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Tim Vickery: palavra 'gringo' revela ignorância de quem a usa

Atualizado em  13 de fevereiro, 2014 - 13:17 (Brasília) 15:17 GMT
Fuleco, o mascote da Copa. Foto: AFP

Colunista acha que o Brasil terá a oportunidade de mudar seu vocabulário no ano da Copa

Eu tinha 23 anos quando saí da Inglaterra pela primeira vez. Meu pai viveu 84 anos sem nunca ter ido mais longe do que a Irlanda, para um final de semana. Tempos diferentes. Para ele, a França era um lugar tão longíquo quanto a Lua.

Eu entendo que, naquela época, dado o tamanho do Brasil e as deficiências educacionais, o mundo exterior era um conceito abstrato para muitos brasileiros. E a ignorância é sempre um terreno fértil para coisas sinistras.

Uma rápida história: há alguns anos eu voltava para o Rio, acho que vindo do Paraguai, quando fiz uma conexão em São Paulo. Enquanto esperávamos dentro do avião na pista, comecei a conversar com uma jovem sentada ao meu lado. Ela era doméstica e voltava para o Rio depois de férias em sua terra natal, o Nordeste. Era a sua primeira viagem de avião. Fiquei feliz em ouvir um exemplo concreto de como o país está estava progredindo.

Daí um grupo de turistas ingleses embarcou. Muitos aparentavam ter se aposentado recentemente. Eles estavam de férias, tinham acabado de chegar ao Brasil e estavam a caminho do Rio! Havia uma alegria no ar, enquanto acomodavam suas bagagens de mão, fazendo brincadeiras no corredor.

Minha nova amiga não parecia muito contente com a situação.

"Dá vontade de dar um soco bem na cara deles, não dá?"

Não, não dá. Decidi não revelar minha nacionalidade. Eu era um deles. Preferi por fim à conversa. A vida é curta demais para perdê-la com xenófobos.

Fascismo tropical

É bom dizer que esse comportamento é pouco representativo do povo brasileiro. Posso falar com alguma experiência, em virtude de minhas participações em programas da TV local. Eu fico sempre maravilhado com o respeito com que sou tratado por aqueles dentro do futebol brasileiro - sem nem um pingo de falsa modéstia, posso afirmar que é muito mais respeito do que eu mereço. Sempre temi uma resposta muito mais negativa ao dar opiniões sobre algo tão importante para a sociedade brasileira, como o futebol.

Mas é inquestionável que existe uma minoria xenófoba. E não poderia ser diferente. O Brasil moderno foi fundado pelas maquinações de Getúlio Vargas e sua forma relativamente benigna de fascismo tropical - benigna e pouco militarizada, mas ainda assim fascista na sua essência. Uma agenda de desenvolvimento nacional é uma reação bastante previsível em um país que sempre esteve no lado frágil na relação colonial.

E a saída fácil para a elite local atacar essa relação foi criar uma dicotomia - "nós e eles" -, que retira do imperialismo o seu conteúdo de classe. Convenientemente se esquece que no auge desse sistema, a grande massa da população europeia vivia na miséria, enquanto a classe governante brasileira prosperava com o pacto colonial. Muito mais fácil era culpar o outro, o explorador, o gringo!

(Se me permitem abrir um parêntese aqui, minha opinião é de que os sinais deixados na psiquê inglesa como resultado de ter sido uma potência imperial foram muito mais nocivos que o legado do que o Estado Novo no Brasil. Mas eu não sou um porta-voz da minha terra natal.)

Basta do termo 'gringo'

"Cada vez mais, a palavra "gringo" fala mais sobre a ignorância de quem a usa do que sobre o alvo em questão."

As palavras são forjadas por motivações específicas. Por que se fala em "gringo" se já existe o termo "estrangeiro"? A resposta: porque a primeira vem carregada de conotações. "Estrangeiro" é neutro. "Gringo", não. O pejorativo está presente, mesmo que nesse dias isso aconteça de forma bastante sutil, tão sutil, aliás, que alguns estrangeiros no Brasil usam 'gringo" para se referir a si próprios, uma forma decepcionantemente pouco criativa de se integrar à sociedade local. O gringo pode ter sido no passado um explorador inescrupuloso. Agora é mais provável que ele seja ridículo, com camisas escandalosas e bronzeado, pagando mico tentando dançar samba.

Neste ano em que o Brasil receberá o mundo, eu adoraria ver repensado o uso dessa palavra. Nenhum termo pejorativo, por mais inofensivo que seja, pode realmente ser aplicado com qualquer grau de precisão a 97% da população mundial. Cada vez mais, a palavra "gringo" reflete mais a ignorância de quem a usa do que o alvo em questão. Este ano, as ruas do Brasil hospedarão sul-coreanos, mexicanos, bósnios, argelinos - uma diversidade humana a ser celebrada. Chamá-los de "gringo" rouba um pouco dessa beleza, reduzindo a diversidade a uma única estupidez. 2014 seria o ano perfeito para jogar a palavra na lata do lixo da história.

Há alguns meses, participei do respeitado programa Observatório da Imprensa na TV Brasil, debatendo racismo no futebol. Ao meu lado estava um dos diretores do diário esportivo Lance!, um excelente jornal mas que, na minha opinião, erra ao continuar tolerando a palavra "gringo". Sugeri que o uso fosse abolido.

Alberto Dines, o veterano apresentador, ficou do meu lado na discussão. Nascido no Rio no começo dos anos 1930, filho de imigrantes russos, ele sabe bem o poder da palavra "gringo".

"Ela me fazia chorar quando eu era criança", disse. Em uma época em que o movimento Integralista estava no seu apogeu, não havia garantia nenhuma de que o fascismo brasileiro se tornaria relativamente benigno. Dines se ofereceu a escrever um artigo para o jornal argumentando que a palavra "gringo" deveria cair em desuso.

Até onde sei, sua oferta não foi aceita. Uma pena. Chega de oportunidades perdidas nesta Copa!

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