FMI reduz projeções e levanta dúvidas sobre potencial de emergentes

  • 8 outubro 2013
Fábrica de automóveis em São Bernardo do Campo (Reuters)
Para o Brasil, a previsão de crescimento econômico foi reduzida para 2014

Além de reduzir a projeção de crescimento para o Brasil e outros emergentes nos próximos dois anos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou nesta terça-feira para os desafios aliados ao crescimento dessas economias no mais longo prazo.

Para o Brasil, a previsão de crescimento de 2,5% neste ano foi mantida – mas a expectativa para 2014 passou a ser de que o país repita o desempenho, em vez de registrar um crescimento de 3,2% como previa o Fundo no seu último relatório.

Para os emergentes como um todo, o crescimento seria de 4,5% neste ano e 5,1% no próximo.

As mudanças sinalizam o deterioro das "condições favoráveis", como altos preços de commodities e um ambiente financeiro positivo, que na década passada levaram a um aumento do potencial de crescimento dos países emergentes, disse em entrevista o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard.

Agora, declarou o economista, "a questão óbvia é se essa desaceleração é cíclica ou reflete uma diminuição do potencial de crescimento".

"Só saberemos a resposta com o tempo. Mas, com base no que sabemos hoje, é uma combinação de ambos."

Os mercados emergentes estão enfrentando crescimento mais lento em um ambiente de difícil condições financeiras, ressaltou o FMI. E há tensões que nascem a partir de uma "evolução" no sentido oposto: a recuperação gradual das economias avançadas.

À medida que essa recuperação leve à normalização das taxas de juros, os fluxos de capitais para os países emergentes tendem a ser revertidos ou pelo menos reduzidos. Isto deixa países com situação fiscal frágil e inflação alta em situação particularmente vulnerável, disse Blanchard.

"A resposta correta dos países emergentes precisa ser dupla: eles precisam colocar a sua casa macroeconômica em ordem, esclarecer os seus pilares de política monetária e manter a sustentabilidade fiscal", afirmou o economista.

Aumentos de taxa de juros podem ser necessárias, e mais que isso, os países "precisam adotar uma política monetária crível", acrescentou Blanchard.

"Em segundo lugar, em resposta à saída ou desaceleração da entrada de capitais, precisam deixar as suas taxas de câmbio flutuarem."

Brasil no caminho certo

É uma receita que o Brasil tem adotado e que, na visão do FMI, coloca o país na direção certa.

O diretor de Estudos Econômicos Mundiais do FMI, Thomas Helbling, disse que, ao interromper a trajetória de redução nas taxas de juros para manter os preços sob controle, o Brasil "mostrou a sua determinação em manter a sua política monetária e restabelecer ou estabelecer o fato de que esta política é crível".

Desde abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central já elevou a taxa de juros quatro vezes, de 7,25% por ano para 9%.

No entanto, em três meses neste ano (março, maio e junho) o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor-Amplo, usado oficialmente pelo governo para metas inflacionárias) acumulado em 12 meses já ficou acima do teto da meta oficial, de 6,5%.

Por isso o mercado espera uma nova elevação da taxa Selic. O boletim Focus, um levantamento de opiniões junto ao mercado, aponta a expectativa de que a Selic encerre o ano em 9,75%.

"Isto se encaixa na mensagem de manter casa macroeconômica em ordem", disse Helbling. "Nesse sentido, não tem sido exatamente uma viagem sem tormenta, mas os ingredientes para avançar e manter a economia estável dentro do possível estão aí."

Potencial menor

Mas esta adaptação ao ajuste cíclico, como definiu o FMI, é apenas parte do problema. O outro lado da equação será lidar com um menor potencial de crescimento da economia.

A estimativa do FMI para o chamado PIB potencial do Brasil – a capacidade de a economia crescer com base na sua capacidade já instalada, sem criar pressões inflacionárias – caiu de 3,2% em 2011 para 2,8% neste ano.

O Fundo não dá razões para esta diminuição, mas muitos analistas no mercado oferecem uma explicação.

"Até hoje o governo priorizou o consumo e não a oferta. Hoje, já usamos boa parte da infraestrutura, boa parte da mão de obra, e pouco a pouco fomos consumindo uma capacidade instalada no Brasil, que nunca teve grande volume, mas tinha uma certa parte ociosa no passado", disse à BBC Brasil o economista do banco Santander Cristiano Souza.

"Você esgotou o uso da capacidade instalada, sobretudo em termos de mão de obra, aumentou o custo das empresas, principalmente em termos de custo unitário de trabalho, e diminuiu a rentabilidade das empresas", enumerou o economista.

Isso complicou o investimento "em um ambiente que por si só já era problemático, com impostos altos, um sistema tributário complexo, infraestrutura de má qualidade e forte regulação do mercado de trabalho", opinou Souza.

Favorecer investimentos

Sem fazer uma menção direta a essa discussão, Olivier Blanchard, do FMI, mencionou a remoção das barreiras ao investimento no Brasil como uma das "reformas estruturais podem ajudar e estão se tornando mais urgente" nos países emergentes.

Também apontou para os gargalos em infraestrutura que podem dificultar o crescimento do país de modo sustentado.

O relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês) divulgado nesta terça-feira, avalia que a desvalorização do câmbio pode melhorar a competitividade das exportações brasileiras. Mas Cristiano Souza avalia que isto só ocorrerá na medida em que a inflação corroa os salários e gere ganhos de produtividade.

Outro problema decorrente da desvalorização cambial são as pressões inflacionárias. Cada 10% de desvalorização do câmbio, ele disse, eleva a inflação em 0,85 ponto percentual.

A estimativa de inflação do Santander é de um IPCA de 6,3% neste ano e 6,5% no ano que vem, caindo para 6% em 2015. As projeção são ligeiramente mais altas que as do mercado e do FMI.

A expectativa de crescimento do banco para a economia brasileira é 2,3% neste ano, 1,7% em 2014 e 1,5% em 2015.

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