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Lucas Mendes: O segredo libanês

Atualizado em  22 de setembro, 2013 - 14:53 (Brasília) 17:53 GMT

- Você é brasileiro?

- Sou.

- Eu também, e tenho um banco. Porque você não deposita seu dinheiro comigo?

Entre brasileiros, isso é picaretagem pura, mas entre libaneses funciona. É uma das milhares de histórias verdadeiras de libaneses bem sucedidos no mundo.

A deste banqueiro aconteceu em Nova York. O imigrante George Atalla, chegou do Líbano em 78 e foi morar mal no bairro de Queens. Quase sem inglês, ralou daqui e dali e acabou empregado num banco.

Graças às suas conexões libanesas, telefônicas e outras, enriqueceu. Esta solidariedade da colônia, a ponto de entregar seu dinheiro só porque é patrício é uma das explicações do sucesso do imigrante libanês.

Mas serão eles os imigrantes mais bem sucedidos do mundo? Esta é uma sacada recente de Sthepen J. Dubner , jornalista, autor de quatro livros e mais conhecido como co-autor de Freaknonomics e Super- Freakonomics.

Um argumento mais forte do sucesso libanês é adversidade. Houve duas grandes ondas imigratórias libanesas, uma de 1870 até 1920 e outra a partir de 1975, na guerra civil. Os principais destinos foram Estados Unidos, Brasil, Canadá, Argentina, Austrália e África do Sul. Onde foram deram certo.

O libanês Nassim Taleb, no seu último livro, Antifragile: Things that Gain from Disorder (Antifrágil, coisas que ganham com a desordem), sustenta, entre tantas coisas que ganharam com a desordem, está o vigor libanês não só fora, mas também dentro do Líbano.

“Parece caótico, mas é mais estável do que o Egito que parecia tão sólido. A estabilidade saudita também é falsa”, afirma.

A pequena cidade onde ele vivia, completamente destruída na guerra civil, hoje está mais prospera do que nunca. “Com tantos problemas, o índice de homicídios no Líbano é mais baixo do que nos Estados Unidos e muito mais baixo do que no Brasil”, diz Taleb.

Carlos Slim, mexicano libanês, é o segundo homem mais rico do mundo. O brasileiro libanês Carlos Ghosn, super executivo, é modelo global.

A lista dos libaneses milionários e líderes em suas áreas é imensa. A dos bem educados não é menor. Nos Estados Unidos, a proporção de libaneses com teses de doutorado é uma das mais altas do país.

Guga Chacra, colega jornalista bem sucedido, neto de imigrante libanês e filho de um médico não menos bem sucedido, é um especialista no assunto que estudou na universidade Columbia.

Guga: "É impressionante como imigrantes de um país minúsculo se deram bem em New Hampshire, Montreal, São Paulo, Cidade do México, Porto Príncipe, Monrovia, Riad, Sidney e Paris. No Brasil, por exemplo, a revista Veja fez um levantamento para escolher os melhores médicos por especialidade em São Paulo. Sete dos 21, incluindo meu pai, são de origem sírio-libanesa. Sem falar no hospital Sírio-Libanês”.

Mas Chacra, que se refere aos imigrantes como sírio-libaneses, não afirma que sejam os mais bem sucedidos do mundo. Seguramente estão entre os mais bem sucedidos, mas coloca junto com eles os judeus alemães e os armênios. Mas qual a explicação do sucesso?

Chacra acha que o Líbano é o único país do mundo sem maioria religiosa. “Cristãos, xiitas, sunitas têm 30% cada e os druzos os outros 10%. Esta experiência de não ser maioria facilita muito na hora de imigrar, por saberem o que é ser minoria, assim como os judeus."

O Líbano tem hoje 4,5 milhões de habitantes. Entre 15 a 16 milhões de libaneses imigrantes e descendentes vivem mundo afora. Nenhum outro país tem esta proporcionalidade. Nosso colega jornalista, o judeu Caio Blinder, escreveu “que o grande negócio do pequeno Líbano é exportar libaneses”.

Obrigado, Caio, pela citação. Minha consciência diz que deveria mandar o dinheiro desta coluna para o Guga, que perdeu horas comigo, mas meu lado judeu falou mais alto. Vou ficar devendo.

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