Qual é a saída para a crise econômica na Ucrânia?

  • 24 fevereiro 2014
Manifestante segura bandeira da Ucrânia em protesto (Getty)
Em duas décadas, a Ucrânia não conseguiu fazer sua economia voltar ao nível de quando integrava a URSS

Os acontecimentos se desenrolaram rapidamente na Ucrânia ao longo dos últimos dias, mas ainda permanece a incerteza quanto ao futuro econômico e político do país.

Há dúvidas se o país receberá a ajuda financeira necessária para evitar um calote no pagamento de sua dívida externa e de onde virá a ajuda.

Mas, diante as mudanças no seu cenário político, surgiram sinais na Europa, nos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que existe a possibilidade da Ucrânia receber ajuda.

O ministro da Economia ucraniano serão necessários US$ 35 bilhões (equivalente a R$ 84 bilhões) nos próximos dois anos.

O comissário para assuntos econômicos da União Europeia, Olli Rehn, disse que a Ucrânia pode vir a receber um valor substancial. O secretário do Tesouro americano, Jacob Lew, disse que o melhor caminho envolveria um “apoio internacional por parte do FMI e apoios bilaterais”.

A Ucrânia tem um empréstimo de US$ 15 bilhões (R$ 36 bilhões) aprovado pela Rússia e já recebeu a primeira parcela, de um quinto do total. Mas é improvável que receba o restante se o governo que vier a comandar o país estabelecer laços mais estreitos com a União Europeia (UE).

Se a UE e os EUA ofertarem o montante de ajuda que falta, provavelmente insistirão num programa de políticas acordado com o FMI.

Mas a experiência recente da Ucrânia com o FMI não foi boa. O empréstimo feito anteriormente, diz o FMI, “saiu dos trilhos porque as autoridades pararam de implementar as políticas previstas na sua concessão”.

Ao rever o episódio, o FMI chegou a sugerir que seria útil em futuros programas de empréstimos concedidos pelo órgão que houvesse “um mecanismo para dar fim a acordos que não seguissem os termos previstos”.

Problema energético

Um problema central da Ucrânia foi sua relutância em aumentar as tarifas de energia. O setor energético do país foi descrito pelo FMI como “sem brilho e ineficiente”. Os subsídios oferecidos pelo governo pesam sobre as finanças públicas, que já estão sobrecarregadas, e não geram um incentivo para que cidadãos e empresas usem eletricidade de forma mais eficiente.

A reforma do setor de energia também é um elemento importante do acordo de associação negociado com a EU, que nunca chegou a ser assinado pelo ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovytch, decisão que deu início aos protestos.

É provável, então, que qualquer ajuda financeira vinda do Ocidente exija um compromisso da Ucrânia em acabar com os subsídios e deixar os preços da energia serem regulados pelo mercado.

Por mais fortes que sejam as razões econômicas, no entanto, este seria um movimento complicado do ponto de vista político para qualquer governo ucraniano.

O problema seria especialmente grave se a fornecedora russa de gás Gazprom aumentasse os preços cobrados da Ucrânia. E especula-se que a empresa possa vir a fazer isso. Representantes da Gazprom negaram.

Por trás das dificuldades recentes da Ucrânia, há uma longa história de fraco desempenho econômico.

Quando a União Soviética acabou, e junto com ela o planejamento econômico central, as economias dos novos países surgidos a partir dali se contraíram fortemente. Quase todos se recuperaram desde então.

Eles conseguiram voltar a crescer e atingiram níveis econômicos superiores ao de antes da crise soviética, mas não a Ucrânia. Sua economia ainda é menor do que em 1992.

Peso econômico

A Polônia é uma boa comparação. Em 1992, usando um método de comparação chamado "paridade de poder de compra", as economias dos dois países tinham tamanhos parecidos, com a da Ucrânia sendo um pouco maior.

Hoje, a economia polonesa tem mais do que o dobro do tamanho da ucraniana.

Há uma série de outras questões desabonadoras para a Ucrânia. Sua balança comercial é deficitária. No ano passado, esse índice chegou a 8% do Produto Interno Bruto (PIB), e a Ucrânia tem de pegar empréstimos no exterior para cobrir essa diferença.

Um déficit desse tamanho pode ser gerenciado se os mercados financeiros confiam na economia de um país. Se não houver essa confiança, pode ser um sinal de que problemas estão por vir.

Na semana passada, a agência de avaliação de risco Standard and Poor rebaixou a nota da Ucrânia, o que reflete sua visão de que o país terá dificuldade de honrar suas dívidas sem ajuda financeira e, até então, era incerto que essa ajuda viria.

Mas agora existe a possibilidade de que isso aconteça por meio do FMI e de países do Ocidente.

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