Funcionários são treinados para evitar suicídios em ferrovias britânicas

  • 26 novembro 2013
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Trens na estação de King's Cross em Londres (Arquivo/Getty)
Funcionários são instruídos a observar sinais específicos de passageiros nas plataformas

Milhares de funcionários das ferrovias da Grã-Bretanha receberam treinamento para detectar sinais de comportamento indicando que uma pessoa possa estar pensando em cometer suicídio nas linhas dos trens.

Quase todos os dias alguém tenta o suicídio nas ferrovias do país. Apenas no ano passado 238 pessoas cometeram o suicídio se jogando em frente aos trens, um aumento de 20% desde 2010.

O agravamento do problema levou a ONG britânica The Samaritans (Os Samaritanos, em inglês) a criar um programa que ensina quais sinais devem ser observados e como ajudar as pessoas que podem estar prestes a cometer o ato.

Sharon Willett foi uma das funcionárias que passou por este treinamento e ajudou um adolescente.

Ela notou que ele estava sentado sozinho em um dos bancos da plataforma onde chegavam os trens, encolhido, usando um agasalho com capuz que escondia o rosto.

O menino, de 15 anos, parecia estar chorando, mas Willett não tinha certeza. Ela apenas observou que ele não embarcou em nenhum dos trens que parou no local.

A funcionária então usou seu treinamento para tentar se aproximar do menino e iniciar uma conversa. A princípio o adolescente a recebeu com insultos e, em seguida, começou a chorar.

Willett acabou descobrindo que o adolescente era vítima de bullying na escola.

"Ele desabafou comigo, disse que odiava viver, odiava tudo e só queria que (a vida dele) acabasse e que ele iria embora naquela noite", afirmou.

O desabafo com a funcionária da plataforma de trens foi a primeira vez que o adolescente conversou com alguém sobre seus problemas.

"Às vezes, as pessoas conversam mais com estranhos do que com amigos e familiares. Mas aquele foi o primeiro passo para ele ir para o caminho certo, ir para um lugar melhor em que ele está agora", afirmou Willet.

Três semanas depois da experiência, a funcionária recebeu uma carta de agradecimento da família do adolescente.

Atrasos

Novos números obtidos pela rádio 5 Live da BBC mostram que entre abril e outubro de 2013, 313 pessoas que estariam planejando se matar nas ferrovias da Grã-Bretanha foram impedidas depois da intervenção de outra pessoa.

A pesquisa não levantou quem foram as pessoas que impediram, mas alguns foram ajudados pelos funcionários que participaram do programa, funcionários das ferrovias que não participaram do curso, a polícia de transportes britânica e até outros passageiros.

Há também uma preocupação mais pragmática com o problema dos suicídios nas ferrovias: os prejuízos. Apenas no ano passado o setor de transportes ferroviários do governo britânico teve que pagar 33 milhões de libras (mais de R$ 122 milhões) para as companhias de trens em indenizações pelos transtornos causados pelos suicídios. Estes transtornos geraram cerca de 5 mil horas de atrasos.

Sinais e traumas

No curso dado para os funcionários eles são orientados a identificar alguns sinais como quando uma pessoa fica sentada na plataforma por períodos longos, sem embarcar em nenhum trem, segundo Steve Tollerton, um dos treinadores da Samaritan.

Sharon Willett (Foto: Gary Butcher/BBC)
Sharon Willett já salvou adolescente e outro passageiro de tentativas de suicídio

Outros comportamentos são mais óbvios.

"As pessoas (que estão pensando em cometer suicídio) podem estar usando camisolas, roupões, roupas de hospital, chinelos. Em alguns casos elas podem tirar as roupas e dobrá-las cuidadosamente na plataforma", disse.

Segundo Tollerton, nestes casos, a conversa é o mais importante e no treinamento todos os funcionários são orientados a tentar manter a conversa mesmo quando são rejeitados e, em seguida, tentar levar a pessoa para um lugar seguro.

"Uma vez que a pessoa começa a falar, é incrível como elas podem se abrir sobre os problemas. Esta pode ser a primeira conversa que esta pessoa está tendo", disse.

O programa também visa evitar o trauma dos funcionários, como Don Stewart, condutor cujo trem atropelou um homem em uma estação e precisou se afastar do trabalho durante um ano.

"Você se senta em casa e fica tipo: 'não estou trabalhando, algo está errado'. Não importa se você quer falar que não matou ninguém, você estava conduzindo o trem, você estava controlando. E acertou alguém", afirmou.

"Os condutores se sentem culpados e responsáveis. Pode trazer à tona emoções dolorosas e aquelas imagens nunca serão esquecidas", afirma Tollerton.

Segundo Neil Henry, a frequência dos suicídios está crescendo nas ferrovias britânica.

"Apenas para colocar em perspectiva, no começo deste mês tivemos sete dias consecutivos sem nenhum incidente e esta foi a primeira vez desde 2010 que tivemos este período todo sem incidentes", afirmou.

Para ele, o treinamento é importante pois dá aos funcionários "a confiança para se aproximar das pessoas, (saber) o que falar, o que não falar".

Desde o episódio com o adolescente, Sharon Willett já conseguiu evitar outro suicídio. Para ela, basta "encontrar o gatilho certo, para que as emoções (do suicida) sejam liberadas".

"E, uma vez que (as emoções) começam a aparecer, a situação começa a se dissolver e é quando você pode levá-los para outro estágio, levá-los para um lugar seguro", disse.