Avançando para o norte, ataques chocam população na Rússia

  • 30 dezembro 2013
Russas choram e depositam flores em frente à estação de trem de Volgogrado (AP)
Russas choram e depositam flores em frente à estação de trem de Volgogrado

A aparente mudança na estratégia de grupos extremistas que atuam na Rússia representa um choque para a população do país, com muitos russos agora se perguntando como as agências de segurança do país não foram capazes de impedir os autores das recentes explosões em Volgogrado.

O analista Artyom Lyss, do serviço russo da BBC, lembra que, apesar de garantias dadas pelas autoridades de que a tensão na região do Cáucaso estava sob controle, tanto os confrontos entre tropas do governo e militantes da região continuaram acontecendo como também atentados atribuídos a eles.

Mas o mais assustador, segundo Lyss, é que agora esses ataques parecem estar migrando mais para o norte, na região central da Rússia, onde fica Volgogrado.

A cidade, chamada antigamente de Stalingrado, é um centro da indústria e de transportes, além de ter um grande significado simbólico para os russos – tendo sido palco de uma famosa batalha em 1942 e 1943, na qual os soviéticos resistiram ao avanço nazista em seu território.

Para piorar, o momento em que os atentados em Volgogrado ocorreram, a pouco mais de um mês da Olimpíada de Inverno em Sochi, colaborou para ampliar a insegurança da população e do mundo, prestes a enviar seus atletas para a cidade no sul do Rússia.

"Muitos agora estão se perguntando porque os poderosos serviços de segurança não puderam impedir os ataques dos extremistas, acusando esses serviços de complacência e falta de profissionalismo", diz Lyss.

Comitê olímpico

Investigadores dizem que pelo menos 14 pessoas morreram no atentado em um trólebus em Volgogrado nesta segunda-feira. No dia anterior, outro atentado, na estação central de trens da cidade, matou 17 pessoas.

Volgogrado fica a cerca de 700 km a noroeste de Sochi. Em um país de dimensões continentais como a Rússia, a distância poderia ser considerada pequena.

Nenhum grupo admitiu a autoria dos ataques, mas eles ocorreram meses depois de o líder rebelde checheno Doku Umarov, que luta para estabelecer um califado no Cáucaso, ter prometido novos ataques contra civis na Rússia, incluindo durante a Olimpíada.

Lyss acredita que, apesar do risco de ataques em Sochi durante o evento existir, ele pode não ser tão grande quanto muitos acreditam.

"Há centenas de oficiais da polícia e militares destacados na área. Mas o temor é que os extremistas possam atacar em outros lugares", disse.

O presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, disse que está confiante de que as autoridades russas vão realizar jogos "seguros e sem problemas" em Sochi.

Explosivos idênticos

Vladimir Markin, porta-voz do Comitê de Investigação – o principal órgão federal de investigação da Rússia – disse que explosivos idênticos foram usados nos dos ataques em Volgogrado.

"Isso confirma a tese de que os dois ataques estão ligados. É possível que os dois (explosivos) tenham sido preparados no mesmo lugar."

O comitê também confirmou que coletou material genético do responsável pelo ataque, o que pode indicar a origem dele.

Insurgentes separatistas vindos da região do Cáucaso passaram a realizar ataques em vários pontos da Rússia a partir da segunda Guerra da Chechênia (uma república da Federação Russa no Cáucaso), iniciada em 1999, quando o atual presidente Russo, Vladimir Putin, assumiu seu segundo mandato.

Um dos mais conhecidos foi o ataque ao ataque Dubrovka, em Moscou, em 2002. Na ocasião, dezenas de chechenos tomaram o teatro exigindo o fim do envolvimento militar russo na Chechênia.

O incidente levou as forças de segurança russas a lançarem gás no sistema de ventilação do teatro, matando cerca de 170 pessoas – a maioria delas reféns dos militantes.

O envolvimento russo na política chechena levou na última década a uma progressiva pacificação da república, mas incidentes violentos envolvendo militantes islâmicos continuaram a ser registrados fora da república, especialmente em repúblicas vizinhas como o Dagestão e a Inguchétia.

Doku Umarov é o autoproclamado líder de um Emirado não reconhecido internacionalmente envolvendo as várias repúblicas da Federação Russa no norte do Cáucaso.