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Governo chinês banca estrela pop em busca de soft power com hit internacional

Atualizado em  4 de fevereiro, 2014 - 10:03 (Brasília) 12:03 GMT

Projeção de Ruhan Jia faz parte de estratégia para aumentar apelo cultural da China no mundo

O presidente chinês Xi Jinping está determinado a usar soft power para promover seu país no exterior - e aposta na música pop para conquistar o coração do mundo.

Quem leva nos ombros as esperanças de sucesso da China nessa empreitada é a cantora Ruhan Jia, de 31 anos. A pergunta é: será que a máquina do Partido Comunista chinês vai ser capaz de criar uma estrela do pop internacional?

"Vou tirar os sapatos hoje à noite", diz Ruhan no camarim, antes de um concerto em Xangai. "Assim me sinto mais selvagem, posso pular pelo palco".

Sentir-se "selvagem" não é algo muito natural para a cantora, que tem formação erudita.

Ela não bebe, não fuma nem frequenta casas noturnas. Sua vida é dominada por um único objetivo: tornar-se uma estrela internacional. E nessa missão, ela tem o suporte do Estado chinês.

Mas sucesso no Ocidente significa aprender comportamentos e atitudes diferentes - arrancar os sapatos no meio do show, por exemplo, já é um começo.

Em 2011, Ruhan tornou-se a primeira artista a ser contratada pelo Earth's Music, uma iniciativa apoiada pelo governo chinês com o objetivo de gerar artistas chineses capazes de competir no disputado mercado internacional de música.

Isso é parte de uma estratégia para aumentar o apelo cultural da China no mundo, um projeto considerado tão importante que, segundo relatos, teria sido incluído no atual Plano Econômico de Cinco Anos do país.

O plano se apoia no conceito de soft power, ou seja, a adoção, por um país, de uma abordagem persuasiva em relações internacionais, envolvendo influências econômica ou (como nesse caso) culturais.

Ruhan Jie - 'Time to Grow'

Ouça música de Ruha Jie, 'Time to Grow'.

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Formatos alternativos

"Temos uma economia forte, mas você só começa a ser visto como uma superpotência quando é forte culturalmente", explica Bill Zang, vice-presidente da gravadora de Ruhan, Synergy.

Aprendendo rebeldia

Educada no Conservatório de Música de Xangai, um dos mais prestigiosos da China, a soprano Ruhan já participou de vários projetos de projeção, entre eles, a ópera do pop star britânico Damon Albarn, Monkey: Journey to the West, encenada na Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha.

"Minha infância foi tocar meu piano", ela diz. "Todo dia depois da escola eu praticava quatro horas".

Hoje, no entanto, ela precisa reaprender. Tem de transformar sua voz de cantora lírica em algo menos refinado, mais solto.

No concerto dessa noite, ela canta com o grupo de rock americano Edisun. E cumpre sua promessa. No meio de um dueto, de maneira aparentemente casual, ela se livra dos sapatos.

A gravadora Synergy acha que a chave para a entrada da China no mercado global de música está em uma fusão entre o Oriente e o Ocidente. Por isso Ruhan está fazendo essa parceria com o Edisun. As canções de Ruhan mesclam elementos de música chinesa com pop ocidental.

Mas até agora, bandas como Yeah Yeah Yeahs e Metallica vêm fazendo muito mais sucesso no gigantesco mercado chinês do que os artistas chineses tentando trilhar o caminho inverso.

"Entre 1930 e 2013, me lembro de apenas duas canções (chinesas) que conseguiram cruzar a fronteiro do Ocidente", diz David Liang, produtor musical e fundador do grupo chinês de música eletrônica Shanghai Restoration Project.

Liang cita a canção Rose I Love You, de Frankie Laine, que é uma versão de uma canção popular chinesa da década de 1940. A outra, ele diz, é "uma composição de 1952, Dança do Povo Yao, muito parecida com a que Mariah Carey e Whitney Houston cantam em The Prince of Egypt".

'Ensolarada'

Até agora, o sucesso de Ruhan tem sido modesto. Ela tem 500 mil seguidores no Weibo, o equivalente chinês ao Twitter. Mas as vendas do seu primeiro disco, Time do Grow - uma mistura de baladas, pop e música folclórica chinesa - não foram tão fortes como se esperava.

Na sede da Synergy - cujos corredores estão repletos de imensos pôsteres promovendo o mais recente álbum de Ruhan - a cantora trabalha duro, amparada por uma equipe, para aumentar seu impacto.

Conquista pelo Charme - A Estratégia de Xi Jinping

O presidente Xi Jinping prometeu promover o soft power cultural da China por meio da disseminação de valores modernos da China e também mostrando ao mundo o charme da cultura chinesa.

"A China deve ser apresentada como um país civilizado e dono de uma história rica, unidade étnica e diversidade cultural, e como um poder oriental com um bom governo, economia desenvolvida, prosperidade cultural, unidade nacional, lindas montanhas e rios", disse Xi.

"A China também deve ser identificada como um país responsável, que advoga o desenvolvimento pacífico e comum (a todos), respeita a Justiça internacional e faz contribuições para a humanidade, e como um país socialista que é aberto, amigável, promissor e vibrante".

Fonte: Xinhua, agência estatal de notícias da China (1º de Janeiro de 2014)

Ela é a única artista com contrato exclusivo com a gravadora. Seu estúdio de ensaios - pago pelo governo chinês - é imenso.

Aqui, ela compõe canções, escreve letras, trabalha sua presença de palco e pratica técnicas vocais - tentando incorporar estilos que, até hoje, eram completamente desconhecidos para ela.

Cada mês, a equipe da Synergy traz novos CDs para a cantora ouvir. Ruhan chama isso de sua "educação musical".

"É difícil para ela", explica o empresário da cantora, Jean Wernheim. "Eu tenho de dizer a ela para ouvir mais rock, mais hip hop e R&B. E ela me diz que quando era criança não tinha permissão de ouvir esse tipo de música".

Num espaço de dez minutos, ela apresenta uma seleção de canções incluídas em sua pasta de repertório. Elvis, Queen, Christina Aguilera e Kesha. No topo de cada página com as letras das músicas, Ruhan desenhou gráficos e fez anotações sobre o que ela deve sentir.

"Música ocidental é como um homem muito forte. Cheio energia, corajoso e selvagem", ela diz. "E a música chinesa é como uma mulher vestindo Chanel, muito graciosa. Com Michael Jackson eu aprendo sobre a batida. É muito poderosa. Já (a pop star americana) Kesha me ensina a ser mais selvagem".

Cantora acredita que corresponde à imagem 'ensolarada' que governo chinês quer projetar

E por que o governo chinês escolheu Ruhan? Ela diz que talvez seja porque ela tem uma imagem que se encaixa na imagem que o governo chinês quer projetar, uma imagem "que deve ser ensolarada".

A questão da imagem deve ter sido central ao processo de seleção, diz Andrew Field, reitor associado da Hult International Business School.

"As mensagens que os grandes pop stars americanos tendem a disseminar têm a ver com liberdade, rebelião e o direito de ser quem você quiser ser - essas são precisamente as mensagens que o governo chinês não quer transmitir, nem para o povo chinês, nem para o mundo".

Pelo contrário, prossegue o reitor. A prioridade do governo chinês é projetar a imagem que a China tem de si mesma, de um "país benevolente".

Ruhan não é a única musicista chinesa tentando fazer sucesso no exterior. Em 2007, a banda indie Carsick Cars saiu em turnê pela Europa com o grupo de rock americano Sonic Youth. Eles tinham shows programados com o Sonic Youth na China, mas o governo colocou fim ao plano.

"Até hoje não sabemos por que", diz o cantor do grupo, Shou Wang, de 26 anos.

Carsick Cars está se saindo bem sem o apoio do governo e Wang é cético em relação à ideia de popstars criados pelo Estado.

"Se você é financiado pelo Estado, fica amarrado, não é livre para escrever canções contra eles", diz o cantor.

"Os artistas que o governo está promovendo - o povo da China nem ouviu falar deles".

Ruhan não se incomoda com esse tipo de crítica.

"Não penso muito nisso", ela diz. "Meu único desejo, enquanto cantora, é encontrar uma empresa que promova minha música. Então se a minha gravadora diz que quer produzir álbuns, e se o governo chinês diz que gosta disso, por que não?" - ela pergunta.

No último dia da minha estada na China, passo no escritório da Synergy para me despedir e encontro Ruhan conversando com três homens engravatados.

"O que eles queriam?", eu pergunto. Ruhan diz que eram oficiais do governo. "Disseram que gostam do meu estilo e da minha voz", ela conta. "E eu digo apenas obrigado, espero que gostem da minha música".

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