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'Vivo um personagem e quero esquecer quando voltar ao Brasil', diz garoto de programa

Atualizado em  29 de janeiro, 2014 - 06:47 (Brasília) 08:47 GMT
homem musculoso

Apesar de crise, indústria do sexo londrina ainda é muito lucrativa

O estigma em torno da prostituição masculina e o temor de serem descobertos por família e amigos no Brasil são alguns dos fatores que dificultam a apuração de dados sobre a presença de garotos de programa brasileiros na Grã-Bretanha.

Apesar de não haver dados oficiais, uma pesquisa divulgada em dezembro pela British HIV Association (BHIVA) aponta que 39% dos trabalhadores do sexo na Inglaterra são sul-americanos. Deste total, 97% são brasileiros.

São homens que querem ganhar dinheiro com a indústria do sexo, que apesar da crise econômica na Grã-Bretanha, continua muito lucrativa. As leis britânicas não classificam como ilegal a prostituição, punindo apenas quem solicita e paga por sexo ou aqueles que exploram comercialmente a atividade sexual de outras pessoas.

Agentes de saúde sexual ouvidos pela BBC Brasil confirmaram que os brasileiros formam a maior parte de seus pacientes.

Clique Leia mais: Brasileiros 'dominam' prostituição masculina em Londres

Eles são na maioria jovens, com idades entre 25 e 35 anos, e usam o dinheiro dos programas para ajudar a família no Brasil, pagar os estudos ou complementar a renda que ganham com outros empregos.

Muitos trabalham na atividade temporariamente, enquanto outros querem se estabelecer no país porque apreciam a abertura de Londres "ao estilo de vida gay", como avalia Gregory King, enfermeiro-chefe do Working Men project, clínica de saúde sexual do sistema de saúde público britânico (NHS).

Mas, segundo ele, independentemente das intenções e do tempo em que atuam na indústria do sexo, parece ser consenso o fato de que estes brasileiros, em diferentes proporções, sofrem com o estigma e querem preservar o anonimato.

A BBC Brasil conversou com brasileiros que fazem programa em Londres. Apesar de concordar em conceder a entrevista, eles não quiseram enviar fotos ou gravar matérias de vídeo.

No depoimento em primeira pessoa abaixo, o carioca Augusto (nome fictício) conta por que trabalha com prostituição, como lida com o dilema emocional e o quer para o futuro.

"Eu vivo um personagem quando estou trabalhando. Não dou verdade ao que faço e quando voltar para o Brasil quero esquecer.

Eu vim para Londres porque estava muito decepcionado com minha vida profissional no Brasil. Tenho 25 anos, sou formado em administração de empresas e nunca consegui um emprego na área. No meu último estágio ganhava R$ 400 por mês e depois que me formei fui mandado embora.

Consegui um visto de estudante há três meses e vim morar com um amigo, também brasileiro. Ele é professor de educação física, já fazia programa e me explicou como eu também poderia ganhar um bom dinheiro com isso.

Mas eu não queria só fazer programa. Então também consegui emprego em um bar, onde trabalho das 23h às 2h. A rotina é puxada. Às vezes eu saio do bar, vou atender os clientes e no dia seguinte tenho aula de inglês.

Fico muito cansado, mas fazer o que? Não estou em Londres para descansar, estou aqui para ganhar dinheiro. Meu objetivo é juntar uma grana para voltar para o Brasil no final do ano e abrir um negócio. Uma granja, no interior do Rio. (Ele não revela quanto pretende guardar).

Só o trabalho no bar me sustentaria. O salário varia por causa da gorjetas, mas em média tiro 1,5 mil libras por mês. Mas quero mais.

Cobro £200 por hora e posso fazer um desconto de £50 se o cliente quiser mais tempo. Eu prefiro os programas que duram mais, para que não sejam uma coisa tão mecânica, só sexo e dinheiro.

E os clientes gostam disso, dizem que não faço o tipo garoto de programa tradicional, que está ali só para fazer sexo, ganhar dinheiro e ir embora. E acabam me procurando de novo.

Já fiz £3 mil em um final de semana e quando é assim fico sem trabalhar uma semana ou mais.

Eu prefiro os clientes estrangeiros, que estão em Londres a passeio ou a trabalho. E evito os ingleses porque eles geralmente são muito pesados, querem usar drogas. Eu não uso, mas às vezes finjo que estou sob efeito de alguma coisa.

Também não gosto dos que oferecem mais para não usar camisinha. Essa clientela não me interessa.

Eu sou bissexual, mas prefiro atender os homens. Aliás, eles são a maior parte dos clientes. Todas as mulheres que me chamaram estavam com homens porque são eles que têm o dinheiro.

Eu sempre vou até os clientes, em hotéis, na maior parte das vezes. E eles adoram os brasileiros, o nosso jeito de ser. Acham a gente sexy.

Às vezes é dificil lidar com o dilema emocional. Já tive que usar viagra quando não estava com vontade e algumas vezes não consegui ter ereção.

Mas vejo tudo isso como uma fase. Sou uma outra pessoa aqui e minha família e amigos no Brasil nem imaginam que faço programa. Por isso tomo muito cuidado para não ser identificado nos sites em que coloco meus anúncios.

Sou de uma família de classe média, estudei em escola particular e tive uma educação muito tradicional.

Mas estou muito focado no meu objetivo, que é recuperar o tempo perdido no Brasil e ganhar dinheiro. Para isso, faço o que for preciso."

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