Decapitados no México: um drama quase cotidiano

  • 1 novembro 2013
Cropo decapitado é exibido em IML do México (foto: AFP)
Mais de 1.300 pessoas foram decapitadas no México entre os anos de 2007 e 2012

Na madrugada de quarta-feira, 6 de setembro de 2006, vinte homens armados, vestidos de preto e com os rostos cobertos com máscaras invadiu a discoteca Sol y Sombra, na cidade de Uruapan, no Estado de Michoacán.

Eles fizeram disparos para o alto, obrigaram os clientes a se deitarem no chão e atiraram cinco pacotes na pista de dança.

Dentro das sacolas de plástico havia um conteúdo sombrio: cinco cabeças humanas.

O número de vítimas e a maneira como o crime ocorreu fez com que a notícia tivesse repercussão internacional.

Na semana passada, outra decapitação no México ganhou as primeiras páginas dos jornais: a de uma mulher assassianda a mando do cartel dos Zetas. O crime foi filmado e publicado no Facebook.

Contudo, o que provoca indignação e reprovação internacional é uma situação quase corriqueira no país: a gravação e a difusão de vídeos mostrando pessoas sendo decapitadas.

Os Kaibilis

Os cinco decapitados da cidade de Uruapan haviam desaparecido na terça-feira, 5 de setembro. Um jornalista local afirmou à BBC que as vítimas eram vendedores de drogas locais.

Na mesma semana, outras duas pessoas foram decapitadas no Estado. O número desde janeiro já chega a 13.

Segundo registros da imprensa, ao menos 1.300 pessoas foram decapitadas no país durante o governo de Felipe Calderón (2007-2012) – período em que os índices de violência no país subiram devido às estratégia do presidente de combater os cartéis.

Mas essa modalidade de assassinato começou antes de Calderón chegar ao poder.

A maioria dos especialistas concorda que a prática foi introduzida por desertores das forças especiais Kaibiles da Guatemala – que começaram a engrossar as fileiras dos Zetas no início dos anos 2000, quando esse grupo anda atuava como um braço armado do Cartel do Golfo.

Essa explicação consta no livro "El hombre sin cabeza" do jornalista Sergio Gonzalez Rodríguez, publicado em 2008. Ele traz depoimentos de familiares de vítimas, crônicas, reflexões antropológicas e históricas

Rodríguez registra na obra uma entrevista com um decapitador dos Zetas. Ele diz ter sido "treinado" por pessoas que haviam aprendido a técnica com ex-integrantes combatentes de selva Kaibiles.

Escalada tática

Símbolo relacionado a cartel mexicano (foto: Reuters)
A introdução da prática da decapitação de criminosos rivais no México é atribuída aos Zetas

Por sua vez, o professor americano George Grayson, autor do livro sobre os Zetas “All the executioner’s men” (Todos os homens do carrasco), diz que até a incorporação dos Kaibiles, os Zetas "somente" torturavam e batiam em seus inimigos.

Segundo Grayson, as táticas dos ex-Kaibiles – usadas em uma guerra em seu país – encontram apoio nos dos principais comandantes Zeta: Heriberto Lazcano Lazcano e Miguel Ángel Treviño Morales

O que aconteceu em seguida é algo que países como a Colômbia conhecem muito bem: quando um grupo armado começa a utilizar métodos especialmente violentos, seus rivais começam a imitá-los para espalhar um terror ainda maior.

Assim todos os outros cartéis – de Juárez, de Sinaloa e do Golfo – também começaram a realizar decapitações.

Símbolo histórico

Em seu livro, Gonzalez Rodriguez lembra que na história do México há três síbolos relacionados com a decapitação.

Os aztecas exibiam crânios em estacas; a cabeça do sacerdote e primeiro líder independentista Miguel Hidalgo exibida pelos espanhóis para os revolucionários e a cabeça de Pancho Villa – retirada do corpo anos depois de sua morte.

Os maias também realizavam rituais de decapitação. Samuel Gonzáles Ruiz, que é ex-conselheiro da ONU para a luta contra as drogas e chefiou a Unidade Especializada em Delinquência Organizada no México (entre 1996 e 1998), disse à BBC Mundo que não é possível estabelecer um elo histórico entre o que ocorre hoje e no passado.

Entretanto, ele acredita que as decapitações atuais têm uma dimensão política: "A mensagem é clara: não temos piedade e faremos o que for preciso para controlar nosso território".

Proliferação de imagens

Desde a chacina de Michoacán, as decapitações se tornaram mais frequentes. Segundo registros da Procuradoria Geral da República, em 2007 ano menos 32 pessoas foram vítimas desse crime. Em 2011, esse número chegava a 500.

Somente entre abril e maio de 2012, mais de 80 pesoas foram decapitadas, em meio a choques entre os Zetas e seus antigos chefes, o Cartel do Golfo.

E a medida em que aumentavam as mortes, a familiaridade do público com elas também crescia – com imagens publicadas pela imprensa ou por sites especializados como o Historias del Narco.

Também é comum vê-los no You Tube, onde são publicadas inclusive imagens de mulheres e crianças sendo degoladas.

A polêmica da semana passada aconteceu porque um dsses vídeos cruzou uma fronteira invisível e chegou ao Facebook – que o retirou do ar depois de alguns dias de controvérsia.

O vídeo, de menos de um minuto, mostra um homem mascarado com uma faca em frente a uma mulher ajoelhada. Ele afirma “isso é o que acontece com todos do Cartel do Golfo”. Em seguida a mulher é morta.

Seu corpo não foi encontrado e o governo não solucionou o crime. Como tantos outros casos de decapitados, a vitima repousa em uma tumba sem nome e a imagem de sua morte talvez continue circulando por décadas no limbo da internet.

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