Lucas Mendes: Berlindas na Berlinale

  • 13 fevereiro 2014
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Virei festivaleiro. Cannes, Veneza, Berlinale. Minifestivaleiro. Só assisto aos da minha mulher e do meu filho. Ou seja, vou para participar do drama e da companhia deles e dos amigos. Em Veneza, Diogo e Anna, companheiros e guias do que não está nos guias. À noite, proporcionam mais aventura do que os filmes, quando pilotam a lancha no escuro.

Em Berlim tenho o luxo de dois guias alemães, que vivem em Munique e Colônia, uma amizade nova-iorquina que resiste há décadas. Nick Gertshauser era correspondente da revista Stern e dividíamos um apartamento no Village. Hoje, em Colônia, assiste a um filme por semana em companhia de um crítico e depois passa horas, meses, anos, refletindo sobre o que viu, mas a paixão dele são as artes plásticas, é um maratonista de museus.

O pai de Nick serviu no Exército alemão e foi morto num bombardeio. Eu digo a ele que o pai foi vítima do pai da minha primeira ou do pai da minha segunda mulher. Ambos despejaram bombas em Berlim.

Nick não sabe quase nada sobre o nazismo. Nas escolas dele, a história alemã acabava em 1914.

O outro amigo, Bernhard Horstmann, foi padrinho do meu primeiro casamento, vizinho no Village, profissional de vinhos.

Bernard, filho de alemão com chinesa, saiu jovem da Alemanha, serviu no Vietnã e nunca se interessou pela Segunda Guerra. Consegui levá-lo com a mulher para o Memorial do Holocausto. De lá, fiz minha caminhada regeneradora. São quinze minutos do memorial aos seis milhões de judeus ao bunker onde Hitler se matou. No memorial você perde a fé na humanidade. No bunker de Hitler, você recupera a fé.

Eu sou fascinado pelo mistério de como um dos países político e culturalmente mais sofisticados do mundo caiu no conto do Hitler. Depois de várias biografias e histórias ainda sei pouco. Os dois alemães sabem menos ainda. Por quê?

Felizmente, o festival não depende de gente como nós, que prefere mesa, copo e conversa. Nenhum outro festival vende tantos ingressos. Mais de 300 mil. As salas lotam.

Os destaques deste ano foram para filmes sobre o passado europeu. Os Caçadores de Obras Primas, com um superelenco, conta a história de um pelotão americano com a missão de recuperar obras de arte pilhadas pelos nazistas e impedir que sejam apossadas pelos soviéticos.

The Grand Budapest Hotel, do diretor americano Wes Anderson, é baseado num conto de Stefan Zweig, com um elenco também poderoso. A história se passa num hotel fino de uma cidade imaginária da Europa Central e gira em torno de um conciérge sedutor.

Há outros filmes com temas do presente e passado europeus, mas as outras berlindas deste ano são os gays, lésbicas e transexuais. Competem pelo prêmio Teddy, um ursinho.

Dos dezesseis filmes na competição, dois brasileiros têm possibilidades. Praia do Futuro, dirigido por Karim Ainouz, está também entre os vinte filmes na competição principal, pelo Urso de Ouro. É um tema contemporâneo sobre jovens de classe média no nordeste que vai terminar em Berlim.

Eu não quero voltar sozinho, do diretor Daniel Ribeiro, é um desdobramento de um curta sobre um garoto cego da periferia de São Paulo.

Um filme caro sobre a vida de Pelé foi destaque negativo na imprensa. Como outras obras da nossa Copa, não vai ficar pronto para ser lançado junto com o chute inicial. Furou e pode virar tragédia, porque os investidores têm a opção de tirar ou não colocar o dinheiro. Pelo menos um deles já pulou fora.

Também estão na berlinda as mulheres suecas. Elas criaram uma nova forma de classificar filmes que já foi adotada pelos cinemas suecos.

Para merecer endosso das suecas, um filme precisa satisfazer três condições:

1. Ter pelo menos duas mulheres com nomes;

2. Que conversem entre elas;

3. Que o assunto delas não seja homem.

Entre os filmes no festival, The Grand Hotel Budapest só satisfaz uma das exigências. Os Caçadores de Monumentos, satisfaz duas.

Ninfomaníaca, volume 1, de Lars von Trier, satisfaz todas. O filme sobre Yves Saint Laurent, o homem da alta costura feminina, só preenche o primeiro quesito. Ainda é um mundo dominado por homens, não necessariamente machões.

Uma das maiores queixas no festival não é a falta de filmes ou de diversidade. É a falta de dinheiro. Vendas frouxas. Apreensão com a economia mundial foi uma explicação.

Prefiro a de um investidor, mais pessimista: a última "idade de ouro" do cinema foi de 2005 a 2008. Até lá se fazia e se vendia qualquer coisa.

Agora, é a era da televisão.