Lucas Mendes: A gangue da padaria

  • 28 novembro 2013
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Quando Jesse Huerto saiu da prisão, pouco depois de cumprir pena por tentativa de homicídio, colocou um revólver no bolso e saiu em busca de uma vítima. Por acaso passou na porta da padaria Homeboy. Conhecia de nome. Outros membros de gangues falavam sobre ela.

Jesse chamou o diretor e foi direto ao assunto: "Se não conseguir um emprego hoje vou assaltar alguém". Era uma confissão e uma ameaça. O ouvinte era o padre jesuíta Greg Boyle, criador e diretor da hoje Homeboy Industries, que começou naquela padaria abandonada na porta da igreja dele, em 1988.

Hoje emprega 254 ex-membros de gangues, quase todos ex-presidiários, a maior organização do gênero nos Estados Unidos. Jesse, depois de 4 anos, é um dos chefes da padaria.

A igreja fica na paróquia de Dolores Mission, uma das mais pobres de Los Angeles, capital mundial das gangues. São 450, com mais de 45 mil membros. Números da polícia de LA.

A padaria foi por acaso. Se o prédio abandonado fosse de uma confecção, Homeboy hoje estaria fabricando meias, cuecas e camisas. A intenção do padre era gerar empregos, educação, tirar jovens das drogas, das ruas e do crime. Como era uma padaria, fizeram pães e pegou.

O lema da padaria é "Nada para uma bala como um emprego". As balas ainda voam em Los Angeles, mas cada vez menos. O padre Boyle já enterrou 189 membros de gangues. Hoje são mais raros. Um estudo da UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles, mostrou que de dez ex-presidiários que passam pela Homeboy, seis não voltam para a prisão.

A padaria oferece uma coleção de histórias de regeneração e sucesso como a de Rasheena, criada pela avó porque os pais passavam mais tempo nas prisões.

Quando o avô morreu, Rasheena, aos 12 anos, começou a experimentar drogas, foi sexualmente abusada por um dos irmãos, se envolveu com as gangues e passou os anos seguintes prisioneira do círculo das drogas e crimes.

Por um crime mais sério, ela foi condenada a 6 anos e oito meses de prisão, deixando a filha sozinha como tinha sido deixada pela própria mãe. Quando saiu, em 2012, era impossível conseguir emprego com sua história de crimes, falta de educação e de habilidades.

Homeboy abriu as portas para ela com o treinamento padrão de 18 meses que combina com educação secundária, apoio moral, cursos de auto ajuda, ioga, artes, assistência legal. No período de treinamento recebem salários.

Para a maioria dos filhos de pais marginais e ausentes, as gangues oferecem prazeres e perigos e muitos ficam nelas por mais de 30 anos, como é o caso de Daniel, que estava nas ruas aos 11 e foi para a prisão aos 15, onde pela primeira vez dormiu numa cama. Entrou e saiu várias vezes até perceber que a filha ia para o mesmo caminho que ele. Hoje é um veterano de Homeboy e trabalha ao lado de rivais com quem trocava tiros nas ruas.

Tatuagens são marcas das gangues e provocam rejeições negativas imediatas nos empregadores. Homeboy cuida da remoção delas, um processo caro, doloroso, que pode durar até um ano nos corpos mais cobertos.

A operação cresceu. Homegirl, ao lado da padaria, é um café que oferece buffets. Há outro na terminal da American Airlines no aeroporto de Los Angeles e quatro diferentes produtos e consultorias. Greg Doyle já criou uma rede nacional para ensinar seus métodos e trocar fórmulas. O plano é criar uma organização mundial e quem trabalha com gangues no Brasil tem o que ensinar e aprender com o jesuíta.

Homeboy hoje fatura US$ 3,5 milhões por ano e gasta mais de dez.

Há três anos, quase fechou, mas doações generosas salvaram e reforçaram a operação. O trabalho do jesuíta de 59 anos, nascido em Los Angeles, recebeu vários prêmios, está contado em documentários, na imprensa e em seu próprio livro Tatoos on the Heart: the power of boundless compassion e em G-Dog and Homeboys, Father Greg Boyle and the gangs of East L.A, de Celeste Fremon. São histórias de entrega, sobrevivência e gratidão, histórias especiais para dia de thanksgiving, para dizer obrigado.