Lucas Mendes: Tristeza a granel

  • 10 outubro 2013

Como era triste o nosso Brasil. Tristíssimo. Culpa da ditadura de Vargas?

George Ermakoff, 64 anos, é brasileiro, nascido em Xangai, filho de pais russos, economista, ex-diretor da Varig, hoje colecionador e conhecedor profundo de fotógrafos e fotografias sobre o Brasil.

Em novembro ele vai lançar um livro extraordinário da Genevieve Naylor, americana que passou quase três anos, de 1940 a 42, fotografando várias partes do Brasil sob encomenda do governo americano.

Genevieve era mulher rica de família tradicional. Sua árvore vai até John Nalyor, o João Pequeno, braço direito de Robin Hood, na floresta de Sherwood. Século 12. Os avós, do século 19, dos dois lados, eram multimilionários mas ela se amarrou em Misha, um proletário ucraniano, artista sem grande talento e, apesar de todos obstáculos da família, casou com ele, tiveram filhos e viveram em Nova York até ficar viúva. Ela morreu em 89, aos 74 anos.

Aos vinte e poucos anos, fins da década de 30, estudante de arte, se apaixonou pela fotografia influenciada pela grande fotógrafa Berenice Abbot que descobriu e encorajou o trabalho dela. Cartier Bresson e Weegee eram outros inspiradores.

Preocupado com as simpatias dos latinos por Hitler, Mussolini e Stalim, o então presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt despachou músicos, atores, fotógrafos e artistas americanos em missões à América Latina comandadas por Nelson Rockefeller para reforçar os laços de amizade, afastar as seduções dos países do Eixo e criar mercados.

Genevieve chegou ao Rio, clicou sem parar em todas direções, em especial nas proibidas. Naquela época da ditadura Vargas, as instruções na credencial dela eram específicas: "Autorizada a tirar fotografias de aspectos turísticos do nosso país".

Fotografou tudo, menos turismo.

Ela e Misha foram morar bem, na avenida Atlântica, número 24, fizeram conexões importantes "nas tertúlias do apartamento do escritor Aníbal Machado em Ipanema", conta George Ermakoff .

Nas praias e no calçadão de Copacabana, na frente do Copa, Genevieve fotografou famílias afluentes e até bonitas, homens sarados, moças com maiôs brancos, pretos e discretos. Há carnaval de rua, coristas, bondes entulhados, vendedores, palhaços e artistas de praças e esquinas.

O livro entra por Minas e São Paulo. Dezenas de fotos de Belo Horizonte, Ouro Preto, Congonhas . Aqui há uma sequência de 69 páginas onde aparecem centenas, talvez milhares de pessoas em procissões, festas, fazendas.

A sequência de BH começa com uma foto do prefeito Juscelino Kubistchek de smoking numa festa na Pampulha. Na mesa, só a mulher ao lado dele esboça um sorriso. Nas páginas seguintes, ninguém sorri. Em procissão não há sorrisos, tudo bem, mas e as crianças nas escolas? São centenas.

A única que sorri em uma menina vesga. Em Congonhas, na frente das obras do Aleijadinho, há 14 moças sentadas num murinho, fazendo um lanche. Só a última delas sorri. Nas multidões há ricos em seus jaquetões e há pobres com seus fardos e enfados. Ninguém sorri.

Há uma foto de dois jumentos no sol, na frente de uma cruz. Estão sem cavaleiros mas carregam a tristeza do mundo. Será Minas?

Voltei para as primeiras páginas. Rio. Duas moças bem vestidas, rindo no calçadão na frente do Copa e há um homem de chambre caminhado em sentido contrário. Será que riem dele?

Vou adiante, centro da cidade, jockey, bondes cheios, lojas, favelas, bastidores de shows. Só uma corista sorri. Uma.

Jornalista costuma errar número, nome e endereço, me dizia um amigo jornalista e costumo errar nas contas, mas nos milhares fotografados em todo livro duvido que voce encontre uma dúzia de sorrisos. Será que o Brasil de hoje é assim?

As fotos que mostram aquele Brasil lindo e triste conquistaram o Moma. Genevieve foi a primeira mulher com uma exposição individual no museu. Depois disto ela fotografou para as maiores revistas americanas. Para Look fez a guerra da Coreia e passou 15 anos na Harper’s Bazaar. Foi fotógrafa pessoal e oficial da primeira-dama, Eleanor Roosevelt.

Ela e Misha compraram uma velha cocheira numa área nobre de Manhattan e transformaram a casa num ponto de encontro dos maiores pintores e músicos de Nova York . Eram boêmios. Os brasileiros da bossa-nova eram bem-vindos. Tom Jobim, João Gilberto, Bonfá e Viciníus de Morais, que tinha conhecido no Brasil, frequentaram a casa.

Uma das histórias curiosas e não aprofundadas no livro de George Ermakoff é sobre a criação do museu de arte moderna do Rio por Nelson Rockefeller. Misha foi escalado para fazer a conexão entre o MAM e os americanos da missão. Uma das condições era que Genevieve informasse ao Departamento de Estados quais artistas brasileiros simpatizavam com o comunismo e eram contra os americanos.

Espiã? Tudo é possível, mas as fotos de Genevieve mostram um olhar mais interessado na nossa alma do que na nossa política. E de quem viu fundo.