Os cinco desafios de Obama para 2014

  • 30 dezembro 2013
Barack Obama. Getty
Tensão entre Japão e China pode ser novo desafio externo para Obama

Após um ano difícil em 2013, o presidente Barack Obama entra em 2014 com uma agenda ainda incompleta do legado que pretende deixar ao fim de dois mandatos.

Por um lado, a sua lei da saúde – até agora a principal "marca" de Obama em cinco anos de governo – enfrenta dificuldades, adiamentos e atrasos na implementação. A legislação, assinada em 2010, foi planejada para entrar em vigor totalmente em 1º de janeiro de 2014.

Já a reforma das leis de imigração, que Obama tinha a intenção de sancionar em 2013 como outro forte legado, estancou na Câmara dos Deputados, apesar da aprovação de um projeto abrangente aprovado no Senado.

O ano de 2014 também cobrará de Obama respostas às denúncias de espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA, sigla em inglês) feitas pelo ex-colaborador da agência, Edward Snowden.

A Casa Branca está sob pressão tanto de uma opinião pública preocupada com questões de privacidade quanto de países aliados irritados com o alcance do monitoramento de seus líderes.

Por outro lado, o presidente governará em um ambiente de palpável melhoria econômica – com desemprego em queda, um crescimento estimado pelo FMI em 2,6% (do FMI para 2014) e o Banco Central americano iniciando a retirada dos estímulos monetários da economia.

Um dos fatores de instabilidade na equação econômica foi afastado por um acordo no Congresso: a possibilidade de um novo fechamento parcial do governo no ano que vem.

Durante a paralisação federal de outubro, ocasionada por falta de acordo entre os partidos Democrata e Republicano acerca do orçamento do país, políticos de todos os lados, entre eles Obama, viram despencar seus índices de popularidade.

Com eleições legislativas marcadas para novembro, nenhum dos dois partidos quer se expor a uma renovada insatisfação popular.

Se as eleições proporcionam um alívio temporário para Obama trabalhar no seu legado, também marcarão a metade do seu segundo mandato – mais perto do ponto em que os analistas começarão a questionar o valor histórico da marca que ele imprimiu, ou deixou de imprimir, no governo.

Veja a seguir algumas das áreas em que Obama deve concentrar seus esforços em 2014.

1. Recuperação econômica

Economia dos EUA. Reuters
Economia se recupera, mas situação ainda é complexa; Obama busca autossificiência energética

Esta será possivelmente uma das áreas que Obama mais reforçará. O líder que assumiu em janeiro de 2009, no auge da crise financeira, deixa um país em situação melhor.

O desemprego, que superou os 10% durante a crise, está situado em 7%. O crescimento projetado para 2014 é de 2,6%. Indicadores apontam para a recuperação do mercado imobiliário e o varejo. Ao mesmo tempo, o déficit americano caiu para 4% do PIB, metade em relação a 2009.

Os críticos alegam que os números ainda são ruins e que a concepção democrata de intervir na economia cria obstáculos à prosperidade americana. A inflação, por exemplo, ainda bastante abaixo da meta, indica debilidade na atividade econômica.

Porém, o Federal Reserve (Fed), a autoridade monetária do país, outorgou prestígio à ideia de recuperação econômica, anunciando que em janeiro de 2014 começará a retirar os estímulos monetários que vêm proporcionando uma enxurrada de dólares na economia.

Para evitar uma saída abrupta que prejudique a economia, o Fed anunciou que manterá os juros básicos zerados até "bem depois" de o desemprego baixar de 6,5%. A próxima presidente da autoridade monetária, Janet Yellen, que assume em janeiro, é considerada uma defensora do programa de suporte à recuperação econômica da instituição, e portanto o mercado não espera sobressaltos no campo monetário.

No longo prazo, o governo Obama tem investido forte na autossuficiência energética americana, sobretudo com investimentos em gás de xisto. Em outubro, o governo anunciou que as compras de petróleo – em queda por causa da "revolução energética" no país – ficaram abaixo das exportações. A Casa Branca considerou a notícia como um "marco histórico".

2. Mudanças nas atividades de inteligência dos Estados Unidos

Protesto contra espionagem. AFP
Obama está sob pressão para reformar o sistema de inteligência após escândalo da NSA

Espera-se que uma decisão do presidente Obama sobre este tema seja um dos primeiros grandes anúncios de 2014.

Durante as férias, o presidente analisará o relatório de uma comissão independente de especialistas que contém 46 recomendações para reformar a Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês).

Uma das decisões mais impactantes será escolher entre continuar ou suspender a coleta em massa dos dados das comunicações individuais – os chamados metadados, que contém informações como os números dos telefones, a hora da conversa e a localização dos interlocutores.

Os defensores e críticos da coleta de informações em massa são igualmente representados por duas legislações conflitantes, ambas contando com o apoio de legisladores dos dois partidos, no Congresso americano.

Uma terceira via – a possibilidade de que os chamados metadados continuem sendo coletados, mas fiquem em poder das companhias telefônicas ou de uma organização independente – tem sido criticada desde a concepção.

As companhias telefônicas apontam para o custo e os riscos de serem obrigadas a manter e proteger estes dados, enquanto organizações de direito civil dizem que a solução não traz nenhuma mudança do ponto de vista da privacidade.

O relatório também reforça a necessidade de os Estados Unidos se protegerem de possíveis vazamentos no futuro, e recomenda à Casa Branca que revise permanentemente a sua lista de alvos politicamente sensíveis, como chefes de Estado.

Obama não disse quando se pronunciará sobre as recomendações. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse que o lógico seria que ocorresse antes do chamado discurso sobre o estado da União, que o presidente fez a cada início de ano legislativo no Congresso. Em 2014, o discurso da União está marcado para o dia 28 de fevereiro.

3. Reforma da imigração

Ativistas pró-reforma de imigração. Getty
Republicanos são resistentes à legalização de 11 milhões de imigrantes ilegais

Os movimentos pró-imigração devem cobrar em 2014 do presidente Barack Obama a conta pela não aprovação de medidas significativas de alívio para imigrantes no último ano.

Os republicanos no Congresso – muitos dos quais veem a legalização de 11 milhões de imigrantes indocumentados como uma "anistia para ilegais" – ainda são considerados os principais culpados pela inércia nesse tema.

Entretanto, grande parte do movimento critica o presidente Barack Obama por não usar seus poderes executivos para, por exemplo, suspender as cerca de mil deportações que ocorrem em média a cada dia enquanto o Congresso não aprova uma legislação definitiva.

O Senado, controlado pelos democratas, aprovou um pacote de leis que abriria a possibilidade de legalização para os 11 milhões de imigrantes indocumentados que vivem nos Estados Unidos, mas o projeto nunca foi sequer discutido na Câmara.

Os deputados preferem abordar um tema através de legislações específicas e menos abrangentes – por exemplo, permitindo a naturalização de imigrantes indocumentados que chegaram nos Estados Unidos ainda crianças ou no início da adolescência.

As opções deixaram de ser discutidas na Câmara no segundo semestre de 2013. O tema perdeu espaço para a paralisação parcial do governo federal, a discussão sobre o teto da dívida americana e as legislações sobre espionagem.

4. Obamacare

Obamacare. Reuters
Além da resistência republicana, Obama enfrenta problemas técnicos para implantar programa

Após medidas iniciais adotadas com sucesso, a reforma da saúde assinada em 2010 por Obama se deparou com dificuldades técnicas em 2013 e entra no seu ano final de implementação com atrasos e incertezas.

A legislação tem como objetivo trazer mais pacientes para o sistema de seguros de saúde a fim de baixar os preços. Outras medidas iniciais complementares, como a extensão da idade até quando os dependentes podem permanecer nos seguros dos pais, foram lançadas em anos anteriores com sucesso.

Porém, o impulso final foi marcado por incidentes. Os americanos tinham até o dia 24 de dezembro de 2013 para comprar seguro via bolsas de seguro federais e estatais a fim de obter cobertura a partir de 1º de janeiro de 2014. Mas os sites onde se fariam as transações experimentaram problemas técnicos nos lançamentos.

A alta procura pelos planos antes do Natal – um sinal de sucesso que pode se converter em vitória política para Obama – gerou atrasos, e o governo teve de prometer que encontrará soluções para que todos os interessados possam gozar de cobertura a partir do início de 2014.

Desde o dia 1º de outubro, cerca de um milhão de pessoas compraram seguros pelos sites, segundo o governo. A meta da Casa Branca era de que o número chegasse a 3,3 milhões até o fim de 2013 e 7 milhões até março de 2014.

Os problemas com a legislação afetaram a popularidade de Obama. A oposição republicana ao plano continua forte: os deputados do partido opositor já votaram cerca de 40 vezes para desmantelar o plano desde sua aprovação. As iniciativas nunca passaram pelo Senado, controlado pelos democratas.

Muitos republicanos creem que os incidentes com a reforma da saúde de Obama enfraquecerão os democratas nas eleições de novembro.

5. Política externa

Ilhas Senkaku. AFP
A disputa por ilhas entre Japão e China pode ser um novo desafio para a agenda externa de Obama

O Oriente Médio e o Pacífico (por causa da tensão entre Japão e China) devem concentrar as preocupações e a agenda diplomática de Obama em 2015.

O ano de 2013 não foi memorável para política externa de Obama. Desde o início do ano, os Estados Unidos foram cobrados a tomar uma posição mais firme na guerra civil da Síria.

A Casa Branca evitava ao máximo se envolver no conflito, após as custosas campanhas no Iraque e no Afeganistão. E também por saber que a questão síria é mais complexa que a da Líbia, por exemplo, sobretudo por envolver outros atores importantes, como a Rússia.

Mas as imagens de crianças contaminadas durante um ataque com armas químicas na Síria, em agosto, colocaram Obama contra a parede. O presidente havia dito, em um discurso anterior, que o uso desse tipo de armamento era o limite para uma intervenção.

Após dias de tensão e expectativa por um ataque liderado pelos Estados Unidos, que poderia trazer consequências impensáveis para a região, Obama ironicamente acabou salvo pelo principal rival no conflito, a Rússia de Vladimir Putin.

Principal aliado do regime de Bashar al-Assad, a Rússia conseguiu costurar um acordo de última hora prevendo a destruição do arsenal químico. Embora Obama tenha se beneficiado pessoalmente, o acordo mostrou o protagonismo russo no conflito e a pouca margem de manobra da diplomacia americana.

Outro tema espinhoso para Obama foram os vazamentos promovidos pelo ex-colaborar da NSA, Edward Snowden. As revelações de um amplo esquema de espionagem causou desconforto entre países aliados, como a Alemanha, a França e o Brasil.

No caso brasileiro, a presidente Dilma Rousseff cancelou uma visita de Estado a Washington, na qual se espera a abertura de um novo capítulo nas desgastadas relações entre os dois países.

Um dos grandes trunfos da política externa foi o acordo parcial com o Irã, prevendo a redução do programa iraniano em troca de alívio nas sanções econômicas. O pacto se deu após a conversa histórica de Obama com o presidente iraniano, Hassan Rouhani.

No Oriente Médio, Obama também anunciou o "relançamento" das negociações de paz entre israelenses e palestinos. De prático, quase não houve avanço e poucos acreditam que as conversas podem evoluir.

Em 2014, além da questão palestina e a Síria, Obama deve tratar de um novo desafio - a crescente tensão entre China e Japão em torno da soberania sobre as ilhas conhecidas por Senkaku (no Japão) ou Diaoyu (na China).

Aliado do Japão desde o fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos ignoraram a nova área de tráfego aéreo decretada unilateralmente pela China na área.

A tensão entre Pequim e Tóquio só tem crescido desde o incidente e, se tomar maior proporção, os Estados Unidos terão de se pronunciar.

A radicalização do regime de Kim Jong-un na Coreia do Norte também pode demandar atenção redobrada os Estados Unidos, aliados da Coreia do Sul.