Repórter relata tensão sob mira de soldado russo na Ucrânia

  • 6 março 2014
Soldados russos em Belbek, Crimeia (Reuters)
Soldados liderados pelos russos obrigaram os ucranianos a deixarem a base de Belbek

A base aérea de Belbek, na Crimeia ficou famosa por confrontos tensos entre soldados usando uniformes militares russos, sem distintivos, e soldados ucranianos, tudo filmado por jornalistas ocidentais.

Olga Ivshina, uma repórter do Serviço Russo da BBC, descreve abaixo a situação tensa que passou com soldados que falavam russo e controlavam a base nos arredores da cidade de Sebastopol. O incidente descrito ocorreu quando ela decidiu caminhar nos arredores da base onde estava com outros jornalistas.

"Não se mexa ou eu atiro!", gritou uma voz que vinha de trás de um arbusto. Lentamente, viro minha cabeça e vejo uma arma com um silenciador apontada para a minha direção.

Bases militares não são projetadas para acomodar jornalistas - você fica em pé durante horas, sem tomadas ou banheiros. Vejo apenas uma estrada estreita e arbustos sem fim.

Apenas alguns minutos antes, a ideia de se afastar algumas centenas de metros da multidão de colegas nos parecia segura e razoável.

"Pare!", o soldado grita novamente. Então, alguém responde com um grito, não muito distante. É estranho, mas estes homens armados aparentemente não têm rádios para comunicação.

Nós ficamos parados ali, com nossas mãos erguidas, repetindo que somos jornalistas, e apenas esperamos.

O soldado que nos observa está usando camuflagem ao estilo da usada pelo Exército russo, mas sem distintivos.

Um minuto depois, outros dois soldados chegam. Um tem um rifle de assalto Kalashnikov e o outro carrega com um rifle de precisão e um lançador de granadas. Acho que eles superestimaram a ameaça representada por nossa equipe, mas não falo isto para eles.

"Você deve vir conosco", disse educadamente um deles, sem fôlego e fortemente armado. Parece impossível recusar esta oferta.

Suspeita

Olga Ivshina (foto: BBC)
Jornalistas da BBC sofrem intimidação de militares vestidos de forma semelhante a russos

Caminhamos, passando por algumas trincheiras. As pessoas sentadas nestas trincheiras nos observam, surpresas.

Entramos em um prédio de tijolos pequeno e arruinado, com alguns buracos de balas na parede.

"Parece que não somos os primeiros aqui!", digo, tentando parecer despreocupada.

Os soldados sorriem e abaixam as armas. As coisas ficam um pouco mais calmas.

"Seus documentos, por favor!" diz um dos soldados.

Nós mostramos o que filmamos com nossa câmera e abrimos uma mochila.

Naquela manhã, não tínhamos gravado muita coisa e nada era muito interessante. Mas eles nos pedem para apagar tudo, por precaução.

Lentamente, tiro uma garrafa de água e uma barra de chocolate da mochila.

"Snickers? Você não deveria comer esta comida americana. Faz mal para sua saúde", disse um soldado russo.

"Você pode comer, se quiser", respondi.

"Não, não. Não comemos comida americana", afirmou o soldado com o lançador de granadas, sorrindo satisfeito.

Continuamos esvaziando a mochila e apresentamos o estojo de primeiros-socorros.

"Kit americano!", disse o soldado com o lançador de granadas. Instantaneamente os soldados levantam as armas de novo.

"Julgando pelo seu físico, vocês dois são espiões britânicos", disse outro soldado.

"Isso é elogio ou repreensão?", perguntei. A resposta foi um silêncio tenso.

Tatuagem

Caças ucranianos (AP)
Caças ucranianos estão estacionados na base de Belbek enquanto soldados russos patrulham o local

O soldado que me acusou de espionagem me olhou diretamente nos olhos. Julgando pelo comportamento dele com os outros soldados, suponho que ele fosse superior na hierarquia.

Embaixo de sua jaqueta camuflada, vejo uma camiseta com listras azuis. E também consegui ver uma tatuagem na parte de trás da mão: "za VDV", o que significa que ele é um "paraquedista".

"E suas botas são especiais. Pessoas comuns não usam botas assim. Couro de qualidade", disse o soldado.

"Sim, elas são boas. Mas são pequenas. Não vão servir em você", respondi.

"Você tem tatuagens?", perguntou o soldado.

"Não."

"Tire suas roupas, vamos checar."

"Chequem os caras, mas deixem a garota em paz", grita um homem que acabou de se aproximar de nosso grupo e parece ser o oficial de mais alta patente.

"Olga, você é uma cidadã russa? Venha comigo, precisamos conversar", disse ele.

O oficial me leva para um lado e explica como é importante evitar provocações, como os jornalistas ocidentais são parciais e como é importante para todos fazer um trabalho honesto.

"E não venha mais aqui. No final das contas, vocês são cidadãos russos. Não quero atirar contra meu próprio povo", acrescentou.

Antes de nos despedirmos, os soldados tiram fotos nossas com os telefones celulares. Eles dizem que vão fazer uma busca no banco de dados e descobrir sobre nossa espionagem.

Eles nos mostram como voltar para a estrada principal e pedem para não olharmos para trás.

"Olga, você e eu vamos nos encontrar de novo em Moscou", disse o oficial, com um sorriso irônico.

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