Custos fazem empresários desistirem de reciclar coco em São Paulo

  • 17 fevereiro 2014
Coco sendo vendido em São Paulo
Cada casca de coco gera ao menos 1,75 kg de resíduo

O potencial do setor de reciclagem de coco animou dois empresários a tentar se aventurar em projetos do tipo em São Paulo. Mas, segundo eles, os altos custos envolvidos fizeram com que as iniciativas – as únicas identificadas pela BBC Brasil na maior cidade do país – não fossem adiante.

Só de coco verde (de onde é extraída a água), chegaram no Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) 1,7 milhões de unidades em dezembro de 2013. Cada uma delas gera ao menos 1,75 kg de resíduo.

André Bussab é diretor da empresa Biococo, que processa e recicla cascas de coco produzidas no Ceará. Alguns anos atrás, sua empresa tentou retomar um projeto de reaproveitamento das cascas de coco consumidas no Parque do Ibirapuera, um dos mais movimentados de São Paulo.

O projeto começou em 2007, quando a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente implementou pontos de coleta para os milhares de cocos consumidos semanalmente no parque, com o objetivo de reaproveitá-los para produzir substratos agrícolas.

Mas Bussab explica que o projeto se tornou excessivamente caro para atrair o interesse de empresas. "Havia muita burocracia quanto aos horários de coleta, o projeto perdeu o patrocínio (de um banco), o frete é caro. Deixou de se pagar. Achei que ia conseguir resolver esses problemas, mas não deu."

Fátine Chamon passou por experiência semelhante com o mesmo projeto. Com sua empresa Pós-Coco, (cuja fábrica hoje está desativada), ela também chegou a fazer o transporte de cascas no Ibirapuera em 2010, mas desistiu.

"Ficou muito caro transportar as cascas e ter um local para sua secagem em São Paulo", diz ela à BBC Brasil. "Achei que faltou interesse político em resolver o problema."

Hoje, vendedores de coco do Ibirapuera dizem que as cascas de coco coletadas vão para aterros. A BBC Brasil consultou as secretarias paulistanas do Verde e de Serviços, bem como a Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana), em busca de iniciativas de coleta e reciclagem do coco. Nenhuma foi identificada.

Coco sendo vendido em São Paulo
Consumo em cidades e praias é mais disperso, dificultando coleta

A Secretaria do Verde só informou que "os vendedores (do Ibirapuera) coletam e descartam a fruta em caçambas específicas", desde a implementação, em 2011, de uma medida que limita a venda da água de coco a copos e garrafas descartáveis, por motivos de higiene.

'Grande problema'

A experiência paulistana exemplifica as dificuldades em reciclar o coco em ambientes urbanos ou litorâneos.

Muitas indústrias de coco reciclam internamente os resíduos de sua produção, reaproveitando grande parte do material para adubar seu próprio plantio. Mas "o resíduo do coco vira um grande problema (quando chega às) cidades e às praias", explica Fernando Abreu, pesquisador da Empraba em Fortaleza, onde investiga usos para o coco reciclado.

A casca começa a servir para compostagem após cerca de seis meses e, segundo alguns especialistas, pode levar até oito anos para se decompor totalmente. Além de causar cheiro forte, o resíduo torna-se foco de mosquito. Mas como o consumo é disperso e o material é pesado, sua coleta muitas vezes vira uma dor de cabeça para prefeituras.

No Rio, a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) informa que foi criado um grupo de trabalho entre as secretarias municipais para "elaborar a política e operacionalização da destinação de cascas de coco".

Segundo o órgão, garis já utilizam carrinhos ecológicos produzidos de fibra de coco. "O projeto prevê a produção de cerca de 1,5 mil carrinhos para limpeza em 2014."

Gestão

Em Fortaleza (CE), a prefeitura planeja a retomada de um projeto de coleta e reciclagem que começou no final dos anos 1990, mas está parado há cerca de três anos.

Para Albert Gradvohl, coordenador de resíduos sólidos da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos, o mais difícil não é a coleta em si, mas sim a gestão dos projetos de reciclagem.

"Nas praias, o consumo é geralmente próximo a barracas, que se responsabilizam por jogar no lixo em um contêiner só de cocos", diz. "O problema é que a reciclagem tem de ser viável economicamente. Antes, a coisa era muito amadora do ponto de vista de gestão, então parou completamente."

Ainda neste semestre, segundo Gradvohl, o projeto será reiniciado, para produzir briquettes - blocos de material inflamável que podem ser usados por indústrias na geração de energia - a partir da reciclagem de 700 toneladas de coco por mês e da poda de plantas.

"Estamos articulando parcerias com as indústrias, fazendo a manutenção dos equipamentos (da planta de reciclagem já existente) e dando treinamento às cooperativas de coleta", afirma.

São Vicente, no litoral de São Paulo, também tem desde 2011 um projeto de reciclagem em parceria com uma cooperativa de catadores, que fica com a renda obtida com a venda do material reciclado.

"O coco recebido é processado e transformado em fibra e substrato. Todos os dias um caminhão faz a coleta de coco verde em alguns pontos da cidade", diz a prefeitura. "Os cooperados pretendem ampliar essa atividade para a confecção de vasos e plataformas de paisagismo."

Para Francisco Porto, presidente do Sindcoco, o chamado "custo Brasil" é alto e há pouco incentivo no Brasil para produtos reciclados nacionais derivados do coco (como mantas das fibras, que servem para compor estofado de veículos).

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