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Argentina revela listas negras de artistas na ditadura

Atualizado em  8 de novembro, 2013 - 20:42 (Brasília) 22:42 GMT
Mercedes Sosa (foto: AP)

Listas "negras" do regime militar argentino definiam quais artistas não receberiam apoio do governo

Documentos da ditadura militar argentina (1976-1983) revelados esta semana pelo ministério da Defesa do país mostram como cantores argentinos famosos no país e no exterior eram privados de cargos públicos ou de benefícios concedidos pelo Estado – além de serem impedidos de se apresentar em público – por serem marxistas.

Entre as personalidades listadas pelas autoridades estavam artistas como a cantora Mercedes Sosa, os cantores de músicas folclóricas Horácio Guarany e Atahualpa Yupangui e o pianista Miguel Angel Estrella. O governo proibiu até que suas músicas fossem reproduzidas.

Foram achadas três listas distintas, produzidas nos anos de 1979, 1980 e 1982. Nelas constam mais de 650 registros de nomes.

A descoberta dos documentos originais foi feita por acaso em cofres e em armários abandonados no subsolo do prédio do edifício da Força Aérea, chamado Condor, segundo afirmou esta semana o ministro da Defesa, Agustín Rossi.

As listas tinham ressalvas feitas pelos militares, como "estes dados não devem ser copiados e devem ser incinerados".

Na época em que foi listada, Mercedes Sosa já era famosa na Argentina, no Chile e no Brasil, entre outros países, pela interpretação das músicas 'Gracias a la vida', da chilena Violeta Parra, e Cio da Terra, de Chico Buarque, que gravou com Milton Nascimento.

Segundo historiadores, Sosa foi presa durante um espetáculo na província de Buenos Aires e morou anos na Europa em exílio. Ela morreu em Buenos Aires em 2009.

Também constavam nas listas os atores Norma Aleandro e Hecitor Alterio. Eles foram protagonistas no filme 'História Oficial', que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1986, e aborda o roubo de bebês na ditadura.

Os documentos de 1979 e 1980 contém ainda o nome do escritor Julio Cortazar – autor de obras como "O Jogo de Amarelinha", que optou pela nacionalidade francesa em 1981 em protesto contra o governo argentino.

Os documentos

Os nomes nas listas eram divididos em quatro classificações segundo o grau de periculosidade para o regime - de F1 a F4. Mercedes Sosa, por exemplo, era listada com F4, o grau máximo de perigo.

A definição da categoria dizia: "Registra antecedentes ideológicos marxistas que tornam aconselhável o não ingresso ou permanência na administração pública. Não lhe proporcionem ajuda."

Na categoria F3, a justificativa era a de que os listados registravam "alguns antecedentes ideológicos marxistas" mas "os mesmos não são suficientes para que signifique um elemento que não se salve para nomeações, promoções, entrega e bolsas de estudos e etc".

Ns outras duas categorias – F2 e F1 – estavam os que eram considerados menos perigosos. "Não podem ser classificados desfavoravelmente a partir do ponto de vista ideológico marxista", diz a classificação F2.

A definição "marxista" aparece em todas as categorias na escala elaborada pelo regime. Na F1 estavam aqueles "sem antecedentes ideológicos marxistas".

Malvinas

Os documentos mostram que os militares mudaram a postura a partir da derrota na guerra das Malvinas (Falklands para os britânicos). Eles falam em "marcar uma transição para uma vida institucional plena no país" e que as pessoas classificadas como F4 possam trabalhar nos meios de comunicação administrados pelo Estado.

Mas 46 pessoas foram apontadas como "exceção" a essa norma, entre eles Estrella, premiado na França, nos Estados Unidos e na Argentina, onde é definido como um dos melhores pianistas do país.

Ele foi torturado na ditadura e hoje é reconhecido como defensor dos direitos humanos. Atualmente, é embaixador da Argentina na Unesco.

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