Violência deixa milhares de mortos no Sudão do Sul, diz autoridade da ONU

  • 24 dezembro 2013
Capacetes azuis da ONU no Sudão do Sul (foto: Reuters)
ONU dobrará efetivo das tropas de paz no Sudão do Sul chegando a 12,5 mil militares

Milhares de pessoas podem ter sido mortas na última semana durante a onda de violência no Sudão do Sul, segundo disse à BBC um coordenador de ações humanitárias que está no país.

Foi uma semana devastadora para o Sudão do Sul", disse Toby Lanzer, que está na cidade de Bentiu, no Estado de Unity.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou nesta terça-feira em decisão unânime o envio de tropas para dobrar o número de capacetes azuis no país. Com o reforço, as tropas de paz devem chegar a 12.500.

Mas cedo o presidente Salva Kiir afirmou que suas forças recapturaram a cidade estratégica de Bor, que havia sido invadida por rebeldes há alguns dias.

Os insurgentes são liderados por Riek Machar (o ex-vice presidente), que pertence à etnia Nuer. Eles estão lutando contra o presidente Kiir, da etnia Dinka.

A decisão das Nações Unidas de reforçar seu efetivo no país foi aprovada logo após a entidade revelar a descoberta de três valas comuns com dezenas de corpos de vítimas assassinadas. Uma delas fica em Bentiu, no norte, e outras duas na capital, Juba.

Medo palpável

Lanzer afirmou ao programa Newshour da BBC: “Acho que é inegável a essa altura que milhares de pessoas devem ter perdido suas vidas”.

"Quando eu olhei para os hospitais em cidades importantes, e eu vi os hospitais da própria capital, a escala dos ferimentos, essa não é mais uma situação em que podemos dizer que somente centenas de pessoas perderam as vidas".

Lanzer disse também que o número de pessoas procurando refúgio dos combates é de "dezenas de milhares, se não centenas de milhares".

Ele afirmou que a tensão entre os grupos do Sudão do Sul é evidente a ponto de mais de 7.500 pessoas terem procurado abrigo próximo a uma única base da ONU.

"Têm ocorrido discussões muito quentes e tensão às vezes aumenta, falando diplomaticamente".

Ele afirmou ter se reunido com líderes comunitários da região e pedido que eles auxiliem na tarefa de acalmar os ânimos "para o bem de todas as mulheres e crianças e deles mesmos".

A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay afirmou: "Há um medo palpável entre os civis tanto da etnia Dinka quando Nuer de que eles serão mortos por questões étnicas".

A ONU afirma que ao menos 80 mil pessoas foram deslocadas pela crise no país – e cerca de metade delas está procurando ajuda das Nações Unidas.

Crianças deslocadas acampam em aeroporto em Juba (foto: Reuters)
Autoridade da ONU diz que deslocados por conflito podem ser centenas de milhares

Na noite da terça-feira o Conselho de Segurança da ONU votou e aprovou o aumento do efetivo das tropas de paz de sete mil para 12,5 mil militares. As forças policiais da ONU devem ser elevadas de 900 para 1.323.

O órgão autorizou a transferência temporária de tropas das missões de paz de Darfur e Abyei, da Costa do Marfim, da Libéria e da República Democrática do Congo – esta última missão chefiada militarmente pelo general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz.

O Conselho de Segurança pediu "um cessar imediato das hostilidades e uma abertura imediata do diálogo".

Solução política

O presidente Kiir disse mais cedo aos jornalistas em Juba que suas forças retomaram Bor e estão agora combatendo forças que permanecem na região.

A tomada temporária de Bor, a 200 quilômetros de Juba, foi um dos maiores sucessos da campanha rebelde. Os insurgentes ainda estariam com o controle de Bentiu.

A rádio Tamazuj confirmou que tropas governamentais do Exército Popular de Libertação do Sudão lançaram ataques contra posições do comandante Nuer e do desertor Peter Gadet.

O governo disse que também houve combates na cidade de Malakal e que suas tropas estariam prontas para atacar Bentiu.

Tanto o presidente Kiir como o rebelde Machar afirmaram estar dispostos a dialogar.

Entretanto, Machar disse que seus aliados políticos que estão presos devem ser libertados antes do início negociações. Kiir não impôs condições para o diálogo.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse na terça-feira que não há "solução militar para este conflito. Esta é uma crise política que necessita de uma solução pacífica, política".

Kiir acusou Machar, quem expulsou do governo em julho, de planejar um golpe de Estado. Machar nega estar tentando tomar o poder.

O Sudão sofreu com 22 anos de guerra civil que deixaram mais de um milhão de mortos antes da independência do Sudão do Sul em 2011.

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