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Movimento estudantil desafia o chavismo na Venezuela

Atualizado em  14 de fevereiro, 2014 - 18:38 (Brasília) 20:38 GMT
Manifestações de estudantes em Caracas | Foto: AFP

Universitários se mobilizaram após tentativa de violentar estudante

Milhares de estudantes protestaram nos últimos dois dias em Caracas contra o governo venezuelano, no maior desafio à liderança de Nicolás Maduro desde que ele assumiu o comando do país, após a morte de Hugo Chávez.

Apoiados por grupos de oposição, os estudantes pedem ação imediata contra os altos índices de criminalidade, a inflação e a falta de bens de consumo básicos.

Na quarta-feira passada, o protesto terminou em confronto e deixou três mortos - um manifestante pró-governo e dois estudantes, que se manifestavam contra a administração chavista - e dezenas de feridos.

A líder estudantil Gabriela Arellano, conselheira universitária da Universidade dos Andes, disse à BBC que os confrontos começaram quando grande parte dos mobilizados já tinham se dispersado em meio a rumores da chegada de governistas radicais conhecidos como "coletivos".

Pouco depois, homens em motocicletas chegaram atirando no resto da multidão.

"Era uma manifestação pacífica, mas lamentavelmente os grupos armados que o governo lidera transformaram o dia em luto", relembra a estudante de história de 26 anos, que afirma ter vídeos de vizinhos que demonstram o acontecido.

Arellano, ao lado de milhares de cidadãos a pé e representantes políticos de oposição, havia chegado à porta do Ministério Público para exigir a liberação dos estudantes detidos na semana passada nos protestos contra a insegurança, organizados em diferentes cidades do país.

Mas para o governo, os manifestantes são "fascistas" tentando dar um golpe de Estado como o de abril de 2002, quando o então presidente Hugo Chávez foi deposto por 48 horas após os episódios violentos registrados nos arredores do Palácio de Miraflores.

O presidente Nicolás Maduro pediu a seus apoiadores que vão às ruas no sábado "pela paz e contra o fascismo". Ele chegou a convocar uma manifestação para a última quinta-feira, mas poucos manifestantes compareceram.

Manifestação na quarta-feira | Foto: Reuters

Protesto da quarta-feira terminou em confronto que deixou três mortos

Maduro afirma que não será deposto, apesar de os manifestantes negarem qualquer intenção de dar um golpe de Estado.

Oposição?

Daniel Martínez, presidente da Federação de Estudantes da Universidade Simón Bolívar, explicou que os protestos das últimas duas semanas se devem à insegurança de que padecem os centros acadêmicos.

As manifestações começaram após uma estudante universitária sofrer uma tentativa de estupro. Rapidamente os protestos ganharam um teor antigoverno.

"Os protestos se intensificaram porque detiveram e reprimiram estudantes que se manifestavam pacificamente. Prenderam estudantes em menos de 24 horas", afirma Martínez, estudante de arquitetura de 23 anos.

A Federação de Estudantes, principal órgão estudantil do país, diz que doze dos universitários permanecem presos, mantidos a centenas de quilômetros de suas casas, tratados como delinquentes comuns e acusados de atos de terrorismo e outros crimes.

Determinados setores da oposição atenderam à convocação dos estudantes. Em especial Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao e líder do partido Vontade Popular.

"Os estudantes são oposição ao status quo, sempre queremos que as coisas sejam melhores, mas isso não significa que sejamos a voz dos partidos de oposição, não somos um partido político."

Daniel Martínez, líder estudantil

Um dia depois do confronto, segundo a imprensa local, o governo emitiu uma ordem de prisão contra López, que foi acusado de incitação à deliquência, intimidação pública, danos à propriedade pública e até homicídio doloso qualificado.

Apesar de os estudantes reconhecerem que se opõem ao governo de Maduro, eles não querem ser chamados de "oposição".

"Os estudantes são oposição ao status quo, sempre queremos que as coisas sejam melhores, mas isso não significa que sejamos a voz dos partidos de oposição, não somos um partido político. Somos a voz de um país que pede mudanças", disse Martínez.

"Nos opomos à violência que vem do governo. Nos opomos à maneira como este governo administra as universidades. Nos opomos à maneira como este governo faz muitas coisas que fazem os venezuelanos sofrerem todos os dias."

Sempre nas ruas

Os universitários venezuelanos são historicamente a vanguarda dos protestos de rua no país e muitos de seus líderes chegaram a postos de poder.

Assim foi com o fim das emissões do canal Radio Caracas Televisión em 2007, durante a presidência de Chávez, quando os universitários lideraram as manifestações.

De fato, eles estão presentes sempre que acontecem mudanças políticas, como por exemplo durante a geração de 1928, quando surgiram líderes estudantis como o ex-presidente Rómulo Betancourt, que enfrentava naquele momento o regime de Juan Vicente Gómez.

Manifestação em Caracas | Foto: Reuters

Estudantes negam acusações de Maduro, que fala em "golpe de Estado"

Depois disso, os protestos estudantis levaram à derrubada do governo de Marcos Pérez Jimánez em 1958, além da presença quase constante dos jovens nos protestos populares que continuaram a acontecer no período de alternância entre os partidos Acción Democrática e Copei.

"Na história da Venezuela, os estudantes são a vanguarda, a consciência da sociedade pisoteada e oprimida. Hoje o governo é um partido que já está há 15 anos no poder, mas antigamente a universidade também era contestadora e crítica diante dos abusos", disse Arellano.

O presidente Nicolás Maduro acusou aos participantes dos protestos do 12 de fevereiro de querer provocar um golpe de Estados e os chamou repetidas vezes de "fascistas", mas os estudantes negam as acusações.

"Não somos golpistas, o que somos e representamos é a mudança que este país precisa. Falam de revolução, mas fazem o mesmo que governo anteriores. Falam de revolução e o país está cada vez pior. Os verdadeiros revolucionários são os estudantes que querem transformar este país", afirma Daniel Martínez.

"Sempre que alguém protesta por um direito, o governo sai com o discurso de que 'sofremos um golpe de Estado' ou que 'estão criando uma agenda oculta para desestabilizar'. Desestabilizada está a sociedade venezuelana que vive com medo e fazendo filas", disse a líder estudantil Arellano.

Ela afirmou ainda que "se o governo fizer as coisas bem, o povo voltará para suas casas". "Mas se o governo, ao invés de responder as exigências, aumentar a criminalização, a perseguição e as torturas, obviamente terá muito mais pessoas na rua", afirma.

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