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Síria é acusada de tortura e de mais de 10 mil execuções

Atualizado em  21 de janeiro, 2014 - 17:46 (Brasília) 19:46 GMT
Tortura na Síria. Foto: BBC

Relatório fala em 11 mil mortos na Síria, mas governo se diz "surpreso"

Um relatório divulgado nesta terça-feira concluiu que há sinais claros de que a Síria torturou e matou cerca de 11 mil presos em centros de detenção. O documento foi preparado por três ex-promotores de crimes de guerra, que analisaram milhares de fotos de corpos dos prisioneiros, que teriam sido contrabandeadas por um desertor.

De acordo com o relatório, que foi supervisionado pelo governo do Catar, as evidências envolvem "agentes do governo da Síria".

Damasco negou as acusações de abuso. Um porta-voz do governo da presidência, Bassam Abu Abdullah, disse à BBC que as fotos eram um instrumento político para pressionar Bashar Al-Assad e que os reais criminosos são os que estão patrocinando os rebeldes, como o governo do Catar.

O relatório vem à tona um dia antes do início de uma esperada conferência de paz para a Síria, que acontecerá na Suíça com a presença de representantes de mais de 30 países e organizações como a ONU e a Liga Árabe, além da oposição síria e do governo Assad.

As negociações, chamadas de Genebra-2, vêm sendo consideradas o maior esforço diplomático já realizado para colocar um fim aos três anos de conflito, que deixaram mais de 100 mil mortos e obrigaram milhões de pessoas a fugirem de suas casas.

O Brasil foi convidado a participar das negociações. O Ministério das Relações Exteriores informou, no entanto, que o chanceler Luiz Alberto Figueiredo não irá a Genebra. Ele ficará em Brasília para preparar a viagem da presidente Dilma Rousseff a Davos, para o Fórum Econômico Mundial. No seu lugar, irá o secretário-geral do Itamaraty, Eduardo dos Santos.

'Fome significativa'

Ainda nesta terça-feira, a ONG Human Rights Watch acusou a Rússia e a China de permitirem as atrocidades na Síria ao bloquearem na ONU uma ação contra o país. A organização também acusou o governo e as forças de oposição de abusos de direitos humanos, incluindo tortura e execuções.

Genebra 2, diz o relatório, "não pode se tornar a última desculpa para não lançar uma ação para proteger os civis sírios."

Rebelde sírio. Foto: AFP

Rússia e EUA tentam reunir os dois lados do conflito no maior esforço diplomático até agora

O relatório foi encomendado pelo Catar, que apoia os rebeldes sírios e grupos de oposição. O documento se baseia em provas produzidas por um ex-fotógrafo da polícia, identificado apenas como Caesar, que ao desertar teria contrabandeado cerca de 55 mil imagens digitais de pelo menos 11 mil presos mortos para fora do país.

Ele disse que seu trabalho era fotografar os corpos, para permitir que fossem produzidas as certidões de óbito e para confirmar que as ordens de execução haviam sido cumpridas.

"Poderia haver até 50 corpos por dia para fotografar, o que requeria de 15 a 30 minutos de trabalho por corpo", teria dito o fotógrafo, citado no relatório.

No entanto, Caesar não afirmou ter testemunhado as mortes ou tortura, o que os investigadores afirmam que deu peso a seu testemunho.

As fotografias cobrem o período desde o início do conflito em 2011 até agosto de 2012.

Todos os corpos mostrados, com exceção de um, são de homens. Os investigadores dizem que a maioria deles estava macilento; muitos haviam sido espancados ou estrangulados. Alguns não tinham olhos e outros mostravam sinais de eletrocução.

Um dos autores do relatório, o professor Geoffrey Nice, disse à BBC que a escala e consistência das mortes oferece evidências fortes de envolvimento do governo, podendo dar suporte a um processo criminal.

Menino sírio. Foto: AP

Governo sírio questiona veracidade do relatório, financiado pelo Catar

O patologista forense Stuart Hamilton disse que nas imagens que viu, um grande número de detentos mostravam "sinais de fome significativa".

Segundo Hamilton, muitos dos corpos pareciam ter sido amarrados ou atados de alguma maneira.

O relatório afirma que as imagens são "provas claras" de "tortura sistêmica e morte de pessoas detidas por agentes do governo sírio".

No entanto, o porta-voz do Ministério da Informação sírio, Bassam Abu Abdullah, questionou o relatório, dizendo à BBC que não está claro de onde veio a informação ou se as fotos eram "de dentro da Síria ou de fora da Síria".

Ele disse estar "surpreso" com o número de 11 mil vítimas, dizendo que antes do relatório este dado ainda não tinha sido levantado.

"Eu duvido deste relatório. Precisamos conferir estas fotos. Quem são estas pessoas? Quais são seus nomes? De que prisões elas vieram? Quem é esta pessoa que tem autoridade para ter estas fotos?", disse Abdullah.

Ele afirmou ainda que os tribunais internacionais devem levar seus questionamentos para o Catar.

"Se o Catar financiou este relatório, não há credibilidade, porque o Catar é um dos Estados que financia o terrorismo internacional e que enviou matadores para a Síria. Temos matadores profissionais dentro da Síria do mundo todo. Estamos nos defendendo."

Ameaça de boicote

Bashar al-Assad. Foto: Reuters

O Irã, principal aliado de Assad, foi "desconvidado" de Genebra 2

Na segunda-feira, o secretário-geral da ONU retirou um convite ao Irã - um dos principais aliados do presidente Bashar Al-Assad - após sua recusa em apoiar o plano de promover um governo transitório ao país árabe, elaborado em uma reunião em 2012.

O convite ao Irã enfureceu os Estados Unidos e a Coalizão ameaçou não comparecer caso o país não fosse "desconvidado".

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Javad Zarif, disse que Teerã lamentava que o convite tenha sido desfeito "sob pressão" e o ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov disse que não convidar o país é "um erro".

A conferência é a culminação de meses de diplomacia. Em maio do ano passado, a Rússia e os Estados Unidos concordaram em tentar reunir os dois lados do conflito.

O Itamaraty divulgou nota sobre a posição brasileira, dizendo que "o Brasil, convicto de que não há solução militar ao conflito sírio, acredita que Genebra-2 pode constituir oportunidade valiosa para que o governo da Síria e representantes da oposição possam iniciar um diálogo necessário e construtivo e está pronto para colaborar para o êxito do evento e das negociações".

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