História de amor cruza fronteiras na Síria

  • 1 fevereiro 2014
Homem em Aleppo | Foto: AFP
Jovem esconde apoio à oposição para namorar filha de oficial da inteligência síria

A capital da Síria, Damasco, é uma cidade dividida, com algumas partes sob o controle das forças do governo e outras áreas dominadas pelos rebeldes. Mas o que acontece quando o amor cruza estas fronteiras?

Um trabalhador que conheci na capital era como a maioria dos jovens sírios de hoje - endurecido, sarcástico e aparentando mais idade do que tem.

Nos encontramos em uma rua movimentada no centro de Damasco - dos cafés era possível ouvir o barulho do bombardeio atingindo os subúrbios controlados pelos rebeldes.

Ele é de uma das cidades sob ataque e sua família ainda está presa lá. E ele me explicou, sem muita emoção, quão difícil é enviar suprimentos pelos pontos de controle que circundam o local.

Enquanto conversávamos, ele olhava constantemente para as pessoas ao nosso redor sob seus cílios grossos. Estávamos em uma área controlada pelo governo, cheia de consumidores bem vestidos e guardas de trânsito.

Não estávamos fazendo nada de errado, mas a vida sob a vigilância do temível serviço de inteligência militar sírio - o Mukhabarat - deixa sua marca nas pessoas. Ele me pediu para não usar seu nome real - eu o chamarei de Abu Anas.

Em determinado momento, ele começou a procurar uma foto em seu telefone para me mostrar. Quando pessoas das áreas da oposição mostram o telefone delas a você, é preciso se preparar para ver imagens chocantes de pessoas feridas em bombardeios aéreos do governo.

Mas Abu Anas tinha algo diferente para mostrar - uma jovem de olhos apaixonados em uma camiseta brilhante e calças jeans justas.

'Amo uma garota do regime'

Acontece que este filho dos subúrbios rebeldes tinha se apaixonado. Infelizmente para ele, era pela filha de um alto oficial da inteligência.

"Estou péssimo", suspirou ele, parecendo de repente mais próximo de sua idade real. "Eu odeio o regime, mas amo uma filha do regime."

Ele a conheceu por acaso antes do início do levante popular contra o governo de Bashar Al-Assad, e fala com ela ao telefone quase todos os dias desde então, em meio aos protestos e às bombas.

Como muitas pessoas em sua cidade natal, Abu Anas apoiou as manifestações quando elas começaram, mas isso não o impediu de continuar procurando a filha do oficial do Mukhabarat.

"Eu fiz uma distinção clara entre meu relacionamento com ela e meu relacionamento com o governo", explicou.

Nenhum dos seus amigos em redutos rebeldes locais sabe sobre sua namorada - se souberem, podem suspeitar que ele seja um informante.

O pai da jovem ficou furioso quando descobriu o namoro, mas ainda não sabe que o trabalhador que roubou o coração de sua filha tem laços com a rebelião.

"Eu mantenho em segredo o lado que apoio", ele diz, gabando-se da sua própria audácia de navegar entre os dois mundos.

Não são apenas os amantes proibidos que levam vidas duplas na Damasco de hoje. Uma rede de pontos de controle separa o centro da cidade - quase completamente preservado - dos subúrbios rebeldes bombardeados.

Centro de Damasco | Foto: Getty
Centro de Damasco permanece preservado, apesar de bombardeios

Mas isso não significa que todos de um lado apoiam o governo e do outro, a oposição. À medida em que a guerra continua, muitos se convencem de que vale a pena ser flexível.

Informantes

As áreas sob o controle rebelde estão cheias de informantes pagos, que passam informação para o governo. Na fronteira sul da cidade, um combatente leal ao regime me disse que o governo sabia os nome de todos os que pegaram em armas do outro lado.

"Eles sabem exatamente quem está e quem não está envolvido - temos informantes na comunidade deles como eles têm na nossa", afirmou.

Abu Anas me disse que os soldados e milicianos de olhar preocupado que ficam nos pontos de controle do governo também podem ser subornados. No entanto, eles impõem um cerco muito duro em alguns lugare, que causa fome aguda nos moradores.

Em outros, segundo o jovem, eles ficaram ricos aceitando dinheiro de contrabandistas.

"Alguns oficiais só tinham dinheiro para a comida. Agora eles têm carros, estão se casando, estão progredindo na vida", diz Abu Anas.

Um tom de inveja está na sua voz enquanto ele fala. Neste momento, ele está mais interessado em seguir com a vida do que com a revolução - diz sentir-se completamente desiludido com ela.

Ele saiu dos subúrbios antes que o cerco piorasse e está tentando ganhar a vida no centro da cidade.

Ele também tentou esquecer a garota, porque não conseguia ver como eles poderiam se casar algum dia. Mas quando tentou romper a relação, ele descobriu que não conseguia.

Um caso de amor proibido entre duas pessoas de lados opostos no confronto não dá esperança para a Síria - o conflito aqui parece pior do que nunca. Mas para Abu Anas, isso parece oferecer alguma esperança, em uma vida que se tornou dura e sombria.

"Não é todo dia que você encontra alguém que o adora tanto. É uma história maravilhosa, mas é cheia de conflito", diz ele.

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