Tensão Cuba-EUA: o fim está próximo?

  • 13 fevereiro 2014
Vendedor passa em frente a propaganda contra o embargo americano a Cuba (foto: AP)
Para analistas, Obama tem chance de aliviar relações com Cuba até o final de seu mandato

É possível sentir nas ruas de Havana um ceticismo "conformado" quando o assunto é um eventual alívio da tensão com os Estados Unidos.

Embora analistas digam que o momento atual é favorável para que o presidente Barack Obama se aproxime de Cuba, o sentimento de muitos moradores da ilha, como foi constatado por este repórter em uma recente visita, é de descrença.

Um dos sinais mais marcantes desse possível aquecimento nas relações entre os dois países foi o aperto de mãos entre o presidente americano e Raúl Castro durante o funeral de Nelson Mandela, na África do Sul em dezembro de 2013.

Dias depois, o líder cubano sugeriu, em uma rara reunião da Assembleia Nacional de Cuba, que as nações mantenham "relações civilizadas", baseadas no respeito às diferenças.

Na prática, Havana quer dizer que quase tudo é negociável, exceto a mudança do sistema de governo da ilha.

No início de seu mandato em 2009, Obama já havia dado um sinal ainda mais concreto de que abrandaria o embargo imposto a Cuba desde a década de 1960.

Chance de aproximação

Segundo Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais da Unesp, o presidente americano tem agora a oportunidade de concretizar novas medidas de aproximação.

Isso porque ele ainda tem dois anos de mandato e não pode concorrer à reeleição. Assim, em tese, teria condições mais favoráveis para adotar ações que certamente desagradariam o poderoso eleitorado cubano-americano.

Esse ponto é extremamente sensível aos Estados Unidos, uma vez que a questão cubana não está apenas na agenda externa de Washington.

Segundo o professor Tullo Vigevani, especialista do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp, esse eleitorado é particularmente caro a qualquer candidato à Presidência dos Estados Unidos porque, devido ao sistema de votação por colégios eleitorais usado no país, pequenas diferenças numéricas de votos em Estados como a Flórida podem ter forte influência na corrida para a Casa Branca.

Uma grande comunidade cubano-americana - extremante contrária ao regime dos irmãos Castro - está estabelecida no Estado americano da Flórida. E as líderanças cubano-americanas no Estado historicamente têm conseguido mobilizar boa parcela dos eleitores.

Descrença

Para os cubanos nas ruas de Havana uma eventual aproximação dependerá muito mais de uma iniciativa do governo americano do que o cubano e eles veem com ceticismo a possibilidade de Obama fazer grandes mudanças políticas relacionadas ao embargo.

"O Obama faz o que pode, mas não está no controle sozinho, faz o que deixam fazer. Nós estamos abertos ao diálogo, e isso já é uma coisa de anos, mas passam vários presidentes (americanos) e nenhum deles faz nada", disse a bancária cubana Maria Helena Mojina, de 48 anos.

"Sem o embargo isso aqui seria o paraíso", disse.

"Apenas quando eu ver os americanos tomarem alguma atitude é que acreditarei", afirmou a BBC Brasil Ignácio, de 19 anos, que vende de discos piratas no centro velho de Havana.

Mas o embargo não é o único elemento de tensão entre os dois países. Um dos temas mais presentes no dia a dia da população cubana – especialmente devido à propaganda estatal – é a controvérsia sobre a manutenção da prisão de um grupo de espiões cubanos detidos em solo americano em 1998.

É difícil andar pela capital cubana sem se deparar com alguma placa ou panfleto se referindo aos "Cinco de Cuba".

Segundo o governo cubano, os cinco agentes se infiltraram no Estado da Flórida na década de 1990 para investigar grupos de extremistas cubano-americanos que teriam realizado mais de uma centena de atentados em Cuba – entre eles explosões em hotéis, ataques a tiros contra turistas nas praias e até a derrubada de um avião de passageiros.

O governo americano argumenta que os agentes cubanos se infiltraram em uma base militar e estariam ligados a um ataque contra um avião civil de organizações cubano-americanas pela força aérea cubana, que deixou quatro mortos. Eles foram condenados por conspiração para cometer atos de espionagem e assassinato.

Boa parte dos panfletos de Cuba traz as fotos dos detentos ou mensagens a Obama como: "honre seu prêmio Nobel, liberte os cinco de Cuba".

Havana, por sua vez, mantém um prisioneiro americano desde 2009. Ele teria sido preso trabalhando para uma agência de desenvolvimento internacional americana (Usaid) por fornecer equipamentos para conexão de internet via satélite para supostos dissidentes na ilha.

Até agora, um dos cinco sentenciados foi solto pela Justiça americana. A falta de perspectivas para a libertação de três de seus ex-colegas (um deles pode ser solto nos próximos meses) e a experiência no país vizinho também deixam o ex-agente cubano René González com desesperança.

René González (foto: BBC)
Agentes de Cuba que fizeram investigação em base americana estão presos nos EUA

"Eu queria pensar que nesses dois anos que faltam (para o fim do mandato de Obama) ele poderia dar os primeiros passos para uma normalização (da relação entre os dois países)".

"Certamente o limitam bastante, mas há coisas que na prerrogativa do Executivo ele pode fazer, e uma dessas coisas é sentar-se com Cuba". Ele disse à BBC Brasil que não haveria nenhuma lei nos Estados Unidos que impediria o presidente de estabelecer um diálogo de alto nível com Cuba e argumentou que se Washington mantém relações com a China, também deveria fazê-lo com Havana.

"Quando Obama foi eleito, acreditar não seria o termo, mas me deu um pouco de esperança (do fim das tensões entre os países). Agora não tenho certeza se a tenho", disse.

Diáspora

O "clima de aproximação" entre Havana e Washington sugerido por analistas está em parte ligado também às reformas econômicas internas que vêm sendo promovidas pelo regime cubano - entre elas a possibilidade de cubanos possuírem negócios privados e comercializarem imóveis e carros.

Essas mudanças, aliadas à flexibilização das regras americanas que regulam o envio de dinheiro de cubanos residentes no país para suas famílias na ilha, têm injetado dinheiro rápido em Havana e possibilitado o surgimento de restaurantes e lojas privadas - uma mudança considerada nova e fundamental na ilha.

O embargo impede que a diáspora cubana faça investimentos na ilha, mas, na prática, o que vem acontecendo desde a flexibilização de lei sobre o tema em 2009 é que o dinheiro começou a entrar no país – sob pretexto de ajuda financeira de cubanos que vivem no exterior às suas famílias.

Embora dificilmente admitam, os cubanos com "família no exterior" (nos Estados Unidos e na Europa, na maioria dos casos) têm usado essas remessas para começar pequenos negócios, viajar para fora de Cuba ou, em menor escala, até comprar um carro novo.

Perspectivas

Segundo Tullo Vigevani, da Unesp, os cubanos podem ter alguma esperança a longo prazo sobre um eventual fim do embargo. De acordo com ele, o peso dos cubano-americanos contrários ao regime dos Castro tende a perder importância na política interna americana.

"A médio e longo prazo a situação pode vir a se alterar porque o peso dos latinos nos Estados Unidos vem crescendo. A maioria deles têm propensão a apoiar políticas de 'distencionamento' (com Cuba)".

Segundo ele, reforça a tendência o fato de a geração anticastrista da Flórida estar aos poucos desaparecendo.

Além disso, no campo diplomático, a pressão dos países da América Latina sobre Washington em relação ao tema cresce aos poucos.

Na última Cúpula das Américas, em 2012, - evento vinculado à Organização dos Estados Americanos (OEA) que reúne os chefes de Estado do continente - a maioria dos países foi contra a posição dos Estados Unidos e do Canadá de excluir Cuba do evento. O presidente equatoriano Rafael Correa chegou a boicotar o encontro como forma de pressão.

No mês passado, a reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) realizada em Cuba serviu de palanque para uma séria de chefes de Estado - incluindo a presidente Dilma Rousseff - criticarem o embargo. Segundo diplomatas, essa tendência de pressão deve continuar nos foros que reúnem os países da região.