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América Latina perdeu o medo da desvalorização cambial, diz Banco Mundial

Atualizado em  9 de outubro, 2013 - 17:03 (Brasília) 20:03 GMT
Notas de dólar (Reuters)

Mudança de devedor para credor está entre ações que alteraram cenário

As economias latino-americanas "perderam o medo" histórico de desvalorizar as suas moedas e estão absorvendo melhor os choques externos – um contraste com a realidade da região apenas 20 anos atrás, avaliou nesta quarta-feira o Banco Mundial em um relatório.

Alterações estruturais como o reforço de reservas internacionais, mudança de alguns países – como o Brasil – de devedores a credores e um processo de "desdolarização" das economias fizeram com que a perda de valor das moedas, em vez de ser um temor, tenha se tornado um mecanismo de ação.

"Os países da América Latina perderam o medo da desvalorização cambial", disse o economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe, Augusto de la Torre, apresentando em Washington o relatório da instituição sobre o panorama da região.

"Os países que possuem câmbio flexível hoje têm condições de conduzir políticas contra-cíclicas. Isso é uma coisa que não podíamos fazer nos anos 1990."

De la Torre citou como exemplo a resposta dos países da região após a crise russa, de elevar acentuadamente as taxas de juros. Após a crise, em 1998, o BC brasileiro subiu a taxa básica para 45% em março do ano seguinte.

"Hoje confortavelmente depreciamos as nossas moedas e ninguém se assustou", disse o economista.

Em defesa do câmbio flutuante

A análise do Banco Mundial para a América Latina reforça a receita que o Fundo Monetário Internacional (FMI) enfatiza em seus relatórios divulgados nesta semana.

Mais cedo, o FMI disse que os países emergentes devem deixar as suas moedas flutuarem como resposta à saída de capitais que já vem sendo registrada nessas economias, à medida que os EUA se aproximam do fim de seu período de expansão monetária.

"Os países da América Latina perderam o medo da desvalorização cambial. Os que possuem câmbio flexível hoje têm condições de conduzir políticas contra-cíclicas. Isso é uma coisa que não podíamos fazer nos anos 1990"

Augusto de la Torre, economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe

O Fundo elogiou especificamente a atuação do Brasil, de intervir no mercado apenas para evitar uma flutuação desordenada do câmbio.

Economistas de mercado apontam os riscos inflacionários da desvalorização do real frente ao dólar, medida que tende a encarecer os produtos importados.

Porém, De la Torre relativizou essa possibilidade, afirmando que grande parte da inflação no Brasil se deve aos efeitos dos aumentos dos salários em uma situação de pleno emprego. Em um cenário de desaceleração, essa pressão diminui, afirmou o economista.

Na América Latina, a redução das dívidas externas alivia a pressão de uma alta do dólar nas economias.

Empréstimos em dólar

Mas a desvalorização da moeda local é uma opção mais difícil para economias como a peruana, onde muitos indivíduos tomaram empréstimos em dólar para adquirir casas, e hoje sentem o efeito mesmo de uma alta relativa da moeda americana.

Costa Rica e Uruguai também se encaixam nos países onde as dívidas em dólar atingem patamares elevados, disse o economista.

O relatório do Banco Mundial nota que esta nova realidade tem "implicações profundas" para as economias latino-americanas.

Primeiro, porque indica que os países latino-americanos devem ver ciclos econômicos mais moderados, mais semelhantes às economias avançadas.

Segundo, muda-se a lógica de atuação dos Bancos Centrais nas economias. Antes, as autoridades monetárias tentavam "defender moedas indefensáveis", até queimarem todo seu caixa de reservas e serem obrigados a permitir a desvalorização, disse De la Torre.

Hoje, as atuações podem objetivar apenas "combater grandes desequilíbrios".

Gargalos e produtividade

Porém, o Banco Mundial reitera que a depreciação das moedas locais não resolve problemas estruturais que impedem os países da região de alcançar uma maior taxa de crescimento no longo prazo.

Para o Brasil, as principais vulnerabilidades citadas nos relatórios deste ano do FMI e do Banco Mundial estão nos gargalos de oferta e na produtividade da economia.

De la Torre notou que o crescimento da região – que o FMI estima em 2,5% para este ano – está sendo reduzido, entre outras razões pelo esgotamento dos modelos baseados em consumo doméstico e pela desaceleração da economia chinesa.

Entretanto, ele ironizou o pessimismo de analistas que começaram a chamar as economias emergentes de "submergentes".

O economista disse que, contrário ao que muitos pensam, o crescimento do crédito na América Latina não se deu de modo desordenado, e que os mecanismos de supervisão do sistema financeiro na região estão entre os mais avançados do mundo.

Ele acrescentou que o investimento direto externo, mais sólido que os capitais voláteis, é o grande financiador dos déficits da região.

E afirmou que, embora o investimento esteja abaixo do desejável em países como o Brasil (o equivalente a menos de 20% do PIB), ainda é responsável por um bom quinhão do crescimento econômico das economias latino-americanas.

"Não é certo (dizer) que o crescimento econômico latino-americano foi tão débil na década passada, com pés de barro, como se diz", afirmou De la Torre.

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