BBC navigation

A dias de diálogo de paz, Síria traz sinais de conciliação

Atualizado em  18 de janeiro, 2014 - 21:19 (Brasília) 23:19 GMT
Barzeh, durante bombardeiros em setembro (AP)

Barzeh, palco de conflito armado, vive agora uma trégua entre tropas do governo e oposição

O bairro de Barzeh, no norte de Damasco, tem sido palco de conflitos armados há mais de 15 meses.

Assim como outras partes da Síria, protestos pacíficos foram substituídos por enfrentamentos, com forte repressão das tropas estatais.

Mas há algo especial em Barzeh. Em uma parte da cidade, no vale de Barzeh al-Balad, a maioria de seus habitantes são muçulmanos sunitas; na parte mais pobre, estão os alauítas, fiéis ao presidente sírio Bashar al-Assad.

As tropas do governo lançavam ataques de foguete sobre Barzeh e em outras partes de Ghouta, um cinturão agrícola ao redor de Damasco.

O vale foi o alvo principal dos disparos, bem como de sequestros e chacinas cometidos por paramilitares, conhecidos como Exército de Defesa Nacional, composto majoritariamente pela minoria alauíta.

Mas atualmente vigora uma trégua em Barzeh. O governo fez um acordo com a oposição local, representada pelo Exército Livre da Síria - que prometeu devolver armas pesadas e tanques que havia capturado do governo, em troca de se tornar uma polícia civil para patrulhar o bairro.

Famílias que haviam deixado a região puderam voltar, e o governo prometeu libertar detentos.

Nos pontos de checagem de Barzeh, soldados de ambos os lados comem juntos.

Os dois lados que combateram entre si agora tentam chegar a um meio-termo. E Barzeh tem importância estratégica, por estar no caminho que leva a Latakia, onde o governo está fazendo a entrega de seus armamentos químicos (conforme acordo estabelecido com a comunidade internacional).

Mensagem

A trégua em Barzeh tem significado simbólico, dias antes da conferência em Genebra que pretende discutir a criação de um governo transitório para pôr fim à guerra na Síria. Barzeh é uma mensagem, enviada pelo regime sírio, de que é capaz de reconciliação sem a interferência internacional.

O regime também tenta prevenir o envio de tropas da ONU à Síria.

Ao mesmo tempo, o governo Assad vê a reunião em Genebra como um encontro "contra o terrorismo" - termo usado para descrever a oposição armada -, insistindo que não tem planos de abandonar o poder.

Neste sábado, mais um elemento se soma à equação: a Coalizão Nacional Síria, principal grupo político de oposição, concordou em participar do encontro na Suíça, decisão que foi elogiada pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

Ao mesmo tempo, em outro aparente gesto de boa vontade, o governo sírio também permitiu neste sábado, pela primeira vez em meses, a entrega de ajuda humanitária ao campo de refugiados palestinos de Yarmouk, sul de Damasco.

Estima-se que mais de 50 civis, incluindo crianças, tenham morrido de fome em Yarmouk durante o período em que o acesso ao campo foi negado - em uma política de "deixar as pessoas passarem fome para obter sua submissão", acusam ativistas antigoverno.

Conflitos duradouros

Mas, apesar dos sinais de trégua, tragédias continuam ocorrendo pelo país. Em Muadhamiya, subúrbio do oeste, passou por situação semelhante à de Yarmouk, e a oposição armada teve de se render para pôr fim ao bloqueio.

E, em nova mostra de que o governo não busca a transição, membros do regime teriam dito que Assad tem o direito de concorrer a eleições ainda neste ano, ao fim de seu mandato.

"Assad está se tornando um agente (de negociação) importante, após o acordo (de entrega) de armas químicas", disse um analista próximo ao regime. "Ele é o único capaz de concluir tão missão, então por que deveria fazer qualquer tipo de concessão?"

E seu grupo paramilitar, o Exército de Defesa Nacional, não parece ter nenhum interesse em diálogos de paz. As tropas se tornaram um poder paralelo, que governa distrito por distrito.

Os paramilitares são acusados de crimes como sequestros de empresários em áreas controladas pelo governo, para obter o dinheiro do resgate. Para eles, a ampliação da guerra síria, que já dura três anos, traz vantagens econômicas.

Poderes em jogo

Para quem vê de fora, o regime parece ser a única entidade sólida. No entanto, há diferentes poderes em jogo na Síria.

Há disputas de poder internacionais, envolvendo o grupo xiita libanês Hezbollah, a Guarda Revolucionária do Irã e milícias xiitas iraquianas. Mas o que realmente dá força ao regime são seus aliados: o Irã e a Rússia, que apoiam Assad desde o início do conflito.

E, enquanto grupos rebeldes estão presos a um combate com jihadistas ligados à Al-Qaeda no norte, o governo reprime ativistas pacíficos em Damasco.

A campanha repressiva continua, alvejando membros da oposição "tolerada" e membros da Al-Shabab Al-Souri Al-Thaer - um grupo que reúne cristãos, alauítas e drusos e que defende o ativismo pacífico em meio à ascensão de uma oposição islâmica.

Quase todos estão sendo enviados à Corte Antiterrorismo (criada em 2012) - outro sinal de que o governo não pretende fazer concessões.

Mas, para os civis presos em meio ao conflito, o único desejo é o fim do sofrimento.

O que começou como um grito por liberdade é, hoje, um grito por sobrevivência.

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.