Diálogo EUA-Irã preocupa aliados americanos no Oriente Médio

  • 8 novembro 2013
Binyamin Netanyahu
Premiê de Israel disse que 'comunidade internacional fez um mau negócio com o Irã'

Nos últimos meses, tem crescido a preocupação de Israel enquanto seu melhor amigo se aproxima de seu pior inimigo.

O governo do premiê Binyamin Netanyahu fez diversas advertências contra a abertura do diálogo entre Irã e Estados Unidos, temendo que Teerã consiga que as potências mundiais relaxem as sanções impostas ao país persa, em troca de concessões que apenas desacelerem - em vez de interromper - o avanço nuclear iraniano.

Essa preocupação parece ter chegado ao seu auge nesta sexta-feira, quando o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, prepara-se para nova rodada de diálogo envolvendo também os chanceleres de Reino Unido, França, Alemanha e o chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif.

O acordo a ser discutido envolve o relaxamento limitado das sanções contra o Irã, se o país parar de expandir seu programa nuclear.

Kerry passou por Tel Aviv antes de chegar a Genebra, para tranquilizar Netanyahu.

E, já na Suíça, o secretário americano disse ainda haver "muitas questões não resolvidas" antes de um acordo ser firmado.

Mas no mesmo dia Netanyahu declarou à imprensa que Israel "rejeita o acordo e fará tudo o que puder para defender a si e a segurança de seu povo".

"Ouvi que os iranianos estão andando muito satisfeitos por Genebra porque conseguiram o acordo do século", queixou-se Netanyahu. "Conseguiram o alívio das sanções (...) e não estão pagando nada, porque não estão reduzindo sua capacidade de enriquecimento nuclear. A comunidade internacional fez um mau negócio."

Ronen Polak, analista diplomático para a emissora israelense Channel One TV, tuitou que há anos não se via Netanyahu tão enraivecido, a ponto de o encontro com Kerry não ter podido ser fotografado.

Netanyahu x Irã

John Kerry e o chanceler iraniano, Zarif, em foto de arquivo (AFP)
Novo governo do Irã adota tom mais moderado e leva o Ocidenter de volta à negociação

A percepção é de que há um abismo entre o otimismo americano (pelo aparente avanço no diálogo com o Irã) e a retórica de Netanyahu, que alega que os EUA e seus aliados estão sendo enganados por Teerã.

Ao mesmo tempo, a distensão entre Irã e o grupo de potências que negociam seu programa nuclear é uma derrota pessoal para Netanyahu, que tem como missão pessoal advertir o mundo sobre os perigos que ele vê emanando de Teerã. Esse é um de seus temas favoritos há 20 anos.

O premiê dedicou seu último discurso na ONU à questão e queixa-se que o mundo reagiu com muita rapidez à mudança de tom do Irã - trazida pelo novo presidente, o moderado Hassan Rouhani -, sem exigir mudanças profundas.

Segundo sua linha de pensamento, uma eventual arma nuclear iraniana traria dois perigos: de ser usada para cumprir a velha ameaça de "varrer Israel do mapa" ou de ser usada para que o Irã se estabeleça não só como potência regional, mas capaz de mudar o balanço global de poder entre o mundo islâmico e o não-islâmico. Goste ou não, a posse de armamento atômico dá ao seu dono um assento junto à elite da política mundial.

Preocupação regional

Historicamente, Israel não costuma ter muitos aliados regionais quando o assunto é programa nuclear. O país é esquivo em detalhar seu próprio arsenal atômico, e o mundo árabe - bem como o Irã - acreditam que os israelenses tenham sua própria bomba.

Mas Israel não está sozinho em suas preocupações quanto às ambições nucleares iranianas.

Como líder do islã xiita, o Irã vive em constante batalha estratégica contra seu rival sunita, a Arábia Saudita.

Os países já estão em lados opostos na guerra civil da Síria, mas a esfera nuclear seria uma arena ainda mais perigosa para a disputa.

A Arábia Saudita certamente está tão preocupada quanto Israel com as ambições nucleares de Teerã, mas não costuma admiti-lo em público.

Em parte, porque o país não quer aparecer publicamente do mesmo lado que Israel; em parte, porque não seria do estilo do governo saudita admiti-lo.

Aliados americanos

Os dois países têm outra coisa em comum: ambos são aliados próximos e estratégicos dos EUA e compartilham irritação com a repentina abertura de Washington a Teerã.

Nem todos em Israel, porém, concordam com a posição de Netanyahu. Mas ele parece se ver no papel de profeta do assunto - ainda que, ante o tom mais moderado adotado pelo Irã, ele pareça um profeta gritando sozinho.

É difícil prever o que ocorrerá a seguir.

O Ocidente tem aplicado sanções contra o Irã há 30 anos, então pode suspender restrições mais antigas sem mexer nas mais recentes, que realmente atingiram os serviços financeiro e energético iranianos. Se essa for a estratégia adotada, talvez alguns israelenses a considerem aceitável.

Mas Netanyahu diz que Israel está comprometido a garantir que Teerã nunca obtenha uma bomba atômica. Por conta disso, muitos analistas ao redor do mundo devem começar a especular sobre a possibilidade de Israel contemplar algum tipo de ataque aéreo preventivo na tentativa de atingir esse objetivo.