Especialistas questionam aposta do governo em camisinha feminina; você usaria?

  • 8 março 2014
Camisinha feminina FC2 | Crédito: Female Health Company/Divulgação
Oferta limitada, preço e estigma são barreiras para maior adesão à camisinha feminina

Cumprindo uma promessa de campanha da presidente Dilma Rousseff, o governo brasileiro comprou, em 2012, 20 milhões de camisinhas femininas para distribuição gratuita em postos de saúde de todo o país. Especialistas, no entanto, questionam a aposta e a estratégia do Ministério da Saúde para ampliar o uso desse preservativo no Brasil.

A aquisição do lote naquele ano fez do Brasil o maior comprador mundial do produto, seguido pela África do Sul. Apesar da posição de destaque do país no cenário internacional, a camisinha feminina ainda é amplamente ignorada como alternativa de proteção a homens e mulheres, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

A decisão do governo se baseou na avaliação de autoridades de saúde pública de que o preservativo deve ser incentivado por dar maior autonomia às mulheres no controle de natalidade e na proteção contra doenças sexualmente transmissíveis. Mas o avanço no uso da camisinha feminina ainda esbarra em uma série de obstáculos.

"Uma das maiores barreiras para a maior adesão ao produto sempre foi o preço, pois a camisinha feminina ainda é um insumo mais caro do que a masculina. Mas, após o governo ter conseguido uma brecha na lei e barateado o custo, deveria estimular o uso do preservativo de outras formas", afirmou à BBC Brasil Simone Martins, coordenadora de projetos da Semina, distribuidora brasileira da Female Health Company, empresa sediada nos Estados Unidos com a qual o governo negociou a compra do produto.

A Female Health Company fabrica a FC2, a segunda geração de camisinhas femininas feitas de borracha nitrílica, um material mais fino do que o látex. A empresa lidera as vendas mundiais para o setor público.

Após conseguir negociar diretamente com a fabricante por meio de um artifício jurídico, o governo reduziu o custo unitário de R$ 7 para R$ 1,36. O valor, no entanto, ainda é superior ao da camisinha masculina, que custa apenas R$ 0,07 aos cofres públicos.

Nas farmácias de todo o país, onde ambos os preservativos são vendidos, o preço também é diferente. Enquanto a camisinha masculina é encontrada por até R$ 3, a feminina não é achada por menos de R$ 7.

Outras barreiras incluem, segundo especialistas, a falta de uma campanha nacional estimulando o uso e o estigma enfrentado pelo produto.

*Valor dos preservativos adquiridos pelo governo federal junto aos fabricantes. A distribuição é gratuita em postos de saúde de todo o Brasil.

**Valor médio dos preservativos vendidos em farmácias.

Fonte: Ministério da Saúde

Sem propaganda

Propaganda veiculada pelo Ministério da Saúde durante o Carnaval | Crédito: Reprodução/YouTube
Campanha do Ministério da Saúde durante o Carnaval mostra artistas segurando camisinha masculina

"A camisinha feminina vive um dilema: ainda é pouco usada pelas mulheres porque a oferta é limitada ou a oferta é limitada porque ela é pouco usada?", questiona Martins.

Martins, que trabalha no setor há mais de duas décadas, diz acreditar que existe uma demanda reprimida pelo produto. Ela critica a falta de campanhas públicas que incentivem o uso do produto entre as mulheres.

"O governo nunca fez uma ação direta a nível nacional para conscientizar a população feminina sobre a camisinha feminina", lembra.

Um levantamento feito pela BBC Brasil identificou que nenhum dos filmes publicitários veiculados pelo Ministério da Saúde durante o Carnaval deste ano se dedica exclusivamente à camisinha feminina.

Em uma das peças, transmitida nas TVs abertas de todo o país, artistas seguram uma embalagem com as proporções de uma camisinha masculina, cujo tamanho é menor do que a da feminina.

O Ministério da Saúde, por outro lado, sustenta que, de acordo com uma pesquisa realizada em 2008, 90% das mulheres brasileiras sexualmente ativas conhecem ou pelo menos já ouviram falar do preservativo feminino.

Na avaliação do órgão, a compra do produto foi justificada para "dar uma alternativa de proteção às mulheres".

"O Brasil está na vanguarda mundial dessa estratégia de prevenção ao ser o maior comprador mundial do preservativo feminino e possibilitar a sua distribuição gratuita", disse à BBC Brasil Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Um estudo publicado em 2009 pelas pesquisadoras Regina Maria Barbosa e Ignez Perpetuo minimiza, entretanto, as ambições do órgão.

Segundo o levantamento, a cobertura da camisinha feminina, ainda que tenha se expandido nos últimos anos, permanece restrita e seu uso diminui com a escolaridade.

"Vale lembrar, no entanto, que a mulher que vai ao posto de saúde e recebe gratuitamente a camisinha feminina normalmente é de classe social mais baixa, com menos anos de estudo", diz Martins.

Não há dados oficiais recentes sobre o uso do preservativo feminino. A última grande pesquisa sobre o tema foi conduzida pelo Ministério da Saúde em 2005 e constatou que apenas 4,7% dos homens e 3,5% das mulheres haviam usado esse tipo de camisinha alguma vez na vida.

O preservativo feminino chegou ao mercado brasileiro em 1997, quando a Anvisa aprovou a comercialização do produto no país. Desde então, o Ministério da Saúde já adquiriu e distribuiu cerca de 16 milhões de camisinhas para as 27 unidades da federação.

Grupos vulneráveis

Segundo especialistas consultados pela BBC Brasil, outro obstáculo para a ampliação do uso é a política de distribuição da camisinha feminina pelo Ministério da Saúde.

Em tese, segundo as diretrizes do órgão, os preservativos são entregues segundo critérios de vulnerabilidade. As situações de maior risco incluem profissionais do sexo e mulheres em situações de violência doméstica e/ou sexual, pessoas vivendo e convivendo com HIV/AIDS, usuárias de drogas e seus parceiros.

No mesmo critério, estão incluídas as mulheres com DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis), as de baixa renda e usuárias do serviço de atenção à saúde da mulher que tenham dificuldade de negociar o uso do preservativo masculino com o parceiro.

"Mas no fim das contas acredito que a camisinha feminina ficou muito voltada para as profissionais do sexo", afirmou à BBC Brasil Luiz Morando, voluntário do Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS, sediado em Minas Gerais.

Mas, mesmo para as prostitutas, a camisinha feminina ainda sofre para ganhar terreno.

A ONG Davida, que defende o direito das profissionais do sexo e é uma das maiores organizações de seu tipo no Brasil, cessou a distribuição do preservativo após uma série de desentendimentos com o Ministério da Saúde.

Estigma

O formato também é outra barreira à aceitação do produto, dizem especialistas.

Formado por uma bolsa de cerca de 15 cm e oito de diâmetro com dois anéis flexíveis nas extremidades (um é inserido no interior da vagina e o outro cobre os lábios vaginais), a camisinha feminina ainda causa repulsa em muitas mulheres.

"Muitas mulheres acham o preservativo feio e desconfortável. Isso acaba dificultando o uso. Outras ainda veem a camisinha como um tabu e acreditam que caiba ao homem a responsabilidade de vesti-la", afirmou à BBC Brasil Waldarci Cavalcanti, uma das coordenadoras do posto de saúde PAM-Salgadinho, o maior do Nordeste brasileiro.

Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPqHCFMUSP), o uso do preservativo feminino também esbarra na falta de intimidade da mulher brasileira com o seu próprio corpo.

"A sociedade brasileira ainda é muito machista e existe um tabu das próprias mulheres em relação à intimidade com o seu próprio corpo", afirmou Abdo à BBC Brasil.

"É preciso mudar essa cultura sem esquecer, no entanto, que a responsabilidade sobre o uso do preservativo não é apenas da mulher", concluiu.

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