tropas espanholas que foram retiradas da base no sul", salientou o oficial.

O militar também confirmou que a tendência é de que as tropas brasileiras fiquem nesta base da Unifil, juntamente com o contingente espanhol. A base, segundo ele, é a segunda maior da Unifil, perdendo em tamanho para o quartel-general da força em Naqoura, na costa sul libanesa junto à fronteira com Israel e que serve de base do comando da Unifil.

Estudos de batalhões

Outra fonte, que trabalha no Ministério da Defesa em Brasília, também disse à BBC Brasil que em 2013 o Brasil já havia iniciado as tratativas com a ONU para o envio de suas tropas, mesmo ano do anúncio da Espanha de retirada de parte de seu efetivo.

Um oficial do quartel do 19º BIMtz, em São Leopoldo, admitiu à reportagem da BBC Brasil que o envio dos batalhões gaúchos ainda passa por estudos sigilosos no âmbito do Alto Comando Militar e Ministério da Defesa.

"Existe sim que a grande possibilidade do 19ºBIMtz ser o escolhido pelo fato de ser um dos batalhões de pronto-emprego do Exército".

Segundo ele, que já esteve em missões de paz no exterior, cerca de "80% das tropas do 19º BIMtz já estiveram em missões no estrangeiro", tornado-o um dos batalhões de maior experiência e capacidade para missões da ONU.

O batalhão gaúcho já esteve na forças de paz no Haiti, no Timor Leste e Angola, além de participar das operações de pacificação das favelas no Rio de Janeiro.

Ainda de acordo com o oficial, o 19º BIMtz se prepara atualmente para trabalhar na Copa do Mundo, já que Porto Alegre será umas cidades-sede do torneio de futebol."

"Mas tão logo haja a confirmação oficial da missão, faremos um direcionamento dos esforços, mediante um minucioso planejamento específico já que uma missão de paz no Líbano tem novas peculiaridades", explicou.

No entanto, outro oficial do batalhão de São Leopoldo revelou que os treinamentos visando o Líbano já estariam sendo preparados, tão logo termine a Copa no Brasil, na metade de julho.

"A decisão técnica (da escolha do 19º BIMtz) já está tomada, mas ainda assim é uma decisão do Ministério da Defesa e do Estado-Maior do Exército. Tudo pode mudar de acordo com uma decisão política interna deles".

Mas segundo ele, o Exército Brasileiro não teria muitas alternativas, já que conta apenas com a Brigada de Operações Especias, sediada em Goiás, uma Brigada de Paraquedistas no Rio de Janeiro, além de outras tropas especiais, mas todos com utilidades específicas como em terrenos de selva.

"Com pessoal preparado e disponível para esta missão, só (temos) o 19º BIMtz e os Fuzileiros Navais da Marinha, mas o contingente deles é pequeno", enfatizou o militar.

De acordo com ele, há sim uma possibilidade de que a ida de militares do Exército brasileiro se dê em breve, já que os estudos correm em segredo sobre os batalhões a serem enviados.

Unifil

Batalhões como o 19º BIMtz e os outros mencionados acima são considerados forças de pronto-emprego ou ação rápida, recebendo mais recursos, são melhor equipados e que contam em seus quadros apenas militares profissionais e "veteranos" (e não os soldados do serviço militar obrigatório e temporário que se renova a cada ano).

Outras unidades também consideradas de ação rápida são a Brigada Aeromóvel de São Paulo e o Comando de Aviação do Exército (Cavex).

A região das Fazendas de Chebaa, perto da base onde as tropas brasileiras devem permanecer, é uma área ocupada por forças militares israelenses e reivindicada pelo governo libanês. A ONU diz que a área pertence à Síria, que por sua vez alega que a soberania sobre o território é do Líbano.

O grupo militante libanês Hezbollah alega que combate Israel com o objetivo de liberar as terras de Chebaa da ocupação israelense.

As tensões na fronteira entre o Líbano e Israel levaram à criação da Unifil, em 1978, com vários países tendo contribuído para o contingente de paz da ONU. Hoje, a missão das Nações Unidas conta com um efetivo de 10.208 soldados de 38 países.

As forças de paz já foram alvos de atentados a bomba contra suas tropas, especialmente as europeias, por grupos desconhecidos no país. Tropas da Itália, França e Espanha já foram alvos de ataques, obri9gando a Unifil a reforçar suas medidas de segurança.

Em 2007, um carro-bomba matou seis soldados espanhóis e feriu outros dois quando seu blindado patrulhava a região perto da base onde tropas brasileiras serão enviadas. Até hoje, ninguém assumiu a autoria do atentado.