A dura vida dos homônimos de Saddam Hussein

  • 24 fevereiro 2014
O ex-presidente Saddam Hussein
Uma década após queda do regime, homens que têm o mesmo nome que ex-presidente dizem sofrer insultos

O ex-presidente iraquiano Saddam Hussein foi capturado há uma década e executado em 2006, mas os homens que, por azar, têm o mesmo nome do famigerado ditador precisam lidar com o fato de carregaram na identidade uma lembrança constante do ex-líder do Iraque.

Muitos desses homens - alguns xiitas, outro sunitas, como o Saddam original - foram batizados em uma época que o líder iraquiano era um vice-presidente em ascensão; hoje, têm seus nomes associados à brutalidade do regime derrubado em 2003.

Em Aziziyah, cidade de maioria xiita a sudeste de Bagdá, a reportagem da BBC conheceu um desses homens. Saddam Hussein Ulaiwi, de 35 anos, ganha a vida como operador de gerador.

Seu nome foi escolhido em 1978, por seu avô, quando Saddam ainda não presidia o Iraque, mas era cada vez mais admirado no país. Na época da escola, Ulaiwi diz que suas professoras esperavam que ele tivesse o mesmo aparente sucesso que seu homônimo famoso e puniam-no severamente quando ele não cumpria expectativas em sala de aula.

Quando cresceu, Ulaiwi entrou no Exército, onde esperava que seu nome lhe trouxesse prestígio. Aconteceu o oposto: na primeira vez em que foi chamado para buscar seu uniforme, levou uma surra de um superior, que o acusou de profanar o presidente ao comparar-se com ele.

Após Saddam Hussein ter sido derrocado, em 2003, Ulaiwi acreditou que estaria livre do peso de seu nome. Mas, assim como tudo no Iraque pós-invasão americana, a realidade era mais complexa.

Partidos políticos convocaram seu pai e pediram-lhe que mudasse o nome de seu filho, mas a família se recusou. Ele até hoje ouve xingamentos na rua. Funcionários de repartições estatais muitas vezes se recusam em processar seus pedidos.

Ulaiwi chegou a tentar mudar o nome em 2006, mas desistiu por conta da custosa burocracia iraquiana e pelos altos custos do processo.

'O país te odeia'

Outros Saddams Husseins, a maioria do norte sunita, do oeste e até do sul xiita, disseram à BBC que também passam por maus bocados por causa de seu nome.

Um deles, um jornalista da cidade sunita de Ramadi, contou que seu pai foi demitido como funcionário público por não conseguir convencer seus superiores de que não era um membro do partido Baath, do Saddam original.

Mas há histórias mais aterrorizantes: um Saddam disse que foi capturado por uma milícia xiita, posto de joelhos e ameaçado de morte com uma arma apontada para sua nuca. Segundo ele, a arma não disparou, e ele acabou sendo libertado.

Um homem contou à BBC que, quando criança, tinha um colega de nome Saddam Hussein em uma escola curda em Bagdá.

Durante um jogo de futebol com o menino, eram comuns os gritos: "não somos só nós que te odiamos, o país inteiro te odeia".

Passada uma década desde a mudança de regime no Iraque, não há mais estátuas ou homenagens públicas a Saddam à vista. Mas os nomes desses homens permanecem como lembranças daquela época.

A BBC perguntou ao Saddam operador de gerador como ele responde às pessoas que o insultam nas ruas.

"Eu só tenho esse nome", ele respondeu, sentado ao lado de seu pai em sua modesta casa. "É só um nome. Não significa nada."

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