Clima de campanha eleitoral ronda cirurgia de Cristina Kirchner

  • 8 outubro 2013
Apoiadores de Cristina Kirchner diante do hospital onde ela está internada (Foto: Reuters)
Presidente recebeu demonstrações de apoio diante do hospital onde foi operada

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, foi operada nesta terça-feira de um hematoma cerebral, em meio ao clima de campanha no país pelas eleições legislativas marcadas para o próximo dia 27.

O secretário de Comunicação Pública da Presidência, Alfredo Scoccimarro, leu o boletim médico da equipe que operou a presidente, pouco depois da cirurgia. "A operação foi satisfatória. A presidente está com muito bom humor e rodeada por familiares", disse diante das câmeras de televisão, na porta do hospital. Um novo boletim será divulgado nesta quarta-feira.

Minutos antes, o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, aliado de Cristina, afirmou que ela passava bem e que já havia se recuperado da anestesia.

Setores da oposição criticaram a falta de informações "precisas" antes da divulgação do primeiro boletim oficial após a operação. E até agora não foram oficialmente esclarecidas as circunstâncias da queda que provocou o hematoma na presidente.

"Os médicos da Presidência deveriam explicar melhor tudo o que está acontecendo. Essa situação gera incertezas", disse o prefeito de Buenos Aires, o opositor Mauricio Macri.

Em campanha eleitoral para o pleito legislativo, que renovará metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, os candidatos da oposição criticaram a forma como a Presidência foi delegada, durante o mês de ausência de Cristina, ao vice-presidente Amado Boudou, que enfrenta processos por enriquecimento ilícito.

"Não foi o mais conveniente a designação de Boudou para a Presidência devido à situação judicial que enfrenta", disse o candidato a deputado federal e opositor Ricardo Alfonsín, da UCR, filho do ex-presidente Raul Alfonsín (1983-1989).

Outro candidato a deputado federal, José Ignacio de Mendiguren, ex-presidente da União Industrial Argentina (UIA), disse que a presidente deveria ter dado "uma delegação parcial das tarefas" da Presidência "para a tranquilidade de todos".

Poder 'concentrado'

Nas emissoras de rádio e de televisão, analistas observaram que a preocupação é "dupla" - em relação à saúde da presidente, que exerce o poder de "forma concentrada", e ao papel de Boudou.

"Boudou é uma nulidade política, e o cristinismo repete o sistema soviético. E só Cristina tem o poder real sobre as decisões econômicas. Quem decidirá sobre a economia durante a recuperação da presidente?", escreveu o colunista de político do La Nación, Joaquín Morales Solá.

O candidato do governo ao Senado, o ex-ministro Daniel Filmus, disse à imprensa que "não tem nenhuma dúvida de que Boudou conduzirá muito bem o processo" até o retorno da presidente.

Ao mesmo tempo, jornais argentinos dizem que quem comandará de fato o país durante a ausência de Cristina será seu secretário Legal e Técnico, Carlos Zannini, mão direita da presidente e "considerado o kirchnerista mais duro por aliados e rivais", segundo o diário La Nación.

Até esta terça, não havia informação oficial sobre quando a presidente deixará o hospital e retornará à residência de Olivos. Segundo especialistas entrevistados pela imprensa local, a expectativa é de que ela passe "entre 30 e 45 dias" de repouso.

Ainda não está claro qual o impacto da saúde da presidente no pleito do dia 27. O governo argentino saiu derrotado das primárias eleitorais realizadas em agosto, um termômetro para as eleições parlamentares.

O principal foco de disputa é a província de Buenos Aires, tradicional reduto peronista. Pesquisas apontam o ex-aliado de Cristina e provável candidato à sua sucessão, o também peronista Sergio Massa, como favorito.

Nas primárias, Massa venceu o candidato governista, Martín Insaurralde. Cristina agora tenta recuperar a força do kirchnerismo na província a fim de assegurar apoio político para os dois últimos anos de seu governo, que acaba em 2015.

Em pesquisa de opinião realizada pela empresa Polldata em Buenos Aires, e divulgada pelo jornal Clarín, 61% dos entrevistados disseram que a cirurgia "não muda o sentimento que já têm pela presidente", enquanto 19% afirmaram ter agora "muito mais afeto por ela", e 12,8%, "um pouco mais de simpatia" pela presidente.

Antes do problema de saúde, diferentes pesquisas apontavam baixa popularidade da presidente. Seu vice, Boudou, estava entre os políticos com maior rejeição no país, de acordo com levantamentos das consultorias Management & FIT e Poliarquia.

'Fuerza Cristina'

Seguidores de Cristina Kirchner realizaram uma vigília na entrada do hospital onde ela foi operada, com cartazes de cartolina e bandeiras com os dizeres "Fuerza Cristina".

A expressão também virou uma das mais citadas do Twitter no país. "(São) cinquenta tuítes por minutos com #FuerzaCristina, a maioria deles desejando melhoras", publicou o site do jornal Clarín, crítico do governo.

Uma parcela menor de mensagens também ironizou a presidente, lembrando denúncias de enriquecimento ilícito que rondam Cristina e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010.

No Brasil, a presidente Dilma Rousseff também usou a rede social para desejar "solidariedade para @CFK (perfil de Cristina no Twitter), que é minha amiga e amiga do Brasil".

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