As mulheres que amaram Mandela

  • 6 dezembro 2013
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Mandela e Graça Machel
Graça Machel disse que ver Mandela 'envelhecer é algo que dói"

Nelson Mandela nunca teve escassez de admiradoras femininas, tamanho era o charme de sua oratória e seu jeito impecável de se vestir.

Seu biógrafo, Anthony Sampson, disse uma vez que ele era "mulherengo" e orgulhoso disso.

Mandela teve três esposas, que em seis décadas se mostraram parceiras imprescindíveis em diversos momentos de sua carreira política. Elas também mostram um pouco quem foi Nelson Mandela.

Evelyn Mase

Mandela se casou com Evelyn Mase, uma prima de seu mentor político, Walter Sisulu, três anos após desembarcar em Johanesburgo. A união foi uma forma de evitar um casamento arranjado por sua família, na aldeia onde vivia na Província do Cabo Oriental. Ele tinha 26 anos e ela 22.

"Eu o amei à primeira vista", disse Evelyn na biografia Higher Than Hope (Maior que a esperança), de Mandela, publicada em 1990.

"Dias após nosso primeiro encontro, continuamos firmes, e em alguns meses ele me pediu em casamento", disse.

A união durou 13 anos. Em boa parte desse tempo, foi o salário de Evelyn como enfermeira que ajudou a pagar as contas familiares e a financiar os estudos de Mandela.

O casal teve quatro filhos. A morte do segundo bebê, com apenas nove meses, teve um efeito muito forte sobre Evelyn, que se tornou mais religiosa, à medida que Mandela se tornava mais politizado.

Eveylin era Testemunha de Jeová e não tinha interesses políticos, segundo escreveu Mandela em sua autobiografia "Uma Longa Caminhada Para a Liberdade".

"Eu não podia desistir da minha luta e ela não podia viver com minha devoção a algo que não era ela mesma ou nossa família", disse Mandela.

A relação teve um fim complicado. Mandela foi preso nos anos 1960 e, quando recebeu fiança, voltou para casa e já não econtrou Evelyn, que tinha deixado o lar.

Cinco anos mais tarde, Mandela foi sentenciado à prisão perpétua, em 1964, mesmo ano em que seu filho mais velho, Thembekile, morreu em um acidente de carro.

Segundo o biógrafo de Mandela, Anthony Sampson, ele mandou uma mensagem de condolências a Evelyn de dentro da prisão. Foi a única comunicação entre os dois durante todo o período em que ele esteve preso.

Evelyin disse a um jornalista, no momento em quem Mandela deixava a prisão, que a libertação do marido estava sendo tratada como a segunda vinda de Cristo. "É uma grande besteira quando as pessoas dizem essas coisas do Nelson", disse.

"Como um homem que cometeu adultério e deixou sua esposa e seus filhos pode ser Cristo? O mundo cultua Nelson além da conta. Ele é apenas um homem".

Em uma entrevista logo após a eleição de Mandela como o primeiro líder negro da África do Sul, Evelyn se mostrou mais habituada ao papel do então ex-marido.

"Quando eu vou para a casa das pessoas para falar de Jeová, sempre vejo as fotos de Nelson na parede. Sua força vem de Deus", disse.

"Deus usa as pessoas para fazer seu trabalho, mesmo quando elas não são corretas", disse.

Evelyn voltou a se casar em 1998. Ela morreu em 2004.

Winnie Madikizela-Mandela

Nelson Mandela
Winnie se casou com Mandela quando ele já estava preso e se divorciou logo após sua libertação

O romance de Mandela com Winnie Madikizela começou durante o segundo julgamento de Mandela.

Winnie era uma asssistente social de 22 anos, 16 anos mais jovem que Mandela, e logo se tornaria sua grande aliada.

"Eu estava ao mesmo tempo paquerando ela e a politizando", disse Mandela em sua autobiografia.

No seu livro de memórias "Part of My Soul Went Him" (Parte de Minha Alma Foi com Ele), de 1984, Winnie conta que Mandela nunca a pediu oficialmente em casamento.

"Um dia Nelson cruzou a rua e me disse: 'Você sabe... tem uma costureira... você precisa encontrá-la. Ela vai fazer seu vestido de noiva. Quantas madrinhas você quer ter?'".

Winnie disse em uma entrevista em 1983 como foi complexo casar-se com um prisioneiro.

"Ele tinha que conseguir permissão para se casar porque não era apenas um prisioneiro. Ele estava banido e o julgamento seria em Pretória. Então, ele ganhou quatro dias para ir a Transkei e se casar", contou.

O casal teve duas filhas, mas passou pouco tempo junto.

Três anos após o casamento, Mandela entrou para a clandestinidade. Ele foi capturado e preso por sabotagem em 1962, por cinco anos.

O julgamento de Mandela recomeçou quando ele estava novamente na prisão. Ele poderia ter pego a pena capital, mas ao fim conseguiu prisão perpétua.

Winnie então entrou para a luta política. Ela enfrentou ordens de prisão e chegou a ser exilada em um vilarejo próximo a Brandfort.

Ela também se envolveu em polêmica. No fim dos anos 1980, ela foi acusada de envolvimento em um caso de sequestro de um adolescente, que teria sido acusado de ser espião pela polícia. O garoto foi morto por um dos guarda-costas de Winnie.

Ela estava ao lado de Mandela durante sua libertação. Em entrevista ao Guardian, Winnie contou que tanto ela quanto Mandela ficaram supresos com a recepção calorosa na saída da prisão.

O casal se separaria logo depois. Ainda assim, Winnie manteve sua posição de apoio a Mandela, apesar de críticas.

Em uma entrevista recente, ela fez elogios ao ex-marido, mas também se mostrou realista.

"Ele não foi nenhum anjo, como a maioria dos humanos. Ele nunca disse que era santo", disse.

Graça Machel

Mandela e Graça Machel
Graça Machel era viúva de outro heroi de independência, Samora Machel, de Moçambique

Graça Machel já sabia o que era ser casada com um heroi da independência quando se uniu a Mandela.

Moçambicana, ela era a viúva de Samora Machel, primeiro presidente da ex-colônia portuguesa.

O mandatário morreu em um acidente de avião de 1986. Na ocasião, falou-se em uma conspiração por parte do regime do apartheid sul-africano.

"É simplesmente maravilhoso que nós tenhamos nos encontrado e pudemos compartilhar a vida", teria dio Graça, segundo o biógrafo de Mandela, Anthony Sampson.

"Ele pode amar profundamente. Mas ele tenta controlar tudo, no que diz respeito à aparência pública", disse.

"Na vida privada, ele se deixa ser humano". "Ele é um homem muito simples, muito gentil, sensato. Mesmo politicamente, se você o observa, você percebe algo de inocência", diz.

Graça relutou em se casar com Mandela, 27 anos mais velho. Ela sentia ter uma obrigação com o povo de Moçambique e temia que o divórcio entre Mandela e Winnie pudesse ter reflexos em sua relação.

Segundo o biógrafo de Mandela, em 1996 Graça passou a ficar duas semanas por mês em Johanesburgo.

Graça contou a Sampson que Mandela poderia ser "muito impaciente" e "muito teimoso". Os adjestivos são os mesmos já usados pelas outras mulheres de Mandela.

"Ele é um símbolo. Isso é certo. Mas não é um santo", disse Graça.

Graça finalmente se casou com Mandela no ano em que ele completou 80 anos.

Ela já tinha dois filhos e seis enteados. Com Mandela, passou a ter uma família ainda maior.

Graça não deixou de lado sua carreira como líder humanitária. Nos últimos anos, ela sempre esteve ao lado de Mandela, tentando filtrar as inúmeras demandas de entrevistas e encontros.

Há quatro anos, ela falou à CNN que "vê-lo envelhecer é algo que dói".

"Madiba é muito orgulhoso. Ele é vaidoso. Então, quando ele percebe que já não consegue falar e andar com firmeza como antes, ele não gosta disso".

"Você entende, sabe que isso vai acontecer. Aquele espírito, aquela faísca, de alguma forma está apagando".