Protestos e intimidação afastam eleitor das urnas na Tailândia

  • 2 fevereiro 2014
Manifestantes bloqueiam acesso a áreas de votação (foto: Getty)
Segundo autoridades eleitorais, 89% dos centros de votação funcionaram normalmente

Uma onda de protestos violentos que já dura meses afastou eleitores das urnas durante a eleição geral deste domingo na Tailândia. Cerca de seis milhões de eleitores teriam sido impedidos de votar por manifestantes.

Segundo a comissão eleitoral, os principais problemas ocorreram em Bangcoc e em regiões no sul do país. Mesmo assim, 89% das estações de votação funcionaram normalmente.

A premiê Yingluck Shinawatra afirmou que ao comparecerem às urnas neste domingo, os eleitores mostraram que querem continuar com o processo democrático.

A oposição, além de não participar do pleito, promoveu ações de protesto e intimidação com o suposto objetivo de boicotar a eleição.

País dividido

O correspondente da BBC na Tailândia, Jonathan Head, afirmou que em geral os manifestantes gozam de situação social mais confortável que os eleitores governistas. Eles seriam contra as políticas do governo destinadas às camadas mais pobres e estariam fazendo campanha contrária a democracia eleitoral

Analistas chegaram a comparar os apoiadores do Comitê Popular de Reforma Democrática da Tailândia ao facismo na Europa.

Segundo Head, a determinação deles em parar essa eleição - que culminou em cenas de centros de votação sendo bloqueados e eleitores atacados – causou um grande dano à imagem do grupo na Tailândia e especialmente no exterior.

O movimento da oposição despertou o apoio da classe média de Bangcoc e obtém simpatia muito além do núcleo do qual surgiu.

"É uma minoria tentando derrubar um governo eleito por uma clara maioria", disse Head. Porém, afirmou, os descontentamentos e medos que se ouve repetidamente no protestos são genuinamente sentidos e amplamente partilhados na Tailândia. Eles não podem ser apenas ignorados.

Em resumo, os manifestantes acreditam que se o partido Pheu Thai, liderado pela irmã de Thaksin Shinawatra, a premiê Yingluck Shinawatra, conseguir vencer as eleições pela sexta vez sucessiva, Thaksin usará esse vigor e a força do governo para que sua família domine a Tailândia por gerações.

O quanto isso é razoável?

"Ele (Thaksin) certamente tem ambições de comandar o país por muito tempo", disse o acadêmico Chris Baker.

"Ele foi muito agressivo em mudar para novas áreas de negócios, com a ajuda do poder do governo. Mas dizer que ele dominaria tudo é um exagero. Seria além da capacidade de um homem dominar a economia tailandesa, que tem um grande número de capitalistas muito maiores que Thaksin".

Outra acusação feita contra Thaksin é que ele seria corrupto em um escala sem precedentes. Muitas alegações são feitas contra ele, e diversos casos são investigados desde que ele foi deposto por um golpe em 2006.

Mas sua única condenação foi por um conflito de interesses relativamente menor – relacionado à uma compra de terras feita por sua mulher em 2002.

Chris Baker disse: "a coisa 'inteligente' que Thaksin fez foi , diferente de figuras anteriores que fizeram dinheiro colocando suas mãos no cofre, usar o poder para aumentar o lucro de suas companhias".

E há outros medos expressos pelos manifestantes. Um deles é que Thksin ameace a monarquia.

A severa lei de lesa-majestade impede a discussão aberta sobre o assunto, mas há temores de que com essa ambição e uma base de suporte de massa no interior do país, Thaksin poderia de alguma forma suplantar a posição elevada mantida por seis décadas pelo rei Bhumibol Adulyadej.

Thaksin sempre assegurou sua lealdade à monarquia.

Divisão rural-urbana

O outro medo dos oposicionistas é que o governo desperdice recursos comprando apoio eleitoral com políticas populistas. Seus oponentes apontam para o esquema conturbado de compra de arroz, pelo qual o governo vem comprando arroz nos últimos dois anos por preços 50% mais altos que os praticados no mercado.

A ação é um desperdício e cara o bastante para motivar alertas do FMI (Fundo Monetário Internacional) sobre um dano potencial à situação fiscal da Tailândia.

Mas são suas políticas partidárias populistas que renderam tão dedicada lealdade entre muitos tailandeses de baixa renda.

Isso não é sempre lealdade a Thaksin. Muitos moradores de sua base eleitoral no nordeste do país disseram estar dispostos a apoiar qualquer candidato disposto a elevar seus padrões de vida.

O partido de Thaksin foi simplesmente o primeiro a fazer isso, o que tem lhe rendido a fidelidade da população até agora.

"Isso é verdade, o Pheu Thai 'domina' a marca de 'campeão do povo'", disse Korn Chatikavanij, político do partido Democrata.

Ele afirmou há alguns meses que seu partido ainda tem que encontrar uma forma de competir, tendo perdido todas as eleições desde 1992. Nessa eleição, a escolha foi o boicote.

Lavagem cerebral

Então a ideia de que manifestantes abastados de Bangcoc estão tentando derrubar o governo que eles elegeram ofende muitos na área rural.

"O que nós queremos ao defender essa eleição é igualdade, igualdade na política", disse Tida Tawornseth, que lidera o movimento governista UDD.

Por outro lado, muitos moradores de Bangcoc dizem temer serem vencido por empregadas, motoristas e fazendeiros, que depois escolheriam – em sua opinião – um governo perdulário, corrupto e de direita.

Sua explicação para as sucessivas vitórias do grupo de Thaksin são supostas fraudes nas eleições, como compra de votos – apesar de não haver evidências concretas dessas ações.

Os opositores também atribuem as derrotas à educação limitada dos eleitores da zona rural.

Segundo Head, oito anos de rivalidade política não resolvida têm fortalecido a desconfiança a incompreensão e o ódio nos dois lados.

A falta de qualquer grupo com estatura suficiente para envolver as duas partes em um compromisso é tão preocupante quando a presença de grupos armados cada vez mais dispostos a confrontar um ao outro, segundo o correspondente.

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