Diálogo com o Irã: desta vez é diferente

  • 10 novembro 2013
Catherine Ashton e Mohammed Javad Zarif | Reuters
Ashton e Zarif disseram que apesar de progressos, acordo não foi alcançado

Após três dias de uma maratona de negociações em Genebra, que contou com a participação dramática e inesperada do secretário de estado americano John Kerry, não foi possível alcançar um acordo entre as potências ocidentais e o Irã a respeito do programa nuclear do país. Bom começo ou fracasso honorável?

Na coletiva de imprensa após o término das reuniões, a chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, e o ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif, pareciam exaustos.

Zarif sorriu e insistiu que os diálogos haviam sido positivos.

Ele não mordeu a isca quando perguntado se havia ficado decepcionado com os franceses por supostamente terem puxado o tapete e agradeceu a todos os ministros por terem participado das reuniões. Acrescentou ser normal haver diferenças.

Mas a coletiva foi curta e de certa forma estranha, como se nenhum dos dois quisesse estar lá.

Objeções dos franceses

Zarif disse não ter ficado desapontado com a falta de acordo. Insistiu que progressos foram alcançados e que isso era importante para a próxima reunião, daqui a dez dias.

Apesar de Kerry ter deixado bem claro quando chegou, na sexta-feira, que não havia certezas sobre um entendimento, ninguém esperava que os diálogos ficariam estancados por causa da França.

Ao longo do dia circulavam relatos a respeito das divisões dentro do grupo das seis potências que dialogam com o Irã, conhecido como P5+1: Estados Unidos, Rússia, França, Grã-Bretanha, China, mais a Alemanha.

Diplomatas ocidentais contaram a repórteres acampados no lobby do hotel Intercontinental terem ficado furiosos com os franceses por terem criado obstáculos ao acordo no último minuto. Queriam uma postura mais dura com o Irã.

Laurent Fabius | AP
Cancheler francês antecipou anúncio sobre fracasso nas negociações

Mas a posição da França em relação ao Irã sempre foi dura, algo que talvez não se notava muito porque o foco sempre foi na reação dos americanos.

Os diplomatas franceses têm me dito nos últimos anos que acreditam que o governo Obama estava disposto a fazer concessões rápido demais.

Após o término da reunião, por volta da 1h deste domingo, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, foi para o bar.

O chanceler francês, Laurent Fabius, se apropriou da coletiva que seria dada oficialmente por Ashton e Zarif e antecipou unilateralmente aos jornalistas do lado de fora do hotel que os ministros haviam falhado em chegar a um acordo. Acrescentou que os trabalhos devem continuar.

Para o P5+1, que insiste em demonstrar união ao lidar com o Irã, este não foi seu melhor momento.

Desta vez é diferente

Em sua própria coletiva de imprensa, Kerry enfatizou que há não necessidade de apressar o processo e que é razoável reavaliar os avanços antes da nova rodada começar, no dia 20.

John Kerry | AFP
Kerry: 'não há necessidade de apressar acordo'

Os Estados Unidos têm de convencer alguns aliados sobre um acordo com o Irã e tê-lo obtido prematuramente poderia ter causado fúria em Israel e também na Arábia Saudita.

Kerry também ressaltou que não é fácil superar 30 anos de desconfiança entre seu país e o Irã, apesar de parecer ser mais difícil superar a desconfiança dos franceses com os iranianos.

Mas também é importante lembrar que esta foi apenas a segunda rodada de diálogos com o governo iraniano.

Kerry e Zarif haviam se encontrado anteriormente apenas uma vez, durante uma breve reunião na ONU, em setembro.

Em Genebra, eles passaram quase dez horas na mesma sala ao longo de dois dias.

Apesar de ter havido muitas rodadas de negociações no passado, todos concordam que desta vez é diferente.

Mesmo com as diferenças, mais progressos foram alcançados nos últimos dias do que nos últimos dez anos.