Lucas Mendes: A volta do Capitão América

  • 12 dezembro 2013
  • comentários

Aos 9 anos, inspirado pelo livro Your Police (Sua Polícia) que lia e relia, Bill Bratton, residente no bairro 99% de Boston, decidiu ser policial. Aos 66 anos, já comandou três das maiores polícias do mundo, as de Boston, Nova York e Los Angeles, e vai reassumir a de Nova York.

O mesmo livro também foi leitura obrigatória noutra família irlandesa, a Kennedy, que morava no bairro 1%, e de lá saíram um presidente, senadores, deputados, embaixadores, vereadores e vem mais Kennedy por aí.

O livro, publicado em 1956, escrito e ilustrado por George Zaffo, ensina crianças sobre a vida do policial. Quando era estudante, Zaffo foi aluno de Norman Rockwell, o mais ilustre dos ilustradores do "american way of life". Depois foi assistente de Rockwell, antes de se tornar independente e criar seus próprios modelos de virtudes americanas.

O livro termina com a frase: "Precisamos sempre nos lembrar que, quando a gente vê um policial, vemos um amigo".

Voltemos a William Bratton, que vai chefiar mais de 30 mil policiais, nomeado por um prefeito que prometeu muitas inovações e mudanças, entre elas um trato melhor das minorias, em especial negros e latinos.

A mesmice é Bratton, cujo sobrenome deveria ser "Tolerância Zero". Ele conquistou a fama de promover uma das maiores, se não a maior, redução do crime na história de Nova York, com a repressão de pequenos contraventores, a controvertida teoria da janela quebrada — uma metáfora em que o trombadinha de hoje é o assassino de amanhã.

Antes de ser chefe maior, comandou a polícia de trânsito, onde prendia quem pulava a borboleta e pequenos infratores. Ele mesmo tirou um mendigo à força de um vagão.

Mas o forte Bratton tinha um ponto fraco. Boca grande. Foi afastado do segundo posto da polícia de Boston porque disse a um repórter que queria o emprego do chefe. Caiu, mas deu a volta por cima.

Em Nova York, foi afastado por Giuliani porque assumiu o mérito da redução do crime, foi capa de grandes revistas e destaque nos jornais. Tinha mesa cativa no Elaine's com o 1% de Hollywood, da imprensa, celebridades, escritores e financistas.

Foi chefiar a polícia de Los Angeles, na época, uma das mais violentas e corruptas do país. Houve rejeição de dentro e de fora. A advogada de direitos civis Connie Rice escreveu que no primeiro e cordial encontro com Bratton, numa festa, disse a ele que ela o processaria em menos de um ano. Ele riu e desafiou: "Em vez de brigar, por que você não vem se encontrar comigo para discutir como melhorar as relações com as minorias?".

Ela foi e levou junto outros líderes comunitários. Foram chamados de traidores. Bratton demitiu policiais violentos, prendeu os corruptos, promoveu os eficientes e não saiu mais dos bairros negros. O índice da aprovação dele chegou a 66%, o da polícia foi ainda mais alto e, de ano a ano, houve redução no crime.

O chefe usou as táticas de CompStat, o sistema de computação, para coletar dados sobre crimes em tempo real, um modelo IBM nascido no Vietnã durante o implacável programa Phoenix para assassinar inimigos e aperfeiçoado em Nova York nos anos 80 e 90, sem os assassinatos.

Outra arma foi o "pare e apalpe", onde suspeitos eram abordados e apalpados com ou sem motivos. Em Los Angeles, os abusos eram tão frequentes que o "pare e apalpe" ficou conhecido com "pare e mate".

O sucesso de Bratton correu o mundo, se tornou um Capitão América. Serviu como consultor em vários países, inclusive Brasil, e só não foi chefe da polícia londrina em 2011 porque a lei não permite que um estrangeiro assuma o posto.

Bratton era consultor da polícia na Venezuela quando houve o golpe contra Hugo Chávez, e estava ao lado do prefeito que mandou os policiais dispararem contra os defensores do presidente deposto. Houve várias mortes. O prefeito e mais dois assessores, entre eles o chefe de polícia, estão na prisão, condenados à prisão perpétua. O Capitão caiu fora antes de Chávez voltar ao poder.

Entre as promessas de campanha de Bill de Blasio, o prefeito eleito de Nova York, estão a de reduzir o "pare e apalpe" a situações extremas, melhorar as relações da polícia com as minorias e manter o crime em queda.

A escolha de um linha dura como Bratton decepcionou esquerdistas e líderes comunitários, que queriam um liberal ligado a questões sociais no comando da polícia, mas a escolha agradou a maioria da população.

Com segurança, os nova-iorquinos não querem experiência sociológica nem demagogia. Bill de Blasio foi convencido por líderes comunitários como Connie Rice de que Bill Bratton, o Capitão América, sabe apalpar com mão firme, mas sem abuso. E se algemou ao velho xerife.